As ligas que representam a maioria dos clubes de elite do futebol brasileiro estão unindo forças em uma negociação que pode finalmente trazer nossos times de volta aos principais jogos de futebol eletrônico. A Liga Forte União (LFU) e a Liga do Futebol Brasileiro (Libra) estão trabalhando juntas para garantir a presença completa dos clubes tanto no EA Sports FC quanto no eFootball, resolvendo um problema antigo que há anos frustra os fãs brasileiros de games esportivos.

O que está em jogo nas negociações
Atualmente, a situação dos times brasileiros nos jogos de futebol é, bem, complicada. Enquanto o eFootball mantém uma parceria exclusiva com 20 times da Série A e o Athletico-PR, o EA Sports FC apresenta um cenário ainda mais estranho: temos times brasileiros nas competições da Conmebol, mas com jogadores genéricos que não existem na vida real. É como assistir a um jogo com o uniforme certo, mas com pessoas completamente diferentes em campo.
O que mais me surpreende é que essa fragmentação de direitos não é novidade no futebol brasileiro. Cada clube negocia individualmente seus direitos de imagem, e as ligas representam grupos diferentes de times. Essa falta de unidade sempre dificultou acordos abrangentes com as desenvolvedoras de games.
Os benefícios além do virtual
Marcelo Paz, presidente da LFU, deixou claro que os times estão dispostos a facilitar o processo de licenciamento. E faz todo sentido quando entendemos que a visibilidade internacional é o principal motivador desse movimento. Pense bem: quantos torcedores estrangeiros realmente conhecem o Fluminense, o Internacional ou o Santos além dos nomes de alguns jogadores que se transferiram para a Europa?

Essa exposição nos games pode abrir portas para outros negócios internacionais - direitos de transmissão, patrocínios, amistosos. É uma jogada inteligente das ligas, que recentemente também uniram forças para fechar um contrato com a 1190 Sports para os direitos internacionais do Brasileirão.
Os desafios que ainda persistem
Apesar do otimismo, ainda há obstáculos significativos. A exclusividade atual do eFootball com 21 times precisa ser resolvida, e as negociações com duas empresas concorrentes (EA e Konami) exigem um delicado equilíbrio. Além disso, cada clube tem suas particularidades contratuais com jogadores e sponsors.
E aqui vai uma reflexão: será que as desenvolvedoras estarão dispostas a investir na licenciamento completo dos times brasileiros? Afinal, estamos falando de dezenas de clubes, centenas de jogadores, estádios e uniformes - um trabalho monumental de captura de dados e imagens.
Fontes: Sports Insider, ESPN
O impacto nos jogadores e no mercado
Enquanto as negociações avançam nos bastidores, os jogadores brasileiros também têm muito em jogo. Atualmente, muitos atletas de clubes nacionais sequer aparecem nos games com suas reais características físicas e habilidades. É frustrante para um jovem talento que sonha em se ver representado digitalmente, mas acaba sendo substituído por um jogador genérico sem nome real ou rosto conhecido.
E não são apenas os atletas profissionais que perdem com essa situação. Pense nos milhares de criadores de conteúdo que focam no futebol brasileiro. Eles precisam recorrer a mods não-oficiais ou trabalhar com times incompletos, limitando seu potencial de crescimento nas plataformas de streaming. A comunidade modder brasileira até que faz um trabalho impressionante, mas nada substitui a experiência oficial.

O timing estratégico das negociações
O que pouca gente percebe é que o momento atual é particularmente favorável para essas negociações. A EA Sports está em fase de reconstrução de sua marca após o fim da parceria com a FIFA, enquanto a Konami tenta recuperar espaço no mercado com o eFootball após anos de transição complicada do PES. Ambas as empresas precisam de diferenciais competitivos, e o futebol brasileiro oferece exatamente isso.
Além disso, o Brasileirão vem ganhando cada vez mais visibilidade internacional. A transmissão em mais países, o sucesso de clubes em competições continentais e a exportação de talentos criaram um interesse global que não existia cinco anos atrás. As desenvolvedoras sabem que incluir times brasileiros completos não é mais um luxo, mas quase uma necessidade para cativar o mercado sul-americano e os fãs de futebol ao redor do mundo.
Curiosamente, essa não é a primeira vez que tentam unificar os direitos. Em 2020, houve uma iniciativa similar que acabou não indo para frente devido a conflitos entre as ligas e questões de governança. Dessa vez, porém, o cenário parece diferente. As ligas entenderam que a união traz mais força negociadora, especialmente considerando que o Flamengo - o clube com maior torcida do país - permanece fora desses acordos e negocia separadamente.
Os detalhes técnicos que poucos consideram
Implementar os times brasileiros vai muito além de simplesmente colocar escudos e uniformes nos games. Cada clube exige uma captura detalhada de seus estádios, desde a arquitetura característica até os cantos específicos da torcida. Os jogadores precisam ter seus rostos digitalizados com tecnologia photogrammetry, um processo demorado que requer que os atletas disponibilizem tempo para as sessões de captura.
E tem mais: as equipes de desenvolvimento precisam criar animações específicas que capturem a essência do futebol brasileiro. Nosso estilo de jogo é diferente do europeu - mais dribles improvisados, passes ousados, comemorações características. Será que as desenvolvedoras estarão dispostas a investir nesses detalhes culturais?
Outro ponto crucial são as atualizações de elenco. O mercado brasileiro é extremamente dinâmico, com jogadores chegando e saindo constantemente. Manter os times atualizados exigiria um esforço contínuo das desenvolvedoras, que tradicionalmente focam nas ligas europeias onde as janelas de transferência são mais previsíveis e os elencos mais estáveis.
Com informações do: Adrenaline