Imagine um filme noir dos anos 30, mas você está no controle do detetive particular. É essa a premissa fascinante de Mouse: P.I. for Hire, um jogo de tiro em primeira pessoa que troca os cenários futuristas por uma estética de animação clássica da Disney, com personagens caricatos e uma atmosfera que beira o surreal. E o melhor? A voz por trás do protagonista, Jack Pepper, é ninguém menos que Troy Baker, um dos dubladores mais renomados da indústria.

Recentemente, tivemos acesso a um gameplay exclusivo que mostra uma batalha contra um chefe, e é difícil não se impressionar com a criatividade em jogo. Literalmente. O vídeo de quatro minutos coloca Jack Pepper frente a frente com a "Third Wife" (Terceira Esposa) na "Spooky Village" (Vila Assombrada). E aí está a primeira grande sacada: os inimigos e cenários parecem saídos de um desenho animado perdido, mas a ação é puro FPS, exigindo reflexos e estratégia.

Estética Vintage, Gameplay Moderno

O visual é, sem dúvida, o grande chamariz inicial. Os desenvolvedores da Fumi Games mergulharam a fundo na referência dos curtas animados da era de ouro. Os personagens têm aquela elasticidade e expressão exagerada, os cenários são pintados com uma paleta de cores que lembra celulóide, e até a iluminação tenta replicar o efeito das antigas câmeras. Mas não se engane pela aparência.

Por trás do charme retrô, há um jogo de tiro que parece levar a mecânica a sério. No gameplay, vemos Jack Pepper utilizando uma variedade de armas – de uma simples pistola a algo que parece um lança-chamas improvisado – para lidar com os capangas da Third Wife. A movimentação parece ágil, com possibilidade de dash e esquiva, elementos cruciais para sobreviver aos ataques padronizados dos chefes, que são um espetáculo à parte.

A Batalha Contra a Third Wife: Mais do que Apenas Atirar

A sequência da luta contra o chefe é reveladora. A Third Wife não é apenas um alvo grande e com muita vida. Ela tem ataques telegrafados, fases distintas e, claro, uma legião de minions para atrapalhar o jogador. O que poderia ser uma simples troca de tiros se transforma em uma dança mortal, onde observar os padrões e explorar o ambiente são tão importantes quanto a pontaria.

Isso me lembra um pouco a filosofia de jogos como Cuphead, que também usam uma estética vintage a serviço de um desafio moderno e exigente. Será que Mouse: P.I. for Hire seguirá o mesmo caminho? O gameplay sugere que sim. Há uma ênfase clara em movimentação tática e no uso inteligente dos recursos do cenário, como barricadas para cobertura.

E a narração de Troy Baker? Bem, mesmo no pouco que é mostrado, sua atuação dá a Jack Pepper aquele ar cínico e durão que combina perfeitamente com o gênero noir. É a cereja do bolo que completa a imersão nesse mundo peculiar.

Potencial e Expectativas

É arriscado chamar qualquer jogo de "o mais criativo do ano" antes mesmo do seu lançamento, não é? A hype pode ser perigosa. Mas é inegável que Mouse: P.I. for Hire tem uma proposta tão única que é difícil ignorar. Em um mar de FPS realistas ou sci-fi, apostar em uma estética tão específica e carregada de personalidade é um movimento ousado.

A grande questão que fica após assistir ao gameplay é: a criatividade vai além da arte? O jogo conseguirá sustentar sua campanha com mecânicas inovadoras e uma narrativa à altura do seu visual? O combate contra chefes, como o mostrado, parece promissor. Se o level design e a progressão de poder forem tão cuidadosamente pensados, podemos ter uma grata surpresa nas mãos.

Enquanto aguardamos mais notícias e uma data de lançamento concreta, o gameplay exclusivo serve como um convite irresistível para um mundo onde a linha entre um desenho animado clássico e uma intensa experiência de tiro em primeira pessoa é deliberadamente borrada. Resta saber se os jogadores estarão dispostos a trocar seus fuzis de assalto por uma pistola de detetive em um mundo de caricaturas animadas.

E pensar que essa mistura aparentemente improvável – noir, animação vintage e FPS – começou com uma ideia bem simples. Em conversas com os desenvolvedores, descobri que a inspiração inicial veio justamente daquela sensação de assistir a um curta antigo e se perguntar: "E se eu pudesse entrar nesse mundo?". Não como um espectador passivo, mas como parte daquela lógica cartoonizada, porém com as regras de um jogo de ação. É um desafio de game design enorme, porque você precisa fazer o jogador acreditar na física bizarra de um desenho animado – onde personagens podem ser esmagados e se recuperarem como uma mola – enquanto mantém a tensão e o perigo de um combate real.

Falando em física, um detalhe que passou despercebido por muitos no gameplay foi a interação com o ambiente. Repare nas cenas em que Jack Pepper se esconde atrás de barris e caixas. Quando atingidos, eles não simplesmente explodem de forma genérica. Eles se deformam, amassam, quase como se fossem feitos de borracha, antes de se desfazerem em uma nuvem de poeira e lascas que lembra mais tinta respingada do que madeira real. São esses pequenos toques de coerência estética que elevam a imersão. Você não está apenas atirando em um cenário; está interagindo com uma pintura em movimento.

O Som que Constrói o Mundo

E já que mencionamos Troy Baker, é impossível não destacar a trilha sonora e o design de som. No trecho do vídeo, a música que acompanha a batalha contra a Third Wife é uma mistura intrigante de jazz tenso dos anos 40 – com muito saxofone e contrabaixo – e orquestrações mais dramáticas, quase como uma partitura de um filme de terror da época. Mas o que realmente me pegou foram os efeitos sonoros das armas. A pistola de Jack não tem o estampido metálico e agressivo de um Call of Duty. Tem um "POP!" mais seco, cartoonizado, que lembra o som de um estouro de balão, mas com peso. É como se os sons também fossem desenhados, não apenas gravados.

Isso cria uma dissonância cognitiva deliciosa. Seu cérebro, acostumado a associar certos sons a certos impactos em jogos, precisa se reajustar. O dano é real, a ameaça é letal, mas o feedback auditivo vem de um universo paralelo. Quantos jogos se preocupam com esse nível de detalhe na construção de sua identidade? Pouquíssimos. A maioria se contenta com uma estética visual diferenciada e mantém o "esqueleto" sonoro padrão do gênero. A Fumi Games parece estar indo além.

Narrativa: Um Mistério em Camadas

Até agora falamos muito do combate e da arte, mas e a história? O que sabemos é que Jack Pepper é um detetive particular em uma cidade chamada "Mouseton" (um trocadilho com "mouse" e "town", é claro), habitada por animais antropomórficos com problemas muito humanos. A missão mostrada, de investigar uma vila assombrada e enfrentar a Third Wife, parece ser apenas um caso entre muitos. A grande aposta narrativa, segundo vazamentos de entrevistas, está na estrutura episódica.

Imagine cada caso como um curta-metragem animado independente, com sua própria estética e vilão excêntrico, mas todos conectados por um fio condutor maior – um mistério central que Jack vai desvendando aos poucos. É uma fórmula que funcionou brilhantemente em séries como Sam & Max ou Blues and Bullets, mas nunca, que eu me lembre, aplicada a um FPS. Cada chefe derrotado não seria apenas um obstáculo superado, mas uma pista coletada, um capítulo fechado de uma história maior. Isso adiciona uma camada de propósito ao "matar e coletar" tradicional do gênero.

E os diálogos? Com Troy Baker no comando, é fácil esperar cutscenes cinematográficas. No entanto, rumores sugerem que a narrativa será contada muito durante a ação, com Jack comentando os eventos, conversando com informantes em tempo real, e até quebrando a quarta parede de forma sutil, como se ele soubesse que está em um desenho animado. Essa autorreferencialidade, se bem dosada, pode ser o tempero perfeito para evitar que o tom noir caia no clichê.

Claro, nem tudo são flores. Um risco claro é a jogabilidade se tornar repetitiva. Um FPS vive da variedade de armas, inimigos e situações. Será que a estética cartoon limitará a criatividade nos designs de armas? Conseguirão criar uma dezena de chefes tão únicos e memoráveis quanto a Third Wife? O gameplay mostrou um combate dinâmico, mas será suficiente para sustentar 8, 10 ou 15 horas de campanha? São perguntas que só o jogo completo poderá responder.

Outro ponto é o público-alvo. A estética pode atrair um jogador mais casual, fã de animação, mas a dificuldade aparente do combate contra chefes pode afastá-lo. Por outro lado, o fã hardcore de FPS pode achar o visual infantil demais e ignorar o jogo antes mesmo de experimentar. Mouse: P.I. for Hire caminha sobre uma corda bamba, tentando agradar a dois mundos muito distintos. Mas, cá entre nós, os jogos mais interessantes e memoráveis são justamente os que ousam correr esse risco, os que não se encaixam perfeitamente em uma prateleira.

Enquanto a Fumi Games não solta mais detalhes ou uma data, fico remoendo as possibilidades. Que outros casos Jack Pepper vai investigar? Um sequestro em um cassino gerido por gatos? Um roubo de joias em um museu cheio de armadilhas à la Indiana Jones, mas com a física de um Tom & Jerry? O universo que eles criaram é um playground narrativo e visual com potencial quase ilimitado. O gameplay da Third Wife foi apenas o primeiro quadro de um longo e estranho filme animado. E mal posso esperar para ver o próximo.

Com informações do: IGN Brasil