O mercado automotivo brasileiro acaba de perder um de seus nomes mais icônicos. Após mais de três décadas de presença ininterrupta, a Mitsubishi L200 sai oficialmente de linha, encerrando um capítulo que começou em 1991. A decisão marca uma reestruturação estratégica da marca, que agora concentra todos os seus esforços no segmento de picapes médias em um único modelo: a nova Triton. É o fim de uma era para um veículo que vendeu quase meio milhão de unidades e ajudou a moldar o gosto do brasileiro por picapes robustas e versáteis.
Uma história de quase 500 mil unidades
A trajetória da L200 no Brasil é, em muitos aspectos, um reflexo da própria evolução do mercado de picapes. Chegou inicialmente como importada nos anos 90, conquistando espaço com sua robustez e capacidade de trabalho. Mas foi em 1998, com o início da produção nacional em Catalão, Goiás, que ela realmente fincou suas raízes. De lá para cá, foram várias gerações, cada uma trazendo inovações que, em alguns momentos, anteciparam tendências.
Lembro-me de quando, nos anos 2000, ela se destacou ao oferecer câmbio automático em uma picape diesel – uma combinação ainda rara por aqui na época. Foi um movimento ousado que mostrou que a picape podia ser tanto uma ferramenta de trabalho quanto um veículo confortável para o dia a dia. Em 2007, com a quarta geração, veio o nome 'Triton' associado ao L200 e a chegada do potente motor 3.2 turbodiesel. Era uma picape que não tinha medo de mostrar sua força.

A quinta geração, em 2016, trouxe uma modernização significativa com o motor 2.4 turbodiesel de bloco de alumínio. Mas, curiosamente, mesmo com todas essas evoluções, o nome 'L200' permaneceu como uma âncora emocional para muitos consumidores. Você já dirigiu uma? Para muita gente, era a primeira picape da família, o veículo que sobrevivia a estradas ruins e cargas pesadas sem reclamar.
Por que aposentar um nome tão consolidado?
Aqui está uma questão que pode parecer contra-intuitiva à primeira vista. Afinal, por que abandonar uma marca com tanta história e reconhecimento? A resposta parece estar na simplificação e no reposicionamento. Durante parte de 2025, a geração anterior da L200 ainda dividiu a linha de produção em Catalão com a nova Triton. Mas a ampliação da gama desta última – que agora inclui versões claramente voltadas para o uso profissional, como a GL – tornou essa coexistência redundante do ponto de vista operacional e de marketing.
Pense bem: manter dois projetos distintos no mesmo segmento significa custos de desenvolvimento, produção e comunicação duplicados. Em um mercado tão competitivo quanto o de picapes médias, onde a Toyota Hilux, a Ford Ranger e a Fiat Toro travam batalhas acirradas, focar recursos em um único produto faz sentido estratégico. A Triton herda todo o know-how da L200, mas chega com uma identidade visual mais agressiva, tecnologia atualizada e uma proposta de valor unificada.

A linha da Triton que assume o legado é bastante completa: GL, GLS, HPE, HPE-S, Katana e Savana. Um detalhe interessante é que a versão de entrada, a GL, focada em vendas corporativas, ainda oferece a opção do câmbio manual de seis marchas – um aceno aos frotistas que prezam pelo custo inicial mais baixo. Todas as outras, no entanto, já vêm com o automático como padrão, sinalizando para onde o mercado está indo.
O que a nova Triton traz para a briga?
Do ponto de vista técnico, a transição parece bem planejada. Todas as versões da Triton são movidas pelo mesmo motor 2.4 turbodiesel, que entrega 205 cv e uma torque robustíssimo de 47,9 kgfm. A tração 4x4 é item de série em toda a linha, mas aqui há uma segmentação inteligente. As versões mais acessíveis (GL, GLS, HPE) utilizam o sistema Easy Select, com três modos de operação. Já os modelos topo de linha (HPE-S, Katana e Savana) contam com o sistema Super Select II, mais sofisticado, que adiciona um quarto modo e bloqueios diferenciais para quem realmente precisa de capacidade off-road.

É uma estratégia clara: oferecer uma base mecânica sólida e confiável para todos, mas reservar os recursos mais avançados – e caros – para quem está disposto a pagar por eles. Em um país de dimensões continentais e com uma variedade enorme de tipos de uso, desde o trabalho rural até o lazer nas praias, essa flexibilidade é crucial.
O que me surpreende, em uma análise mais fria, é como a picape média brasileira evoluiu. Da L200 importada dos anos 90 até a Triton biturbo de hoje, houve uma revolução em conforto, segurança, tecnologia e eficiência. A aposentadoria do nome L200 não é um adeus às capacidades que ele representava, mas sim a consolidação dessas qualidades sob uma nova bandeira. A pergunta que fica é: em um mercado onde a tradição e o nome do modelo têm peso significativo, os consumidores vão abraçar a Triton com a mesma fidelidade que tinham pela L200? Só o tempo – e as vendas – dirão.

E essa transição não é apenas uma troca de nome na ficha técnica. Ela reflete uma mudança mais profunda na forma como as montadoras enxergam o consumidor brasileiro. Há uma década, a robustez e a durabilidade eram os principais argumentos de venda. Hoje, o cliente quer tudo isso, mas também exige conectividade, assistência à condução e um nível de acabamento que rivalize com SUVs premium. A Triton chega justamente para atacar esse ponto, com uma cabine que parece ter saído de um veículo de categoria superior.
O desafio de conquistar o coração do frotista
Um dos públicos mais fiéis da antiga L200 sempre foi o corporativo. Construtores, empresas de logística, fazendas – lugares onde a picape é ferramenta de trabalho antes de ser um símbolo de status. Para eles, a decisão de compra é puramente racional: custo de aquisição, manutenção previsível, revenda forte e, acima de tudo, confiabilidade mecânica. A pergunta que muitos gestores de frota devem estar se fazendo é: a nova Triton GL, herdeira direta desse legado, consegue manter a mesma fórmula de sucesso?
Em minha experiência conversando com donos de frotas, percebo um ceticismo saudável em relação a mudanças muito radicais. Eles gostam do que funciona. A boa notícia é que, por baixo da carroceria redesenhada e do interior moderno, a essência permanece. O motor 2.4 turbodiesel já é conhecido do mercado, e a opção pelo câmbio manual na versão de entrada é um aceno inteligente a esse público. Mas será o suficiente? A concorrência não dorme no ponto. A Fiat Toro, por exemplo, fez um trabalho excepcional em oferecer um pacote de conectividade e conforto que agrada tanto ao usuário corporativo quanto ao pessoal.
Outro ponto crucial é a rede de concessionárias. Uma picape que roda milhares de quilômetros por ano, muitas vezes em regiões afastadas, depende de uma assistência técnica ágil e com peças disponíveis. A Mitsubishi tem o desafio de garantir que a transição do nome não cause qualquer ruptura nesse suporte. Afinal, de que adianta um veículo confiável se, na hora de uma manutenção, o dono enfrenta dificuldades?
E o mercado de usados? Uma oportunidade ou um risco?
Aqui entra um aspecto fascinante e pouco comentado. A saída de linha da L200 tende a criar um efeito interessante no mercado de seminovos. Por um lado, pode valorizar as unidades das últimas gerações, que se tornarão os "últimos de uma linhagem clássica". Já vimos isso acontecer com outros modelos icônicos que foram descontinuados. Por outro lado, pode gerar uma certa desconfiança inicial sobre a disponibilidade futura de peças e o suporte da marca para um modelo que não é mais produzido.
É um equilíbrio delicado. Para o consumidor que está pensando em comprar uma L200 usada hoje, a notícia pode ser um sinal amarelo ou uma luz verde, dependendo de como ele enxerga a situação. Alguns podem ver uma chance de adquirir uma picape robusta e consagrada a um preço mais atraente, antes que ela se torne um "clássico" e valorize. Outros podem temer que, daqui a cinco anos, encontrar um parachoque dianteiro ou uma peça específica do motor se torne uma via-crúcis.
A Mitsubishi, é claro, tem obrigação legal de fornecer peças de reposição por anos. Mas a percepção do mercado, sabemos, nem sempre segue a lógica da legislação. O que você acha? A descontinuidade agrega ou subtrai valor de um carro no mercado de usados?
O design como divisor de águas
Enquanto a L200, especialmente em suas gerações mais antigas, tinha um visual mais quadrado e utilitário, a Triton aposta em linhas agressivas, faróis estreitos e uma dianteira que lembra a grade dinâmica de alguns SUVs. É uma linguagem visual que dialoga com o presente, mas que também pode alienar parte do público tradicional. Conheço pessoas que compraram a L200 justamente por sua aparência "séria" e "de trabalho". Para elas, uma picape muito estilizada pode passar uma imagem de menos resistente, mesmo que a engenharia diga o contrário.
É um risco calculado. A montadora claramente busca atrair um novo perfil de comprador, mais jovem e urbano, que usa a picape para o lazer no fim de semana e para projetos pessoais durante a semana. A versão Savana, com suas rodas de liga leve, barras laterais e acessórios esportivos, é a materialização máxima dessa estratégia. Mas e o cara que precisa da picape para carregar tijolos e andar em estrada de terra todos os dias? Ele se sentirá representado por um veículo com esse visual?
Talvez a resposta esteja na segmentação interna da linha. A GL, mais simples e "limpa" visualmente, pode ser a resposta para esse comprador. Já as versões topo, como a Katana, podem abraçar o design ousado sem medo. A verdade é que o mercado brasileiro de picapes se fragmentou. Não existe mais um único consumidor, mas vários, com necessidades e desejos completamente diferentes. Conseguir agradar a todos com um só modelo é o grande quebra-cabeça.
E isso nos leva a pensar no futuro próximo. Com a Hilux dominando as vendas com sua receita conservadora e confiável, e a Toro conquistando espaço com design e conectividade, em que nicho a Triton vai se encaixar? Ela tenta ser um meio-termo, herdando a robustez de uma e buscando o moderno da outra. É uma posição complicada, mas que, se bem executada, pode ser extremamente lucrativa. Afinal, quem não quer o melhor dos dois mundos?
O silêncio sobre planos futuros, como uma possível versão híbrida ou elétrica, também é significativo. Enquanto algumas marcas globais já anunciam suas picapes eletrificadas, a Mitsubishi parece focada em consolidar a Triton a combustão no Brasil primeiro. É uma estratégia pragmática, considerando nossa infraestrutura e o perfil de uso intenso desses veículos. Mas em um horizonte de cinco a dez anos, essa pode se tornar uma lacuna perigosa. A pressão por eficiência e menores emissões só vai aumentar.
Com informações do: Quatro Rodas











