O cenário dos jogos como serviço (GaaS) é repleto de tentativas e, muitas vezes, de fracassos retumbantes. Títulos promissores surgem com grande alarde, prometendo mundos persistentes e conteúdo infinito, apenas para desaparecerem em silêncio alguns meses depois, deixando para trás comunidades desiludidas e servidores vazios. Nesse contexto, a trajetória de Arc Raiders se destaca não como um fenômeno de vendas instantâneo, mas como um caso de estudo fascinante sobre adaptação, escuta ativa e a construção de algo duradouro. A pergunta que fica é: como um jogo que começou de uma forma conseguiu se reinventar para conquistar seu espaço?
Quando foi anunciado, Arc Raiders se apresentava como um shooter cooperativo PvE de terceira pessoa, focado em enfrentar hordas de máquinas invasoras em um mundo aberto. A premissa era sólida, o visual da desenvolvedora Embark Studios (fundada por ex-executivos da DICE) era impressionante, mas havia um certo ceticismo no ar. Afinal, quantos jogos do tipo já vimos prometerem a lua? O que aconteceu depois do lançamento, porém, é que a história realmente começou a ficar interessante.
Mais do que um lançamento, um processo contínuo
Ao invés de tratar o lançamento como um ponto final, a equipe por trás de Arc Raiders o encarou como o início de um diálogo. Eles monitoraram de perto como os jogadores interagiam com os sistemas, quais atividades geravam engajamento e, crucialmente, o que faltava. Diferente de muitos estúdios que se apegam rigidamente a uma visão inicial, a Embark demonstrou uma agilidade notável. Atualizações significativas não se limitaram a consertar bugs ou adicionar skins – elas remodelaram aspectos fundamentais da progressão, adicionaram camadas de profundidade ao combate e expandiram o endgame de formas que respondiam diretamente aos pedidos e ao comportamento da comunidade.
Um exemplo prático? A introdução de sistemas de personalização mais profundos e de missões sazonais com narrativas envolventes, que deram um propósito além da simples repetição. Eles entenderem que, em um jogo como serviço, o "serviço" é tão importante quanto o "jogo". Isso significa suporte consistente, comunicação transparente e a coragem de mudar de rumo quando os dados e o feedback mostram um caminho melhor.
Construindo confiança em um gênero cético
Talvez a maior conquista de Arc Raiders tenha sido reconstruir a confiança dos jogadores em um modelo que, vamos ser sinceros, já queimou muita gente. Como eles fizeram isso? Primeiro, evitando práticas predatórias de monetização. O jogo adotou um modelo de battle pass e loja de cosméticos que é justo e transparente, sem itens "pay-to-win" ou loot boxes enganosas. Segundo, estabelecendo um ritmo de conteúdo previsível e de qualidade. Os jogadores sabem que, a cada temporada, podem esperar novas histórias, desafios e recompensas, criando um ciclo virtuoso de engajamento.
E terceiro – e isso é fundamental –, demonstrando respeito pelo tempo do jogador. A progressão é gratificante sem ser um trabalho árduo, e as atividades diárias e semanais são projetadas para serem divertidas, não uma obrigação. Na minha experiência, é essa combinação que transforma um jogador casual em um fã dedicado. Você não joga por medo de perder algo, mas porque genuinamente quer estar ali.
O que outros estúdios podem aprender com essa jornada
Olhando para o sucesso sustentado de Arc Raiders, algumas lições saltam aos olhos. A primeira é que a paciência é uma virtude. Construir um mundo vivo leva tempo, e tentar replicar o sucesso de um Destiny ou Warframe da noite para o dia é uma receita para o desastre. A Embark Studios parece ter entendido que estava em uma maratona, não em uma corrida de 100 metros.
A segunda lição é a importância da identidade. Em vez de tentar ser um "mata-mata" de tudo para todos, Arc Raiders abraçou seu nicho como um shooter cooperativo PvE tático. Ele faz bem uma coisa específica, e atrai uma comunidade que valoriza exatamente isso. Essa clareza de propósito se reflete em cada decisão de design, criando uma experiência coesa.
Por fim, e talvez o mais importante, é a lição sobre humildade. Lançar um jogo como serviço é admitir que você não tem todas as respostas no dia um. É um processo colaborativo com sua comunidade. A desenvolvedora mostrou uma capacidade impressionante de ouvir, aprender e iterar, sem perder a visão central do projeto. E no final das contas, não é disso que se trata um verdadeiro "serviço"? Servir aos jogadores, entregando uma experiência que evolui e melhora com o tempo, construindo não apenas um jogo, mas um destino onde as pessoas querem passar seu tempo livre.
O caminho ainda está sendo pavimentado, é claro. Novos desafios surgirão, e a concorrência nunca para. Mas a forma como Arc Raiders navegou por suas primeiras temporadas estabeleceu um padrão notável. Ele prova que, com o enfoque certo, um jogo como serviço pode ser mais do que um produto – pode se tornar um hobby duradouro para milhares de pessoas. E nesse mercado, essa talvez seja a vitória mais significativa de todas.
Mas vamos mergulhar um pouco mais fundo nessa "escuta ativa" que mencionamos. Não foi apenas sobre ler fóruns ou acompanhar métricas de engajamento – foi algo mais orgânico. A equipe da Embark literalmente jogava com a comunidade, participando de partidas em servidores públicos e conversando em canais de Discord. Lembro de ver relatos de jogadores surpresos ao encontrar desenvolvedores em suas sessões, fazendo perguntas diretas como "O que está achando da nova mecânnica de escudo?" ou "Essa missão está muito repetitiva para você?". Essa proximidade gerou um nível de confiança raro. Os jogadores sentiam que suas vozes não eram apenas coletadas em pesquisas, mas realmente ouvidas.
E isso nos leva a um ponto crucial: a transparência na comunicação. Quantas vezes vimos estúdios prometerem "estamos ouvindo" apenas para entregar atualizações que pareciam desconectadas da realidade da comunidade? A Embark adotou uma postura diferente. Eles compartilhavam não apenas o "o quê" das mudanças, mas o "porquê". Em posts de desenvolvedores detalhados, explicavam os dados que analisaram, os trade-offs de design considerados e, às vezes, até admitiam quando uma ideia inicial não havia funcionado como esperado. Essa vulnerabilidade, longe de mostrar fraqueza, construiu uma parceria genuína com os jogadores.
A Evolução do "Endgame": De Grind a Narrativa
No início, como muitos títulos do gênero, Arc Raiders enfrentou o desafio do endgame. Os jogadores que atingiam o nível máximo se deparavam com um ciclo de atividades repetitivas para obter equipamentos ligeiramente melhores – o famoso "grind". Foi aí que uma das viradas mais interessantes aconteceu. Em vez de apenas adicionar mais dungeons ou chefes com mais pontos de vida, a equipe introduziu as "Sagas Temporais".
Essas sagas não eram apenas uma lista de missões novas. Elas contavam histórias. Cada temporada trazia uma nova facção de máquinas, com uma estética e um comportamento de combate distintos, e uma narrativa ambiental que se desdobrava através de logs de áudio, artefatos espalhados pelo mundo e até mudanças físicas no mapa. De repente, jogar o endgame não era apenas sobre otimizar estatísticas, mas sobre desvendar um mistério. Qual era a origem dessas novas máquinas? Que ameaça maior elas anunciavam? Essa camada narrativa deu um propósito emocional ao engajamento, algo que muitos GaaS negligenciam completamente.
E falando em mapa, a abordagem para o mundo aberto também evoluiu. As primeiras atualizações expandiram áreas, sim, mas as mais recentes começaram a introduzir "Eventos de Estado Mundial". São ocorrências raras e de grande escala, ativadas quando a comunidade atinge certos objetivos coletivos. Imagine logar e descobrir que, devido às ações dos jogadores na semana anterior, uma nova fenda de invasão se abriu em uma região específica, alterando a fauna de máquinas e liberando missões exclusivas por um tempo limitado. Isso cria um senso de mundo vivo e reativo que é incrivelmente poderoso.
Monetização: O Caminho do Meio Difícil (Mas Necessário)
É impossível falar de GaaS sem tocar no assunto espinhoso da monetização. Aqui, Arc Raiders fez escolhas que parecem óbvias em retrospecto, mas que muitas empresas ainda relutam em adotar. Eles estabeleceram um princípio claro desde cedo: tudo o que afeta o gameplay seria obtível apenas jogando. Pontos de habilidade, armas, modificações – todo o poder do seu personagem vem da experiência no jogo.
A loja, então, ficou restrita a itens cosméticos. Mas mesmo aqui houve cuidado. Em vez de um catálogo estático com preços exorbitantes, eles implementaram um sistema rotativo com preços acessíveis e, mais importante, uma abundância de cosméticos de alta qualidade obtíveis gratuitamente através das temporadas. O battle pass, por exemplo, tem uma trilha gratuita robusta que recompensa o tempo investido. A mensagem é clara: "Nós valorizamos sua presença, não apenas seu cartão de crédito".
E sabe o que é interessante? Do ponto de vista de negócios, essa abordagem parece estar funcionando. Ao criar uma base de jogadores leais e satisfeitos, eles cultivam uma comunidade disposta a apoiar o jogo comprando itens estéticos para se expressar, não por obrigação. É um modelo de sustentabilidade baseado em boa vontade, não em coerção. Na minha opinião, é essa distinção que separa os serviços de jogos que duram anos daqueles que são esquecidos em meses.
Claro, nem tudo foram flores. Houve erros no caminho. Lembro de uma atualização que tentou introduzir um sistema de crafting excessivamente complexo, que foi quase universalmente mal recebido pela comunidade. A reação da Embark, porém, foi exemplar. Em vez de defender a decisão ou aplicar pequenos ajustes, eles reconheceram publicamente que o sistema não estava atingindo seu objetivo de ser divertido e, após um período de teste, o retiraram completamente, prometendo retrabalhá-lo a partir do zero. Essa capacidade de "matar suas crias darlings" quando elas não funcionam é um sinal de maturidade raro no desenvolvimento de jogos.
O Desafio do Futuro: Mantendo a Chama Acesa
Então, para onde vai Arc Raiders daqui? O sucesso inicial e a base sólida estão estabelecidos, mas o verdadeiro teste para qualquer jogo como serviço é a maratona dos anos, não a corrida dos primeiros meses. Os desafios que se avizinham são de outra ordem. Como manter a narrativa fresca após várias temporadas? Como introduzir inovações de gameplay sem alienar a base de fãs que se apaixonou pela fórmula atual? Como escalar a produção de conteúdo para atender a uma comunidade que, com sorte, só vai crescer?
Algumas pistas já podem ser vistas no horizonte. Rumores e vazamentos de testes fechados apontam para a exploração de novos biomas – talvez até um ambiente subaquático ou subterrâneo, que mudaria radicalmente a mobilidade e as táticas. Há também conversas na comunidade sobre a possibilidade de modos de jogo mais orientados para a construção, onde os jogadores poderiam estabelecer postos avançados semipermanentes no mapa, defendendo-os de ondas de invasores. Seria um passo ousado em direção a uma experiência mais sandbox.
O maior risco, na minha visão, é a tentação de crescer rápido demais. A pressão para adicionar modos PvP (Player vs. Player), por exemplo, pode ser grande, dado o sucesso financeiro de outros títulos nesse espaço. Mas isso poderia diluir a identidade cooperativa PvE que é o coração do jogo. A lição até agora tem sido a de fazer bem uma coisa, em vez de muitas pela metade. Manter esse foco será crucial.
Outra frente será a acessibilidade e a onboarding de novos jogadores. À medida que o mundo e os sistemas ficam mais complexos com cada temporada, a barreira de entrada para um novato aumenta. Como ensinar anos de lore e mecânicas acumuladas sem sobrecarregar? A solução pode estar em sistemas de mentoria dentro do jogo, onde veteranos são recompensados por guiar recrutas, ou em uma reformulação inteligente da experiência inicial, que pode contar a história das temporadas passadas de forma resumida e cativante.
E não podemos esquecer da infraestrutura técnica. Servidores estáveis, matchmaking eficiente e suporte a novas plataformas (a tão pedida versão para consoles, por exemplo) são a espinha dorsal invisível que sustenta a experiência. Investir nisso não é glamouroso, mas é o que impede que a comunidade se fragmente ou fique frustrada com problemas de conexão.
O que me deixa otimista, porém, é o padrão que já foi estabelecido. A relação de confiança com a comunidade, a filosofia de design centrada no jogador e a coragem para iterar criam um alicerce forte. O caminho à frente para Arc Raiders não é sobre encontrar um truque novo ou um modinho de mercado para explorar. É sobre aprofundar o que já funciona. É sobre continuar a conversa que começou no lançamento, levando-a a novos patamares de complexidade e recompensa. Enquanto mantiverem os jogadores no centro dessa conversa, como têm feito, cada nova temporada não será apenas uma atualização, mas um novo capítulo em uma história coletiva que todos – desenvolvedores e jogadores – estão escrevendo juntos.
Com informações do: IGN Brasil










