A Sony Interactive Entertainment (SIE) fechou as portas da Bluepoint Games, um dos estúdios mais respeitados do PlayStation Studios, conhecido por seus trabalhos de remasterização e remake de títulos clássicos. A notícia, que pegou muitos fãs de surpresa, resultou na demissão de aproximadamente 70 funcionários. A Bluepoint era responsável por entregas técnicas impecáveis, como o aclamado remake de Demon's Souls para PS5 e a belíssima recriação de Shadow of the Colossus para PS4.
O fechamento ocorre em um momento de reestruturação significativa dentro da Sony, que tem realocado recursos e encerrado projetos em vários de seus estúdios ao redor do mundo. Apesar do sucesso crítico e comercial de seus últimos trabalhos, a Bluepoint parece ter sido uma vítima dessa nova estratégia corporativa focada em eficiência e no desenvolvimento de franquias de maior escala.
Um Legado de Excelência Técnica
Fundada em 2006, a Bluepoint Games construiu sua reputação não como criadora de IPs originais, mas como uma artesã digital de primeira linha. O estúdio especializou-se em trazer jogos clássicos para novas gerações de hardware, muitas vezes superando as expectativas visuais e técnicas. Seu portfólio é um verdadeiro "quem é quem" dos clássicos do PlayStation: God of War Collection, Metal Gear Solid HD Collection, Uncharted: The Nathan Drake Collection e, é claro, os já mencionados Shadow of the Colossus e Demon's Souls.
O que tornava seu trabalho especial? Eles não se limitavam a um simples "upscale" de texturas. A Bluepoint recompunha ativos do zero, reescrevia engines para aproveitar ao máximo o novo hardware e, em casos como o de Shadow of the Colossus, praticamente refazia o jogo inteiro mantendo a alma e a jogabilidade intocadas. Era uma forma de preservação digital de alto nível.
O Contexto por Trás do Fechamento
O movimento da Sony não é isolado. Nos últimos meses, vimos a empresa fechar a London Studio e realizar cortes significativos em outras subsidiárias, como a Firesprite e a Insomniac Games. Há uma pressão clara do mercado por rentabilidade e por jogos "service" (GAAS) que gerem receita contínua. Estúdios focados em projetos únicos, de ciclo mais longo e orçamento elevado – mesmo que de altíssima qualidade – estão sob escrutínio.
E isso levanta uma questão incômoda: em uma indústria que valoriza cada vez mais franquias seguras e jogos ao vivo, ainda há espaço para estúdios especializados em revitalizar obras do passado? O remake de Demon's Souls foi um sucesso de vendas e um showpiece técnico para o PS5, mas talvez, na visão dos executivos, os recursos da Bluepoint fossem mais bem empregados em uma nova entrada de God of War ou em um jogo multiplayer.
O legado da Bluepoint, no entanto, permanece. Eles elevaram a arte do remake, mostrando que é possível honrar uma obra original enquanto a apresenta a uma nova audiência com padrões modernos. A perda de um estúdio com tamanha expertise técnica e artística é um golpe para a preservação e acessibilidade do patrimônio dos videogames. O que acontece agora com os IPs que eles tão bem cuidaram? Quem, no ecossistema PlayStation, terá a paciência e o cuidado para dar o mesmo tratamento a outros clássicos que merecem uma segunda chance?
Mas, sabe, essa história toda me faz pensar sobre o valor que a indústria realmente dá à sua própria história. A Bluepoint não era só uma "fábrica de remakes". Eles eram curadores. Em um mundo onde jogos antigos podem se tornar inacessíveis devido a hardware obsoleto ou questões de licenciamento, o trabalho deles era uma forma de preservação ativa. E agora? Fica a sensação de que essa memória digital ficou um pouco mais frágil.
E o timing, não é irônico? A Bluepoint estava, segundo rumores persistentes, trabalhando em um projeto original. Após anos demonstrando maestria técnica ao reinterpretar a visão de outros, finalmente teriam a chance de contar sua própria história. O fechamento corta essa narrativa pela raiz, deixando fãs e curiosos se perguntando que jogo nunca veremos. Seria um novo IP de ação? Uma aventura narrativa? O mundo agora nunca saberá, e essa é talvez a maior perda de todas – a da potencialidade não realizada.
O Impacto nos Fãs e no Mercado de Remakes
Para o consumidor, a mensagem é clara, ainda que dura. A Sony parece estar sinalizando uma mudança de prioridades. Se antes havia um espaço claro para remakes de alta fidelidade como vitrines técnicas e produtos de nicho premium, agora a estratégia parece inclinar-se mais para o seguro, o massivo, o que garante retorno recorrente. Você pode até gostar da ideia de um remake de Legend of Dragoon ou Syphon Filter com a qualidade Bluepoint, mas se a análise de custo-benefício não fechar para um jogo que vende alguns milhões de cópias uma única vez, ele simplesmente não acontece.
Isso cria um vácuo. Outros estúdios, como a própria Santa Monica Studio (com God of War 2018) ou a Capcom (com seu incrível trabalho no RE Engine), mostram que é possível fazer reinterpretações ousadas. Mas a abordagem da Bluepoint era diferente. Era quase arqueológica. Eles desmontavam o jogo peça por peça, entendiam sua essência, e então reconstruíam com tecnologia de ponta, mantendo a "alma" intacta. Quem vai preencher esse nicho específico agora?
Talvez a resposta esteja em estúdios terceirizados menores, ou em divisões internas de outras grandes publishers. Mas o risco é que, sem a especialização e a paixão que definiam a Bluepoint, os futuros remakes se tornem mais genéricos – um upgrade visual sem a mesma reverência pelo material original. Já vimos isso acontecer antes, não é mesmo? Um remake que troca a atmosfera por gráficos brilhantes, ou que altera mecânicas fundamentais em nome da "modernização".
O Futuro Incerto dos Clássicos do PlayStation
E então nos deparamos com a pergunta prática: o que acontece com os catálogos clássicos da Sony? A empresa tem um tesouro de IPs adormecidos – Ape Escape, Jak and Daxter, Sly Cooper, Resistance, a lista é longa. A Bluepoint era a candidata natural, a escolha segura dos fãs, para trazer qualquer um desses de volta. Sua demissão do elenco de estúdios da PlayStation Studios deixa esses sonhos de revival em um limbo ainda mais profundo.
Será que a aposta agora é no PlayStation Plus Premium e em sua biblioteca de clássicos via emulação? É uma solução mais barata, com certeza, mas também é uma experiência muito diferente. Jogar um jogo de PS2 em 4K via emulação é uma coisa. Revivê-lo com modelos 3D refeitos, iluminação baseada em física e áudio refeito em 3D, como no remake de Shadow of the Colossus, é uma experiência completamente nova e, para muitos, superior.
O pior, na minha opinião, é a sensação de instabilidade que isso passa para os desenvolvedores. Se um estúdio com o currículo impecável da Bluepoint, responsável por alguns dos jogos mais lindamente polidos da plataforma, não está seguro, quem está? A mensagem tácita é que a excelência técnica e o respeito crítico podem não ser suficientes em um mercado obcecado por engajamento contínuo e margens de lucro cada vez maiores. É um pensamento desanimador para qualquer um que ama jogos como arte, e não apenas como produto.
E os 70 funcionários demitidos? Para onde vão talentos especializados em engines gráficas de última geração, otimização para hardware específico e o delicado equilíbrio de modernizar jogabilidade sem trair a intenção original? Espero que sejam absorvidos rapidamente por outros estúdios – talvez até formando o núcleo de uma nova empresa que continue esse legado por conta própria. Mas a expertise coletiva, a cultura de estúdio que levou quase duas décadas para ser construída, se dissipou em um comunicado de imprensa.
No fim, fica a lição, amarga. A indústria dos games, como qualquer outra, é movida por ciclos e tendências. A era dos remakes de alta fidelidade como projetos de prestígio pode estar dando lugar a outra coisa. Resta saber se essa "outra coisa" vai deixar espaço para a mesma reverência pelo passado que a Bluepoint personificava. Enquanto isso, podemos ao menos revisitar Demon's Souls no PS5 e lembrar do que esse estúdio foi capaz – um último e deslumbrante suspiro de uma forma de arte que, pelo menos por agora, parece estar em vias de extinção.
Com informações do: IGN Brasil











