Quando você pensa em componentes essenciais para a Inteligência Artificial, provavelmente imagina GPUs da NVIDIA, servidores de última geração ou algoritmos complexos. Mas e se eu te dissesse que uma empresa japonesa, mundialmente famosa por seus vasos sanitários com assento aquecido, está se tornando uma peça fundamental nesse quebra-cabeça? É exatamente isso que está acontecendo com a Toto, e a história por trás disso é mais fascinante do que parece à primeira vista.

Do banheiro para a fábrica de chips
A Toto é, sem dúvida, uma instituição no Japão. Seus banheiros high-tech, com funções que vão desde aquecimento do assento até jatos de água com temperatura controlada, são quase um sinônimo de conforto doméstico no país. Mas o que poucos sabem é que décadas de expertise em trabalhar com cerâmica – material essencial para a fabricação de seus produtos – abriram uma porta inesperada para o mundo dos semicondutores.
Desde os anos 1980, a empresa fabrica os chamados mandris eletrostáticos. Soa técnico, não é? Basicamente, são componentes cerâmicos que seguram firmemente as finíssimas fatias de silício (os wafers) durante o processo de fabricação de chips. A magia está na estabilidade: essa cerâmica especial desenvolvida pela Toto mantém suas propriedades mesmo em temperaturas criogênicas, algo cada vez mais necessário conforme os chips de memória, especialmente os NAND usados para armazenamento, se tornam mais complexos e empilhados em camadas.
E aqui está o ponto crucial. Um relatório da Palliser Capital, um fundo de investimento que adquiriu participação na Toto, aponta que este segmento de cerâmica avançada já é responsável por 40% do lucro operacional da empresa. Não é um hobby ou um projeto secundário; é um negócio grande, lucrativo e, segundo a análise, subestimado pelo próprio mercado.

Uma vantagem inesperada na corrida pela IA
Todo mundo acompanha a explosão de demanda por hardware de IA. Os preços das memórias dispararam, e fabricantes como a Samsung e a SK Hynix estão correndo para aumentar a produção. Mas essa corrida depende de uma cadeia de suprimentos complexa, cheia de peças especializadas. É aí que a Toto entra, quase como um segredo guardado a sete chaves.
A Palliser Capital chegou a descrever a empresa como "a beneficiária mais subestimada e negligenciada da memória para IA". O argumento é forte: a tecnologia de mandris da Toto não é fácil de replicar. Eles falam em uma vantagem competitiva de cerca de cinco anos sobre possíveis concorrentes. Afinal, não se trata apenas de fazer cerâmica, mas de dominar uma fórmula e um processo de fabricação que garantem precisão extrema em condições extremas – conhecimento acumulado desde a era dos vasos sanitários.
O potencial de crescimento é significativo. A análise projeta que o negócio de cerâmica avançada pode impulsionar a receita da Toto em 30% ou mais nos próximos dois anos. E o mercado parece estar começando a perceber: as ações da empresa já valorizaram mais de 60% no último ano, com um salto perceptível após a divulgação do interesse da Palliser.
O investidor no banheiro
Falando em Palliser, a história ganha outra camada interessante. O fundo não é um mero observador; ele se tornou um dos 20 maiores acionistas da Toto e está publicamente pressionando a administração da empresa. A carta enviada ao conselho é um misto de elogio e cobrança: elogio pelo negócio de cerâmica que construíram, cobrança por não investirem nele de forma mais agressiva e por não comunicarem seu valor ao mercado de maneira clara.
Eles argumentam que a Toto está destinando uma parcela muito pequena de seus investimentos para este segmento que é justamente o mais promissor. Além disso, sugerem que a empresa poderia usar seus ¥76 bilhões em caixa (cerca de R$ 2,56 bilhões) de forma mais eficiente. A tese deles é otimista: se a Toto se reposicionar focando nessa área, suas ações poderiam valorizar mais de 55%.
É um daqueles casos clássicos onde um investidor ativista identifica um valor escondido que a própria empresa e o mercado não estão enxergando plenamente. A pergunta que fica é: a Toto vai abraçar essa identidade dupla de ícone do conforto doméstico e fornecedor crucial para a indústria de ponta?
Enquanto isso, a notícia serve como um lembrete fascinante de como a inovação tecnológica muitas vezes surge de lugares inesperados. Quem diria que o conhecimento para fabricar um vaso sanitário que aquece no inverno japonês seria a mesma base para segurar os chips de memória que alimentam o treinamento de modelos de IA como o ChatGPT? A linha entre o mundano e o revolucionário pode ser mais tênue do que imaginamos.
Fonte: Financial Times.
O que torna a cerâmica da Toto tão especial?
Para entender por que essa vantagem é tão difícil de replicar, é preciso mergulhar um pouco na física dos materiais. A cerâmica usada nos mandris eletrostáticos não é a mesma de um piso ou de um vaso sanitário comum. É um composto avançado, desenvolvido para ter uma expansão térmica quase nula. Pense nisso: quando você aquece ou resfria a maioria dos materiais, eles se expandem ou contraem. Em um processo de fabricação de chips que pode envolver mudanças de temperatura drásticas, qualquer micrometro de variação no mandril que segura o wafer pode arruinar um lote inteiro de semicondutores caríssimos.
A Toto domina a arte de dopar sua cerâmica com elementos específicos – um segredo industrial guardado a sete chaves – para alcançar essa estabilidade quase sobrenatural. Eles também desenvolveram técnicas de sinterização (o processo de "cozinhar" a cerâmica para solidificá-la) que eliminam poros microscópicos. Poros significam pontos fracos e variações na condutividade elétrica, o que é um pesadelo para um componente que precisa gerar uma força eletrostática uniforme e precisa.
É um conhecimento que não se adquire da noite para o dia. É o tipo de expertise tácita, construída ao longo de décadas de tentativa, erro e refinamento. Algo que começou, ironicamente, com a busca por uma cerâmica que não rachasse com o calor constante de um assento aquecido e que fosse perfeitamente lisa e higiênica. A transição para os semicondutores foi, em muitos aspectos, uma evolução natural dessa busca pela perfeição material.

Um gargalo silencioso na cadeia de suprimentos
Enquanto os holofotes da mídia estão todos voltados para a TSMC, NVIDIA, Samsung e SK Hynix, empresas como a Toto operam nos bastidores, como peças fundamentais de uma engrenagem colossal. E o que acontece quando uma dessas peças não consegue escalar? Criamos um gargalo. A análise da Palliser toca justamente nesse ponto nervoso.
A demanda por memórias de alta densidade, especialmente para atender servidores de IA, não está apenas crescendo; está explodindo. Fabricantes de chips estão correndo para empilhar mais e mais camadas de células NAND em um único wafer (a tecnologia 3D NAND). Cada salto nessa densidade – de 176 camadas para 200, depois para 230 ou mais – torna o processo de fabricação mais sensível e dependente de equipamentos de precisão extrema. O mandril que segura o wafer durante a litografia, deposição de filmes finos e etch (gravação) precisa ser impecável.
Se a Toto não conseguir aumentar sua produção de mandris no mesmo ritmo frenético da demanda por chips, ela se torna, involuntariamente, um limitador para toda a indústria. E substituí-la não é uma opção rápida. Desenvolver um fornecedor alternativo com o mesmo nível de qualidade e confiabilidade levaria anos, como o próprio relatório sugere. Isso coloca a empresa em uma posição de poder negocial muito forte, algo que o mercado de ações talvez ainda não tenha precificado completamente.
É um clássico caso de uma empresa B2B (business-to-business) cujo valor é amplificado pelo sucesso de seus clientes. Se a Samsung vende mais chips de memória para data centers de IA, ela precisará de mais mandris da Toto. É uma alavancagem indireta, mas poderosa, sobre o megatrend da inteligência artificial.
O dilema da identidade corporativa
A pressão da Palliser Capital vai além de números e projeções de receita. Ela cutuca uma questão mais profunda e cultural: a identidade da Toto. No imaginário coletivo, tanto no Japão quanto no exterior, a Toto é sinônimo de banheiros high-tech. É uma marca de consumo, associada a conforto, inovação doméstica e até um certo status. Seu presidente, Madoka Kitamura, é frequentemente fotografado ao lado de novos modelos de vasos sanitários em feiras de decoração.
Como, então, reposicionar a empresa para os investidores globais como uma fornecedora crítica de componentes para semicondutores, um setor notoriamente cíclico e de altíssima tecnologia? É um desafio de comunicação e estratégia. A Palliser, em sua carta, praticamente acusa a administração de ter "vergonha" ou de subestimar seu próprio negócio industrial, tratando-o como um parente pobre em relação ao negócio de acessórios sanitários, que tem margens menores e crescimento mais lento.
Eles sugerem medidas drásticas: desde a criação de uma unidade de negócios separada e com maior transparência para a divisão de cerâmica avançada, até a possibilidade de um spin-off (separação da empresa) no futuro. O argumento é que isso liberaria valor e permitiria que o mercado avaliasse essa parte do negócio com os múltiplos de valuation típicos do setor de tecnologia, muito mais altos do que os aplicados a uma fabricante de produtos para o lar.
Mas será que o conselho da Toto, uma empresa japonesa tradicional com uma cultura corporativa focada em estabilidade e reputação de longo prazo, está disposto a abraçar essa agitação? O ativismo de fundos estrangeiros ainda pode ser visto com certa desconfiança no meio corporativo japonês, que valoriza a harmonia e a gestão consensual.
Enquanto esse embate estratégico se desenrola nas salas de reunião de Tóquio, a fábrica da Toto em Kokura segue produzindo. De um lado da linha, peças cerâmicas que em breve serão parte de banheiros em novos apartamentos. Do outro, mandris que serão enviados para fábricas na Coreia do Sul, Taiwan ou Estados Unidos, onde ajudarão a dar vida aos chips de memória que armazenarão os dados para treinar a próxima geração de modelos de IA. Dois mundos aparentemente desconexos, unidos pela mesma ciência dos materiais. A pergunta que fica para os investidores e para a indústria é: qual desses mundos vai definir o futuro – e o valor – da Toto nos próximos anos?
O desfecho dessa história pode servir como um estudo de caso sobre como empresas com legados em setores tradicionais podem possuir "diamantes brutos" tecnológicos em seu portfólio, muitas vezes escondidos à vista de todos. A próxima movimentação da administração da Toto, seja para acalmar o investidor ativista ou para traçar um caminho próprio, será observada de perto não só pelo mercado financeiro, mas por todos que estão de olho na complexa e frágil cadeia de suprimentos que sustenta a revolução da IA.
Com informações do: Adrenaline











