Em um movimento que pegou muitos de surpresa, a Sony anunciou o fechamento da Bluepoint Games, o estúdio responsável por alguns dos remakes mais aclamados da última década, como Demon's Souls e Shadow of the Colossus. A decisão, que deve se concretizar em março, coloca cerca de 70 profissionais no mercado e levanta questões profundas sobre a estratégia atual da gigante do PlayStation e o futuro dos estúdios especializados. Afinal, por que fechar uma casa com um histórico tão sólido de entregas de alta qualidade?

Sony vai fechar a Bluepoint Games, dos remakes de Demon’s Souls e Shadows of the Colossus

Uma História de Excelência Técnica e Fidelidade

Fundada em 2006 por Andy O’Neil e Marco Trush, a Bluepoint construiu sua reputação não na criação de novas IPs, mas na arte de revitalizar clássicos. Eles eram os artesãos digitais, os especialistas em pegar uma obra amada e não apenas atualizá-la graficamente, mas muitas vezes reimaginar sua jogabilidade para uma nova geração de hardware. Seu portfólio é um verdadeiro "quem é quem" dos grandes sucessos da Sony: eles trabalharam nas coleções HD de God of War e Uncharted, contribuíram para a Metal Gear Solid HD Collection, e entregaram remakes completos e impressionantes de Shadow of the Colossus (2018) e Demon's Souls (2020).

Este último, aliás, foi praticamente o cartão de visita técnica do PlayStation 5 no lançamento. Muitos compradores do console buscavam justamente aquela experiência visualmente deslumbrante. A Bluepoint provou que um remake poderia ser mais do que um simples retrabalho; poderia ser uma celebração e uma evolução. Então, o que deu errado?

A Tentativa de Reinvenção e a "Revisão de Negócios"

Aqui é onde a história fica mais complexa. Segundo a declaração oficial da Sony à Bloomberg, a decisão veio após "uma revisão de negócios recente". Em termos menos corporativos, isso geralmente significa que os números não fechavam ou a direção estratégica mudou. E a mudança de direção é um ponto crucial.

Após o sucesso de Demon's Souls, a Sony não pediu outro remake. Em vez disso, incumbiu a Bluepoint de desenvolver um jogo live service (serviço contínuo, com atualizações e microtransações) dentro do universo de God of War. Foi uma tentativa clara de reposicionar o estúdio para um modelo de negócios que a Sony vinha perseguindo agressivamente. No entanto, esse projeto foi cancelado no início de 2025.

O que aconteceu depois é revelador. A Bluepoint passou um ano inteiro apresentando novas propostas de jogos para a liderança do PlayStation. E, de acordo com as informações, nenhuma delas foi aceita. Imagine a situação: um estúdio talentoso, com um histórico comprovado, fica um ano na geladeira, tentando se reinventar após um projeto fracassado, e não recebe um "sim" sequer. É um sinal devastador de que a Sony já havia perdido a fé na visão criativa do estúdio ou não via um lugar para ele em seu novo plano.

Um Precedente Preocupante e o Futuro Incerto

O fechamento da Bluepoint não é um caso isolado, e é isso que torna a situação tão alarmante para fãs e para a indústria. A decisão lança uma sombra direta sobre o futuro da Bend Studio, criadora de Days Gone. A Bend teve seu próprio projeto (também um live service, supostamente) cancelado pela Sony no mesmo período, e desde então está em um limbo similar, sem nenhum anúncio público sobre seu próximo jogo. Um artigo do Adrenaline já havia levantado essa dúvida, questionando se ambas as studios foram pegas de surpresa pelos cancelamentos.

Na minha opinião, isso aponta para uma mudança sísmica na estratégia da Sony. A empresa parece estar fazendo uma aposta agressiva e arriscada: concentrar recursos em franquias gigantescas e garantidas (seu "bolo" de single-player narrativo) e em tentativas de live service que possam gerar receita recorrente. Estúdios de tamanho médio, como a Bluepoint e possivelmente a Bend, que não se encaixam perfeitamente em nenhuma dessas duas caixas, estão se tornando descartáveis. É uma mentalidade de "sucesso imediato ou nada" que pode, a longo prazo, esvaziar o catálogo da PlayStation de sua diversidade e inovação.

O legado da Bluepoint, no entanto, permanecerá. Eles foram mestres em um nicho específico e vital: preservar e embelezar a história dos jogos. Em um mundo onde a preservação digital é um desafio constante, seu trabalho tinha um valor cultural inegável. O fechamento deles deixa uma pergunta no ar para os jogadores: em uma indústria cada vez mais focada em serviços e retorno financeiro garantido, ainda há espaço para os artesãos que cuidam do nosso passado digital?

E essa pergunta não é apenas filosófica. Tem implicações práticas bem reais. Afinal, quem vai fazer o remake de Bloodborne agora? Ou de Metal Gear Solid 4, que está preso no PlayStation 3? A Bluepoint era a candidata natural para esses projetos, a única em quem os fãs confiavam cegamente para não estragar a obra original. Sua ausência cria um vácuo técnico e criativo que será difícil de preencher.

Mas vamos além do óbvio. O que realmente define o "valor" de um estúdio para uma gigante como a Sony? É apenas o retorno financeiro do último projeto? A Bluepoint, em sua essência, era um ativo de prestação de serviço interno de altíssima qualidade. Eles liberavam as equipes criativas principais, como a Santa Monica Studio (God of War) ou a Naughty Dog (The Last of Us), para focarem em novas IPs, enquanto cuidavam da herança. Esse papel, aparentemente, perdeu seu valor estratégico. Ou pior: tornou-se um custo que não se justifica mais no balanço trimestral.

O Custo Humano e o "Efeito Dominó" na Indústria

Enquanto analisamos estratégias corporativas, é fácil esquecer o lado humano. Setenta pessoas, muitas com anos ou até décadas de experiência especializada em uma arte muito específica, agora estão desempregadas. O mercado de jogos, especialmente para profissionais de nível sênior em estúdios AAA, não é tão vasto quanto parece. Muitos desses talentos podem ser absorvidos por outras grandes publishers, é verdade. Mas a cultura e a expertise única que eles construíram juntos na Bluepoint—aquele conhecimento profundo de como refazer um jogo sem perder sua alma—se dissipa.

E o que dizer do efeito psicológico nos estúdios que permanecem sob o guarda-chuva da Sony? A mensagem é clara: "Performem ou desapareçam". Isso pode criar um ambiente de medo e conservadorismo criativo. Se você é um diretor criativo na Insomniac ou na Sucker Punch, vendo o que aconteceu com a Bluepoint após um único projeto cancelado, você vai se arriscar a propor algo arrojado e diferente? Ou vai preferir ficar no seguro, sugerindo uma sequência direta do que já deu certo? A inovação, muitas vezes, nasce justamente da possibilidade de falhar.

Além disso, há um efeito dominó no ecossistema de terceirizadas e estúdios de apoio. A Bluepoint certamente contratava serviços especializados de motion capture, localização, teste de QA e até mesmo de marketing. O fechamento de um estúdio de porte médio afeta uma rede inteira de pequenas empresas que dependem desses contratos. É um golpe na economia local do setor, especialmente se considerarmos que muitos desses estúdios estão concentrados em regiões como Austin, Texas (onde a Bluepoint estava sediada).

A Busca por Eficiência e o Fim da "Era dos Remakes Premium"?

Outra perspectiva é que a Sony pode estar simplesmente recalculando o custo-benefício dos remakes no estilo Bluepoint. Demon's Souls foi um sucesso crítico e um grande impulsionador de vendas do PS5, mas seu desenvolvimento não foi barato nem rápido. Requereu uma reconstrução quase do zero em uma engine de última geração. Em um momento onde os orçamentos dos jogos AAA facilmente ultrapassam a casa dos 200 milhões de dólares, talvez a Sony tenha decidido que esse tipo de investimento só vale a pena para novas IPs ou sequências de franquias bilionárias.

O que nos leva a um ponto interessante: será que a "era dos remakes premium"—aqueles que são praticamente novos jogos—está chegando ao fim? Talvez o futuro seja de remasters mais modestos, como os que vimos recentemente com The Last of Us Part I (feito pela Naughty Dog internamente) ou de serviços de emulação via assinatura, como a PlayStation Plus Premium oferece. É uma abordagem muito mais econômica, mas que sacrifica a transformação radical e o "wow factor" que a Bluepoint dominava.

E onde isso deixa os jogadores que apreciam esse tipo de trabalho? Frustrados, provavelmente. Há uma demanda genuína por essas releituras. Basta ver o sucesso de Resident Evil 4 Remake (Capcom) ou a expectativa em torno de um possível Red Dead Redemption refeito. A Sony, ao descartar sua principal ferramenta para atender a essa demanda, pode estar cedendo esse mercado para a concorrência. É uma decisão curiosa para uma empresa que sempre se vendeu como a guardiã da herança do PlayStation.

No fim das contas, o fechamento da Bluepoint é um sintoma de uma doença maior na indústria AAA: a aversão ao risco e a busca obsessiva por margens de lucro cada vez maiores. É mais seguro investir 300 milhões em um God of War ou em um live service que promete engajamento infinito do que 80 milhões em um remake de um clássico de nicho, por mais bem feito que seja. A arte da preservação e reimaginação perde para a fria matemática dos acionistas.

Mas será que essa matemática é tão fria assim? O valor de marca, a fidelidade do fã e a percepção de que a Sony cuida de seu legado também têm um preço, ainda que intangível. Ao fechar a Bluepoint, a empresa não está apenas demitindo funcionários; está, de certa forma, depreciando sua própria história. E isso é um risco de um tipo totalmente diferente—um risco para sua alma, que não aparece no relatório financeiro, mas que os jogadores sentem na pele toda vez que ligam o console.

Com informações do: Adrenaline