Após 26 anos de negociações, a União Europeia finalmente formou uma maioria para aprovar o acordo comercial com o Mercosul. Embora a comunicação oficial ainda esteja pendente, o movimento sinaliza uma mudança tectônica nas relações econômicas entre os blocos. Especialistas estimam um aumento de US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras para a Europa. Mas, para além dos números, o que realmente muda no chão de fábrica? Como ficam as montadoras instaladas aqui e o futuro dos carros que rodam nas nossas ruas? Vamos destrinchar os possíveis cenários.

Um novo mapa para a produção automotiva
A lógica é simples: eliminar a maioria das tarifas entre as duas regiões ao longo dos anos. Só que na prática, as coisas nunca são tão lineares. Milad Kalume Neto, da K.LUME Consultoria, aponta para uma reconfiguração inteligente, mas que exige cuidado. Ele acredita que nossa expertise em veículos híbridos flex – uma tecnologia genuinamente brasileira – pode finalmente ganhar a escala global que merece, impulsionando a indústria nacional.
No entanto, há um porém significativo. Com a equalização gradual dos preços, a produção de veículos de luxo no Brasil pode se tornar economicamente inviável. A Europa, com seu mercado consumidor maior e infraestrutura consolidada, se tornaria o polo natural para esses modelos. O que veríamos por aqui seria basicamente a importação desses carros, e não mais sua montagem local. É um trade-off: ganhamos em escala para o que fazemos bem, mas podemos perder nichos de alto valor agregado.

Os desafios e as oportunidades em detalhe
Kalume Neto destaca três pontos de atenção cruciais que vão muito além do preço final do carro na concessionária. São questões estruturais que definem o futuro da indústria:
Capacidade competitiva: As fabricantes do Mercosul terão que enfrentar concorrentes europeus com uma vantagem tecnológica e de economia de escala formidável. Competir de igual para igual será um desafio hercúleo.
O risco para as autopeças: Este talvez seja o calcanhar de Aquiles. Com peças mais baratas e tecnologicamente avançadas chegando da Europa, a indústria nacional de autopeças pode encolher ou até migrar. Ficaríamos mais dependentes de inovação externa, o que dificulta o desenvolvimento de soluções adaptadas às nossas estradas e combustíveis.
Uma nova lógica de investimento: O acordo pode explicar, em parte, a enxurrada de investimentos chineses no Brasil. Produzir aqui se torna uma porta de entrada privilegiada para o mercado europeu, criando um novo e interessante eixo geopolítico e industrial.
E as exportações? Aqui o Brasil tem cartas na manga. Na visão do consultor, nosso forte – hatchs, sedãs compactos, picapes e SUVs médios – tem grande potencial no mercado europeu. Mas a verdadeira jogada de mestre pode ser o etanol. A Europa está desesperada por soluções de descarbonização, e os carros elétricos puros estão enfrentando resistência. Os híbridos, especialmente os movidos a biocombustíveis, surgem como uma alternativa viável. O etanol brasileiro poderia ser a peça que falta nesse quebra-cabeça, embora exija investimentos pesados em infraestrutura de distribuição no Velho Continente.

Os prazos e as salvaguardas: não é um caminho sem volta
Calma, ninguém vai acordar amanhã com carros europeus pela metade do preço. A última proposta do governo brasileiro, de dezembro de 2024, estabelece prazos longos e escalonados. Veículos a combustão teriam impostos zerados em 15 anos. Os eletrificados, em 18. Os movidos a hidrogênio ou por tecnologias ainda inexistentes levariam 25 a 30 anos. Cassio Pagliarini, da Bright Consulting, lembra que a redução é gradual. O impacto será sentido aos poucos, ano a ano.
E se a concorrência ficar desleal? O acordo prevê cláusulas de proteção inteligentes. O Brasil poderá suspender por até três anos o cronograma de redução de tarifas (ou até voltar à alíquota atual de 35%) se perceber um risco sério à indústria local. E o melhor: sem precisar compensar a União Europeia por isso. É uma rede de segurança essencial que dá fôlego para o setor se adaptar.
O silêncio das associações do setor, como Anfavea e Abeifa, na manhã após a aprovação, é bastante revelador. Elas preferiram aguardar para se manifestar em coletivas oficiais nos próximos dias. É um sinal de que os detalhes ainda estão sendo digeridos, e as implicações são complexas demais para um comentário de corredor.
Mas vamos além das análises macroeconômicas e das cláusulas de salvaguarda. O que realmente vai mudar para você, consumidor, nos próximos anos? A primeira onda de impacto, claro, será nos preços. Imagine só: um hatchback europeu popular, que hoje chega aqui com um preço inflado por impostos, pode se tornar uma opção muito mais acessível daqui a uma década. Isso pressiona as montadoras locais a oferecerem mais por menos – mais tecnologia de série, mais itens de segurança, mais eficiência. A concorrência, quando bem regulada, é um ótimo motor para a inovação.
No entanto, há um lado menos comentado nessa história toda: a possível padronização. A Europa tem regras de segurança e emissões extremamente rigorosas, o chamado padrão Euro. O acordo pode acelerar a adoção dessas normas por aqui. Isso é bom? Em grande parte, sim. Significa carros mais seguros e menos poluentes nas nossas ruas. Mas também pode significar carros mais caros de produzir inicialmente, já que exigiria adaptações nas linhas de montagem. E, cá entre nós, será que um padrão pensado para as autobahns alemãs e as estradas alpinas é o ideal para as nossas BRs esburacadas e o nosso calor tropical? É uma discussão técnica fascinante que ainda vai render muita tinta.
O elefante na sala: a transição energética e o futuro do etanol
Falamos brevemente sobre o etanol, mas esse ponto merece um capítulo à parte. A Europa está numa encruzilhada energética. A meta de zerar emissões líquidas até 2050 é clara, mas o caminho para chegar lá está cheio de obstáculos. A infraestrutura de carregamento para elétricos não avança no ritmo esperado, e a dependência de baterias com matérias-primas controladas pela China gera desconforto geopolítico. É aí que o Brasil pode entrar não apenas como fornecedor de um biocombustível, mas como parceiro tecnológico.
Nossa expertise em motores flex e híbridos flex é um ativo subestimado. Enquanto o mundo discute se o futuro é elétrico a bateria, a hidrogênio ou e-fuels, o Brasil já tem uma solução de baixo carbono rodando há décadas. O acordo pode ser o empurrão que faltava para que montadoras europeias olhem com seriedade para desenvolver motores híbridos otimizados para etanol, não apenas para gasolina. Imagine um Volkswagen T-Cross ou um Fiat Pulse, tecnologias desenvolvidas aqui, sendo exportados para a Europa com um powertrain híbrido-flex de última geração. Seria uma revolução silenciosa, com DNA brasileiro.
Mas, convenhamos, não será fácil. A indústria do etanol na Europa é incipiente. Criar uma cadeia de distribuição do zero exigiria investimentos colossais e vontade política. Será que os governos europeus estão dispostos a subsidiar bombas de etanol como subsidiaram postos de carregamento elétrico? É uma incógnita. Por outro lado, a pressão por soluções pragmáticas de descarbonização nunca foi tão grande. O tempo do etanol pode estar finalmente chegando no cenário global.
E as marcas chinesas nesse tabuleiro?
O fluxo de investimentos chineses no Brasil nos últimos dois anos não é uma coincidência. É uma jogada de xadrez antecipada. A BYD, a Great Wall Motors (GWM), a CAOA Chery – todas elas estão montando ou expandindo fábricas por aqui. Por quê? O acordo Mercosul-UE transforma o Brasil em uma plataforma de exportação privilegiada. Produzir aqui significa ter acesso ao mercado sul-americano com tarifas reduzidas do Mercosul E, agora, um caminho pavimentado para a Europa.
Isso cria um cenário inédito de concorrência. De um lado, as tradicionais europeias (Volkswagen, Stellantis, Renault) que já estão aqui há décadas. Do outro, as ágeis chinesas, com tecnologia elétrica de ponta e processos industriais super eficientes. E no meio, as gigantes americanas e asiáticas (GM, Ford, Toyota, Hyundai). Quem sairá vencedora? Difícil dizer. Mas uma coisa é certa: o consumidor brasileiro terá uma variedade de produtos, tecnologias e preços como nunca viu antes. A briga pelo mercado nacional vai esquentar muito, e os europeus não poderão mais se escorar apenas no prestígio da marca. Terão que competir em inovação e custo.
E você, já parou para pensar como essa guerra comercial silenciosa pode afetar a revenda do seu carro daqui a cinco anos? O valor de mercado de um veículo hoje considerado "premium" pode mudar drasticamente se modelos equivalentes europeus se tornarem significativamente mais baratos. É um fator que ninguém comenta, mas que vai pesar na hora da troca.
Por fim, há uma questão cultural e de identidade industrial. Por anos, desenvolvemos carros "para o Brasil", com suspensões altas, motores flex e uma certa robustez para nossas condições. Com a abertura comercial e a possível convergência de padrões, corremos o risco de perder essa especificidade? Os carros "globais" que chegam da Europa atenderão às nossas necessidades reais? Ou seremos forçados a adaptar nossos gostos e nossas estradas ao produto estrangeiro? São perguntas que vão além da economia e tocam em como nos relacionamos com a tecnologia do dia a dia.
O acordo está aprovado, mas a partida só está começando. Os próximos meses serão cruciais para entender como as montadoras vão reposicionar seus portfólios, onde vão concentrar investimentos e quais tecnologias vão priorizar. A sensação é de que estamos diante de um ponto de inflexão. O setor automotivo brasileiro, que já passou por tantas transformações, está prestes a viver mais uma – talvez a mais profunda das últimas décadas. E o curioso é que, desta vez, o motor da mudança não está apenas em São Paulo ou em Brasília, mas também nos corredores de Bruxelas e nas linhas de montagem de Shenzhen.
Com informações do: Quatro Rodas











