É quase um consenso entre fãs e críticos: Neon Genesis Evangelion é um marco cultural que transcende o gênero de anime, deixando uma marca profunda na narrativa audiovisual. Mas você já parou para pensar em como essa influência se manifesta em obras aparentemente tão distintas? Em uma revelação que mistura admiração e uma pitada de provocação, o excêntrico diretor Yoko Taro, mente por trás da série Nier, admitiu que seu aclamado Nier:Automata é, em suas próprias palavras, uma "cópia descarada" do clássico de Hideaki Anno. A afirmação vai muito além de uma simples homenagem, tocando no cerne da criação artística e na linha tênue entre inspiração e apropriação.
Uma Inspiração que Vai Além da Superfície
Quando Yoko Taro fala em "cópia", ele não se refere a uma replicação de enredo ou personagens. O que ele capturou de Evangelion foi algo mais profundo: a atmosfera existencial, a estrutura narrativa quebra-cabeça e, principalmente, a abordagem filosófica sobre a condição humana. Em minha experiência analisando ambas as obras, percebo que o paralelo mais forte reside na forma como colocam seres aparentemente artificiais – os EVA e os androides Yorha – para questionar o que realmente nos define como "humanos". Ambos os mundos são cenários pós-apocalípticos onde a luta pela sobrevivência serve apenas como pano de fundo para um exame muito mais íntimo e perturbador da alma.
É fascinante, não é? Dois universos tão visualmente diferentes – um com robôs gigantes e anjos bíblicos, outro com androides elegantes e máquinas grotescas – convergem no mesmo sentimento de desespero e busca por significado. Taro parece ter entendido que a genialidade de Anno não estava nos mechas, mas na crueza psicológica com que ele desmontava seus personagens.
O Legado de Evangelion na Narrativa de Videogames
A declaração de Taro joga luz sobre um fenômeno interessante: a migração de temas e estruturas narrativas complexas dos animes para os videogames de orçamento AAA. Nier:Automata, lançado em 2017, não foi apenas um sucesso comercial e de crítica; ele provou que o público de jogos estava mais do que pronto para histórias não-lineares, finais múltiplos que exigem replays (uma clara referência ao conceito de "Instrumentalidade Humana") e questionamentos éticos densos.
E não para por aí. Se olharmos com atenção, veremos ecos de Evangelion em outros cantos da indústria. A série Xenogears e Xenosaga sempre carregaram essa influência de forma explícita. Mais recentemente, títulos como 13 Sentinels: Aegis Rim da Vanillaware brincam com narrativas fragmentadas e revelações lentas que lembram muito o ritmo do anime. Parece que a lição que os criadores de jogos aprenderam foi que os jogadores, assim como os espectadores dos anos 90, anseiam por algo que os desafie intelectualmente e emocionalmente, e não apenas no nível de habilidade nos controles.
Inspiração versus Cópia: Onde Fica a Linha?
A honestidade brutal de Yoko Taro reacende um debate antigo na criação artística. Em um meio onde "inspirações" são muitas vezes mascaradas ou negadas por medo de processos ou críticas, ele abraça a influência de forma quase desafiadora. Mas será que isso diminui o valor de Nier:Automata? Absolutamente não. Pelo contrário.
O que Taro fez foi um ato de tradução cultural. Ele pegou os temas centrais de Evangelion – a solidão, a desconexão, a busca por um propósito em um mundo hostil – e os recontextualizou dentro da linguagem interativa dos videogames. A jogadora 2B não é uma réplica da Rei Ayanami, mas ambas compartilham aquela aura de melancolia e um destino que parece estar além de seu controle. A sensação de desorientação ao desvendar a trama de Automata é visceralmente similar àquela que tivemos ao assistir aos episódios finais da série original. É uma cópia, sim, mas no sentido mais elevado do termo: uma releitura que dialoga com a fonte e, de certa forma, a expande para uma nova mídia e uma nova geração.
E aí, isso faz de você ver os androides de Nier com outros olhos? A genialidade, muitas vezes, não está em inventar algo totalmente novo do zero, mas em saber como recombinar elementos existentes de uma maneira que soe fresca e pessoal. A próxima vez que você ligar o console para mais uma sessão, talvez valha a pena se perguntar: quais outras histórias clássicas estão escondidas, esperando para serem redescobertas, nos jogos que você mais ama?
Mas vamos além da filosofia e da estrutura. Se você parar para analisar os detalhes, vai encontrar paralelos mais concretos que sustentam a afirmação de Taro. A relação entre os personagens principais, por exemplo. A dinâmica entre 2B, 9S e A2 tem ecos inconfundíveis da tríide Shinji, Rei e Asuka. Não é uma correspondência um-para-um, claro – a genialidade está justamente na distorção. 2B carrega a frieza operacional e o peso do segredo de Rei, mas com a ferocidade combativa de Asuka. 9S, por sua vez, encapsula a curiosidade intelectual e a fragilidade emocional de Shinji, que gradualmente se desfazem conforme a verdade vem à tona. É como se Taro tivesse desmontado os arquétipos de Evangelion, embaralhado as peças e remontado em uma configuração que, mesmo familiar, consegue surpreender.
E os vilões? Ah, os vilões. As máquinas da rede alienígena em Automata desempenham um papel análogo aos Anjos em Evangelion. Ambos são forças aparentemente incompreensíveis, cuja verdadeira natureza e motivações são reveladas gota a gota, desafiando a simples categorização entre "bem" e "mal". A forma como a narrativa humaniza gradualmente essas entidades – seja através dos Anjos que buscam contato, seja através das máquinas que desenvolvem cultura, emoção e até uma paródia de religião – é um dos pontos mais brilhantes que Taro "copiou". Ele entendeu que o verdadeiro horror e a verdadeira tragédia não vêm do monstro externo, mas da descoberta de que ele pode ser um espelho distorcido de nós mesmos.
A Linguagem Visual e Sonora como Tributo
E não podemos ignorar a estética. Enquanto Evangelion é famoso por seus storyboards cinematográficos, seus silêncios constrangedores e o uso de símbolos religiosos de forma quase arbitrária, Nier:Automata adapta isso para sua mídia. A direção de arte de Akihiko Yoshida cria um mundo pós-apocalíptico que é ao mesmo tempo belo e profundamente melancólico, muito parecido com a Tokyo-3 após um ataque Angel. As ruínas da cidade, a natureza retomando o concreto, tudo evoca a mesma sensação de finitude e decadência.
Mas é na trilha sonora que a homenagem se torna quase um abraço. A compositora Keiichi Okabe, que trabalhou com Taro em vários projetos, criou uma obra-prima que dialoga diretamente com os trabalhos de Shiro Sagisu para Evangelion. Ouça "Weight of the World" e tente não pensar no tom solene e desesperançoso de "Thanatos". As faixas de batalha misturam coros grandiosos com batidas eletrônicas de uma forma que lembra a combinação única de Sagisu de música clássica, jazz e rock progressivo. Não é plágio, é uma conversa. É como se a equipe de som de Automata tivesse perguntado: "Como soaria a solidão existencial de Shinji Ikari em um mundo de androides?" E a resposta está em cada nota.
Aliás, essa é uma das belezas de se admitir a influência: ela nos permite traçar essas linhas de conexão e apreciar a obra em uma nova camada. Saber disso não estraga a experiência, ela a enriquece. Você começa a perceber os fios que tecem o tapete da cultura pop.
O Impacto no Público e a Recepção da "Cópia"
O que talvez seja mais interessante é como os fãs reagiram – ou não reagiram – a essa "revelação". Para muitos jogadores que nunca viram Evangelion, Nier:Automata foi uma experiência original e avassaladora. Para os otakus de longa data, foi um deleite reconhecer os temas e estruturas familiares vestidos com uma roupagem nova. E quase ninguém acusou Taro de falta de originalidade. Por quê?
Eu acredito que a resposta está na autenticidade da execução e na profundidade emocional. Taro não roubou; ele assimilou, digeriu e regurgitou em uma forma que era genuinamente sua. A dor de 2B e 9S é sentida como real, independentemente de sua origem conceitual. A pergunta "O que significa ter uma alma?" pode ter sido feita primeiro por Anno, mas Taro a refez com uma convicção que a tornou sua. No fim, o público percebe quando algo é uma homenagem sincera e quando é um pastiche vazio. Automata é claramente o primeiro caso.
Isso nos leva a um território ainda mais pantanoso: quantos outros criadores estão fazendo o mesmo sem admitir? Quantas das histórias que amamos em jogos, filmes e séries são, na verdade, reinterpretações profundas de obras que marcaram seus criadores na juventude? A indústria do entretenimento é construída sobre esse diálogo intergeracional e intermídia. A coragem de Taro em apontar para sua musa é um convite para olharmos para outras obras com esse mesmo olhar investigativo.
E pensar que tudo começou com um anime dos anos 90 sobre um garoto com problemas para pilotar um robô gigante. A influência de Evangelion se provou tão resiliente e adaptável quanto os próprios EVA. Ela contaminou não apenas animes, mas a narrativa de jogos de uma forma que poucos poderiam prever. O que isso diz sobre o poder dessas ideias originais? E, mais importante, o que a próxima geração de criadores irá "copiar" de Nier:Automata? A corrente criativa continua, e admitir sua fonte não a enfraquece; pelo contrário, dá a ela um contexto e uma profundidade histórica que apenas enriquece a experiência para todos nós.
Com informações do: IGN Brasil











