Em um comercial especial para celebrar 30 anos da franquia, exibido durante o intervalo do Super Bowl, a Pokémon Company decidiu fazer algo diferente. Em vez de focar apenas em batalhas ou novas aventuras, eles perguntaram a um grupo eclético de celebridades uma questão simples, mas profundamente pessoal: qual é o seu Pokémon favorito? A resposta, como você pode imaginar, foi muito mais reveladora do que apenas nomes de criaturas de bolso.
Mais do que uma escolha: personalidade em pixels
O comercial, intitulado "Pokémon: Gotcha?", reuniu figuras como a icônica Lady Gaga, o comediante Trevor Noah, o ator e músico Donald Glover, e até mesmo o astro do futebol americano Patrick Mahomes. E aí está a magia. Quando você pergunta a alguém sobre seu Pokémon favorito, você não está apenas perguntando sobre um jogo. Você está tocando em memórias de infância, preferências estéticas, identificação com traços de personalidade ou até mesmo estratégias de jogo favoritas. É uma janela para o indivíduo.
Lady Gaga, por exemplo, não escolheu o óbvio Pikachu. Sua escolha recaiu sobre um Pokémon específico que, para muitos fãs, reflete sua própria persona artística: excêntrica, poderosa e inconfundível. Já Trevor Noah optou por um Pokémon conhecido por sua sagacidade e humor, um reflexo quase perfeito de seu estilo de comédia inteligente e observador. E Patrick Mahomes? Bem, sua escolha foi um Pokémon conhecido por sua força bruta e capacidade de liderança – qualidades que qualquer quarterback de elite precisaria ter em campo, não é mesmo?
É fascinante como essas escolhas, feitas quase que instantaneamente, contam uma pequena história sobre cada pessoa. Você já parou para pensar no que a sua escolha diz sobre você?
O poder da nostalgia e a construção de uma marca atemporal
O timing deste comercial não é coincidência. Trinta anos é um marco significativo. A Pokémon Company não está apenas vendendo um novo jogo ou um novo filme com essa campanha; eles estão celebrando e reafirmando seu lugar no tecido cultural global. Ao usar celebridades de diferentes gerações e áreas de atuação, a marca consegue falar com um público amplíssimo.
Para os que cresceram com os jogos originais de Game Boy, é uma viagem nostálgica. Para os mais novos, apresentados à franquia por Pokémon GO ou pelos filmes de CGI, é uma validação de que o fenômeno continua relevante. E ao colocar essas personalidades no centro, a mensagem é clara: Pokémon transcende os games. É sobre conexão, comunidade e as memórias que criamos ao longo do caminho.
Na minha experiência, poucas franquias conseguem manter esse nível de engajamento emocional por tanto tempo. A estratégia de sempre renovar o elenco de criaturas, enquanto mantém as clássicas, é um ato de equilíbrio delicado. E campanhas como essa mostram que eles entendem que seu maior ativo não são apenas os Pokémon, mas as histórias que cada fã associa a eles.
Um comercial que vai além do produto
O que mais me chamou a atenção nessa iniciativa foi a ausência do tradicional "call to action". Não havia um grande anúncio de um novo jogo para pré-venda (embora Pokémon Legends: Z-A tenha sido anunciado dias depois, em um Pokémon Presents separado). O foco era puramente na celebração e na pergunta em si: "Gotcha?", que pode ser traduzido tanto como "Pegou?" (referência à captura de Pokémon) quanto como "Entendeu?".
Essa abordagem é arriscada em um palco como o Super Bowl, onde cada segundo de anúncio custa uma fortuna. Mas também é brilhante. Ela humaniza a marca de uma forma que um trailer cheio de efeitos especiais não conseguiria. Constrói uma conversa. E, sinceramente, fez com que milhões de telespectadores parassem para refletir sobre sua própria resposta. Afinal, qual seria o SEU Pokémon favorito e por quê?
A campanha gerou uma enxurrada de discussões nas redes sociais, com fãs compartilhando suas próprias escolhas e justificativas. Esse engajamento orgânico é ouro puro para qualquer marca. E mostra que, às vezes, a melhor maneira de promover algo é simplesmente celebrar a comunidade que se formou ao seu redor.
E pensar que tudo começou com um simples conceito: capturar, treinar e batalhar. Mas o que essa pergunta aparentemente boba revela sobre como consumimos cultura hoje? Em uma era de conteúdo descartável e tendências que duram menos que um Stories do Instagram, Pokémon conseguiu se tornar uma espécie de linguagem universal. A escolha de um Pokémon favorito funciona quase como um teste de personalidade moderno – uma versão geek do "qual personagem de Friends você seria?".
O interessante é observar como as respostas das celebridades não foram ensaiadas ou filtradas por assessores de imagem. Dá para perceber a genuína hesitação em alguns momentos, o sorriso espontâneo ao relembrar. Donald Glover, por exemplo, parecia realmente ponderar sua escolha como se estivesse diante de uma decisão filosófica, não apenas de marketing. E isso é raro de se ver em comerciais de grande escala hoje em dia, onde cada gesto é coreografado.
A psicologia por trás da escolha: o que seu Pokémon diz sobre você?
Vamos além da superfície por um momento. Psicólogos que estudam fandom e identidade digital têm observado há anos como nossas escolhas em jogos e mídias refletem aspectos da nossa personalidade. Escolher um Pokémon tipo Fogo pode indicar uma personalidade mais impulsiva e apaixonada, enquanto os fãs de Pokémon tipo Água tendem a ser mais adaptáveis e emocionais. Os do tipo Planta? Pacientes e estratégicos. É claro que não é uma ciência exata, mas a metáfora é poderosa.
Eu mesmo já mudei de Pokémon favorito várias vezes ao longo dos anos – e cada mudança coincidiu com diferentes fases da minha vida. Na adolescência, preferia os mais poderosos e raros, aqueles que mostravam status. Hoje, aprecio mais os com designs interessantes ou histórias curiosas na Pokédex. Será que amadurecemos junto com nossas preferências de entretenimento?
E não são apenas os tipos elementares. Algumas pessoas se identificam com Pokémon por sua aparência (os fofos como Jigglypuff ou Eevee), outros por sua utilidade em batalha (os competitivos como Tyranitar ou Garchomp), e há aqueles que escolhem baseados puramente em nostalgia – o primeiro que capturaram, o que os ajudou a vencer uma ginásio difícil. Cada razão conta uma história diferente.
O fenômeno da "segunda geração" de fãs
Um aspecto que muitas análises desse comercial estão ignorando é o fato de que várias dessas celebridades são parte daquilo que eu chamo de "segunda geração" de fãs. Eles não cresceram com Red e Blue no Game Boy original – muitos foram apresentados a Pokémon através do anime, dos filmes ou, mais recentemente, do Pokémon GO. E isso é crucial para entender como a franquia se mantém relevante.
Patrick Mahomes, por exemplo, tem 28 anos. Quando os jogos originais saíram nos EUA em 1998, ele tinha apenas 3 anos. Sua experiência com Pokémon é fundamentalmente diferente da de alguém que jogou na década de 90. E mesmo assim, a conexão emocional está lá, tão forte quanto. Isso fala sobre a capacidade da franquia de se reinventar sem perder sua essência.
É como assistir a um remake de um filme clássico: os novos fãs têm uma relação diferente com o material, mas o amor é igualmente válido. A Pokémon Company parece entender isso intuitivamente – daí a decisão de incluir celebridades de diferentes faixas etárias no comercial. É uma maneira sutil de dizer: "Não importa quando você chegou, você pertence aqui".
Aliás, você já percebeu como as discussões sobre Pokémon raramente são tóxicas? Comparado a outras franquias de games onde os fãs frequentemente se dividem em facções guerreiras ("o primeiro jogo é melhor!", "a nova geração arruinou tudo!"), a comunidade Pokémon tem uma notável capacidade de aceitar diferentes opiniões sobre Pokémon favoritos. Talvez porque, no fundo, todos entendemos que a escolha é pessoal e emocional, não factual.
E isso me leva a outro ponto: a acessibilidade. Você não precisa ser um mestre em batalhas competitivas, conhecer todos os EVs e IVs, ou ter completado a Pokédex nacional para ter um Pokémon favorito. A barreira de entrada é baixíssima. Minha sobrinha de sete anos tem seu favorito (é o Sobble, caso você esteja curioso) baseado puramente no fato de que "ele é tímido como eu". Simplicidade que gera conexão.
O legado que vai além dos 30 anos
O que mais me intriga nesse aniversário de três décadas é pensar no que vem pela frente. A franquia já sobreviveu a mudanças tectônicas na indústria de games – da era dos portáteis para a dos smartphones, dos sprites 2D para os mundos abertos 3D. E através de tudo isso, manteve sua alma intacta.
Mas o comercial do Super Bowl aponta para algo ainda mais interessante: Pokémon como um fenômeno cultural que transcende gerações. Daqui a 30 anos, quando celebrarmos 60 anos da franquia, quais celebridades estarão no comercial? Provavelmente algumas que ainda nem nasceram. E elas terão seus próprios Pokémon favoritos, talvez de gerações que ainda não foram criadas.
Essa continuidade é rara. Pense em outras franquias que completaram 30 anos – muitas já se tornaram relíquias de uma era passada, lembradas com carinho mas sem presença ativa na cultura contemporânea. Pokémon, por outro lado, continua sendo uma força viva e pulsante. O anúncio recente de Pokémon Legends: Z-A para 2025 prova que ainda há muitas histórias para contar na região de Kalos.
E sabe o que é mais curioso? A pergunta "qual é seu Pokémon favorito?" provavelmente gerou mais conversas do que qualquer trailer cheio de spoilers teria conseguido. Nas redes sociais, vi threads com centenas de respostas, cada pessoa justificando sua escolha com um pedaço de sua história pessoal. Um colega de trabalho me disse que seu favorito é o Cubone porque perdeu a mãe quando criança e se identificou com a lenda do Pokémon que usa o crânio da mãe morta. Histórias assim não têm preço – e nenhum departamento de marketing pode fabricá-las.
No final das contas, o comercial de 30 anos não era sobre vender algo imediato. Era sobre reforçar um contrato emocional que dura três décadas. Era sobre lembrar aos fãs, velhos e novos, do porquê eles se importam. E em um mundo onde as marcas frequentemente tratam os consumidores como números em uma planilha, essa abordagem humana e nostálgica parece quase radical.
Então, deixe-me fazer a pergunta novamente, mas de um jeito diferente: se você tivesse que escolher UM Pokémon para representar quem você é hoje – não necessariamente o mais forte ou o mais raro, mas aquele que melhor captura sua essência neste momento da sua vida – qual seria? E mais importante: daqui a dez anos, você acha que sua resposta seria a mesma?
Com informações do: IGN Brasil











