A Capcom está prestes a elevar o realismo visual em seus jogos a um novo patamar, e tudo graças aos cabelos longos de uma personagem. Em desenvolvimento há anos, Pragmata não será apenas mais um título no portfólio da empresa - está se tornando um laboratório de inovação tecnológica que beneficiará futuros projetos.

RE Engine: a coluna vertebral da inovação da Capcom

Naoto Oyama, produtor de Pragmata, recentemente explicou em entrevista ao VGC como a RE Engine funciona como base fundamental para todos os jogos da empresa. "A RE Engine é, antes de mais nada, algo que nós todos realmente construímos para criar algo que é tão importante para nós como uma coluna vertebral para nossos jogos", declarou Oyama.

Personagem Diana do jogo Pragmata com cabelos longos

O que me impressiona nessa abordagem é como a Capcom transformou seu motor gráfico em uma plataforma de desenvolvimento colaborativa. Diferente de engines que são simplesmente ferramentas, a RE Engine parece ter se tornado um ecossistema vivo onde cada novo jogo contribui com avanços técnicos.

E não são apenas jogos AAA que se beneficiam. A versatilidade da engine permite que até coletâneas retrô aproveitem essas inovações, o que é bastante incomum no mercado.

Os desafios técnicos dos cabelos realistas

Renderizar cabelos longos sempre foi um dos maiores desafios na computação gráfica. Cada fio precisa responder a físicas realistas de movimento, iluminação e interação com o ambiente - tudo em tempo real.

Cena de gameplay do jogo Pragmata mostrando detalhes gráficos

Oyama detalhou como Pragmata está quebrando barreiras: "Nós tivemos jogos no passado que meio que usavam tecnologia para cabelos mais curtos, mas esse cabelo longo que você vê na Diana é algo que nós finalmente conseguimos fazer em Pragmata".

Essa conquista técnica não veio fácil. Desenvolver tecnologia de hair rendering convincente requer não apenas poder de processamento, mas algoritmos sofisticados que simulem o comportamento natural dos cabelos. E quando você pensa que games como os da série Resident Evil ou Monster Hunter podem herdar essa tecnologia, fica claro por que isso é tão significativo.

Um ciclo virtuoso de desenvolvimento

O processo que a Capcom estabeleceu é particularmente inteligente. As equipes de desenvolvimento de cada jogo trabalham em estreita colaboração com a equipe especializada da RE Engine. Quando um título precisa de uma nova capacidade técnica - como a tecnologia de cabelos longos de Pragmata - os engenheiros da engine desenvolvem a solução, que depois é integrada permanentemente à ferramenta.

Isso cria um ciclo virtuoso onde cada novo projeto não apenas consome tecnologia existente, mas também contribui com avanços que beneficiarão todos os futuros jogos da empresa. É uma estratégia de longo prazo que poucas desenvolvedoras conseguiram implementar com sucesso.

O resultado? Pragmata, previsto para 2026 após vários adiamentos, não trará apenas uma nova aventura aos jogadores, mas também um legado técnico que moldará o visual dos jogos da Capcom pelos próximos anos.

Mas vamos falar um pouco mais sobre o que torna os cabelos tão complexos tecnicamente. A física capilar envolve simulações de massa-spring systems, onde cada fio é tratado como uma série de partículas conectadas por molas virtuais. Isso precisa calcular colisões com o corpo da personagem, roupas, e até mesmo com outros fios de cabelo - tudo isso sem consumir recursos excessivos do hardware.

E não é só sobre movimento. A renderização de materiais para cabelos requer shaders especializados que simulam a forma como a luz interage com diferentes tipos de fios. Cabelos asiáticos tendem a ter reflectância diferente de cabelos cacheados, por exemplo. A equipe da Capcom precisou criar sistemas que capturam essas nuances culturais e genéticas de forma convincente.

O que muitas pessoas não percebem é que avanços como esse raramente ficam confinados a um único aspecto técnico. A tecnologia desenvolvida para cabelos provavelmente encontrará aplicações em outros elementos - imagine cordas realistas em jogos de piratas, ou até mesmo sistemas de vegetação mais orgânicos em títulos como Monster Hunter. A física é fundamentalmente similar, apenas aplicada de maneira diferente.

O impacto além dos gráficos: gameplay e acessibilidade

Aqui está algo que me surpreendeu: avanços gráficos frequentemente trazem benefícios indiretos para a jogabilidade. Cabelos mais realistas não são apenas visuais - eles podem servir como elementos de feedback visual durante o gameplay. Em Pragmata, os movimentos capílares da Diana podem indicar direção do vento, proximidade de perigos, ou até mesmo o estado emocional da personagem.

E pense na acessibilidade: jogadores com deficiência visual podem se beneficiar de pistas visuais mais distintas. Quando elementos como cabelos se movem de maneira previsível e realista, eles se tornam melhores indicadores de ação e ambiente. É um daqueles casos onde o polish técnico serve a propósitos além do estético.

Na minha experiência acompanhando desenvolvimento de games, poucas empresas conseguem manter essa visão de ecossistema técnico. A Capcom parece ter aprendido com os ciclos de desenvolvimento anteriores - lembra quando cada título da empresa parecia usar uma engine diferente? O caos técnico da era PS3/360 serviu como lição valiosa.

O futuro além do Pragmata: o que esperar

Com Pragmata estabelecendo novos padrões técnicos, é inevitável especular como isso afetará franquias estabelecidas. Imagine o próximo Resident Evil com personagens de cabelos longos reagindo realisticamente a vento, água, e movimentos bruscos. Ou um novo Devil May Cry onde o cabelo do Dante tem física ainda mais dramática durante combates.

Mas talvez a aplicação mais interessante seja em jogos que ainda nem foram anunciados. A tecnologia de hair rendering da Pragmata pode permitir que a Capcom explore gêneros onde a expressividade facial e física capilar são centrais - talvez um jogo de ritmo com dançarinos, ou um título narrativo focado em personagens complexos.

Oyama mencionou algo crucial: "Cada jogo que fazemos adiciona algo novo à RE Engine". Essa filosofia transforma cada desenvolvimento em um investimento para o futuro. O tempo e recursos gastos resolvendo os desafios técnicos de Pragmata não beneficiam apenas um jogo - eles se tornam patrimônio técnico da empresa.

E considerando que a Capcom já tem uma das engines mais versáteis do mercado - capaz de tudo desde jogos de luta até survival horror - essas adições só ampliam seu potencial. Pergunto-me se outras desenvolvedoras estarão observando e adotando abordagens similares.

O mais fascinante é que geralmente não vemos esse tipo de transparência sobre processos de desenvolvimento técnico. A Capcom poderia facilmente guardar esses detalhes, mas escolhe compartilhar - o que sugere confiança em sua vantagem competitiva. E por boas razões: replicar esse ecossistema de desenvolvimento requer não apenas expertise técnica, mas uma cultura corporativa que valoriza colaboração entre projetos.

Com informações do: Adrenaline