Enquanto os preços da memória DDR5 disparam no mercado global, a Gigabyte faz um movimento estratégico que muitos consumidores agradecem: o relançamento de placas-mãe para o soquete AM4 da AMD, focadas na ainda acessível memória DDR4. Esta não é apenas uma atualização de catálogo, mas uma resposta direta a um cenário de hardware que, francamente, está complicado para quem quer montar ou atualizar um PC sem gastar uma fortuna. A fabricante identificou uma janela de oportunidade – ou melhor, uma necessidade do mercado – e está agindo.

Placa-mãe Gigabyte para soquete AM4

As Novas (e Revistas) Opções da Gigabyte

A iniciativa se materializa em quatro modelos, que na verdade são revisões de placas já existentes. A estratégia aqui é clara: manter a produção de opções viáveis para o AM4, atualizando componentes que podem ter saído de linha ou adicionando features que o mercado atual valoriza, como iluminação ARGB. São duas placas com chipset B550 e duas com A520, abrangendo os formatos compactos Micro-ATX e Mini-ITX.

Estas placas representam, em grande parte, atualizações de modelos já existentes. As mudanças incluem a incorporação de suporte à iluminação ARGB e conectividade Wi-Fi.

Vamos dar uma olhada no que está sendo oferecido:

ModeloChipsetFormatoPrincipais característicasAorus B550I Pro AX 1.4B550Mini-ITXWi-Fi 6E, VRM 8 fases, 2x M.2 PCIe 4.0, 2.5Gb Ethernet, 2x HDMIB550M H ARGBB550Micro-ATXSuporte ARGB, DisplayPort, 2 slots DDR4, 1x M.2 PCIe 4.0A520I AC rev 1.5A520Mini-ITXWi-Fi 5 Realtek, VRM 6 fases, 6 USB traseiros, 1x M.2 PCIe 3.0A520M H ARGBA520Micro-ATXDisplayPort, cabeçotes ARGB, 1x PCIe x16, 1x PCIe x1, 1x M.2 PCIe 3.0

Percebe-se um foco em manter a conectividade moderna (Wi-Fi 6E na B550I, DisplayPort substituindo DVI) enquanto se segura no uso da DDR4. A Aorus B550I Pro AX 1.4 é a estrela do grupo, uma placa Mini-ITX robusta que prova que tamanho não é documento. Já a adição de ARGB em modelos como a B550M H ARGB e a A520M H ARGB é um aceno ao gosto atual por personalização visual, algo que nem sempre esteve presente nas linhas mais básicas.

Por Que o AM4 Ainda Faz Tanto Sentido?

Aqui está o cerne da questão. Não se trata de nostalgia ou relutância em adotar o novo. É pura matemática financeira aliada a uma oferta de processadores ainda muito competente. Enquanto a crise de oferta de memórias DRAM aperta o mercado, o custo de um kit de DDR5 simplesmente decolou, superando em muitos casos o preço de kits DDR4 de performance similar.

Comparativo de placas-mãe Gigabyte AM4

E o que colocar nesse soquete AM4? Ah, aí a história fica interessante. A plataforma é casa para uma gama enorme de processadores, dos antigos Ryzen da série 3000 até os poderosos Ryzen 7 5800X3D, que recentemente, em certos momentos, chegou a ser mais caro no mercado secundário que seu sucessor direto, o Ryzen 7 9800X3D. Isso mesmo, o "antigo" valendo mais que o novo. É um sinal claro de onde a demanda está.

Dá para entender o motivo. Um Ryzen 5 5600, um Ryzen 7 5700X ou mesmo um 5800X3D acoplado a 32GB de DDR4 rápida e uma placa de vídeo moderna ainda constituem uma máquina absolutamente capaz para jogos e produtividade. E o custo total do sistema, especialmente agora, pode ser significativamente menor do que uma configuração equivalente com plataforma AM5 e DDR5.

Não é só a Gigabyte que enxerga isso. Rumores indicam que a ASUS também planeja aumentar a produção de placas DDR4. É um movimento da indústria reconhecendo que, para uma grande fatia dos consumidores, a relação custo-benefício é o fator decisivo principal.

E a AMD? A empresa parece entender perfeitamente esse jogo. Mesmo com o AM5 no mercado, ela continua lançando e dando suporte a CPUs para AM4, mantendo a plataforma viva e relevante. É uma posição inteligente que atende a um mercado de valor que não pode ou não quer pagar o preço de entrada da nova geração.

Então, o que essas novas placas da Gigabyte realmente representam? Elas são um lembrete de que, no mundo do hardware, o "mais novo" nem sempre é sinônimo de "melhor para você". São uma válvula de escape para um mercado pressionado por custos. E, pessoalmente, acho um alívio ver que ainda há opções sensatas sendo fabricadas. Para quem está montando um PC agora, ou fazendo um upgrade estratégico, vale muito a pena dar uma segunda olhada no que o soquete AM4 ainda pode oferecer.

Fonte: Tom's Hardware

Mas vamos além da simples análise de custo. O que realmente torna essa estratégia da Gigabyte tão astuta é o timing. Ela não está apenas relançando placas antigas; está fazendo isso em um momento de transição de mercado onde a "nova geração" ainda não se estabeleceu como padrão acessível. A DDR5, apesar de suas vantagens técnicas inegáveis em termos de largura de banda, ainda luta para justificar seu custo adicional para o usuário médio em muitas tarefas do dia a dia. Você realmente sente a diferença entre DDR4 3600MHz e DDR5 5600MHz ao navegar na web, trabalhar em documentos ou até mesmo em muitos jogos? Para a maioria, a resposta é um sonoro "não".

E aí mora a beleza do AM4. A plataforma está madura. Os bugs foram resolvidos, as BIOS são estáveis, e existe uma montanha de conhecimento da comunidade, guias de overclock e combinações de hardware testadas e aprovadas. Para o montador de PC iniciante ou para quem quer um upgrade sem dor de cabeça, isso tem um valor imenso. Não há surpresas desagradáveis com compatibilidade de memória ou problemas de boot. É plug and play no seu melhor.

O Cenário dos Kits de Memória: A Crise que Abre Oportunidade

Para entender a dimensão do movimento, é preciso olhar para os números. Enquanto escrevo isso, uma rápida pesquisa em lojas especializadas mostra que um kit de 32GB (2x16GB) de DDR5 6000MHz CL30, considerado o sweet spot para Ryzen 7000/9000, pode facilmente custar o dobro de um kit de 32GB de DDR4 3600MHz CL16 de qualidade similar. Essa diferença, sozinha, já paga a placa-mãe em muitos casos.

E a situação não parece estar melhorando tão cedo. A escassez de componentes DRAM, impulsionada por uma demanda maior do que a capacidade de produção e por investimentos das fabricantes em tecnologias mais lucrativas como HBM para IA, criou um ambiente de preços inflados. Gigantes como Samsung e Micron já anunciaram aumentos planejados, o que sugere que o alívio não virá no curto prazo. Nesse contexto, a DDR4 se torna não uma opção inferior, mas uma escolha racional e defensável.

Gráfico comparativo de preços DDR4 vs DDR5

Isso levanta uma questão interessante: será que estamos testemunhando um alongamento inesperado do ciclo de vida da DDR4? Historicamente, as transições de padrão de memória tendem a ser mais rápidas. A indústria empurra o novo padrão e o antigo desaparece das prateleiras em alguns anos. Dessa vez, a resistência parece maior. A combinação de custo elevado da nova tecnologia com a competência mais do que suficiente da antiga criou um impasse.

E não são apenas os consumidores finais que se beneficiam. Empresas que montam PCs para escritório, escolas, ou até mesmo para estações de trabalho de entrada, encontram no combo AM4 + DDR4 um ponto de equilíbrio perfeito entre desempenho, confiabilidade e custo total de propriedade. Para elas, migrar para AM5 representaria um aumento de custo significativo sem um retorno tangível em produtividade para tarefas básicas.

Analisando os Modelos: Para Quem Cada Um Faz Sentido?

Voltando às placas da Gigabyte, é útil pensar em que tipo de construtor cada modelo atrai. A Aorus B550I Pro AX 1.4 é claramente a opção premium. Ela é para quem quer construir um PC compacto de alto desempenho, talvez um SFF (Small Form Factor) para levar para LAN parties ou para ter em uma mesa minimalista, mas sem abrir mão de recursos. O Wi-Fi 6E e a Ethernet 2.5Gb garantem conectividade de ponta, e o VRM robusto aguenta até um Ryzen 9 5950X com tranquilidade. É a prova de que você não precisa de uma torre gigante para ter poder de fogo.

Já a B550M H ARGB é a típica "cavalo de batalha" para o construtor de orçamento consciente que ainda quer um pouco de estilo. O formato Micro-ATX é o mais comum e versátil, cabendo na maioria dos gabinetes. Ela oferece o essencial do chipset B550 – como suporte a PCIe 4.0 para uma GPU e um SSD NVMe – e joga a iluminação ARGB na jogada para agradar quem gosta de personalizar. É a placa ideal para quem está saindo de uma plataforma muito antiga e quer um upgrade significativo sem complicações ou custos exorbitantes.

O foco em modelos Mini-ITX e Micro-ATX também não é por acaso. Reflete a tendência de mercado por PCs menores e mais eficientes em espaço, algo que o AM4, com sua vasta gama de coolers compatíveis e CPUs eficientes, se adapta perfeitamente.

As placas com chipset A520, a A520I AC e a A520M H ARGB, atendem a um nicho ainda mais específico: o do orçamento ultra-restrito ou de builds focadas em tarefas específicas. Imagine um PC para home theater, um ponto de acesso, uma estação de trabalho leve ou um presente para um familiar que só precisa de um computador para tarefas básicas. Aqui, um Ryzen 5 5600G com seu gráfico integrado potente, acoplado a esta placa-mãe simples e barata, 16GB de RAM e um SSD, resulta em uma máquina extremamente capaz por um preço irrisório. A adição de ARGB até na linha A520 é um detalhe curioso, mostrando que até no segmento de entrada o visual conta.

O que me surpreende, positivamente, é a manutenção de conectores como o DisplayPort mesmo nos modelos mais básicos. Isso demonstra um entendimento de que muitos usarão APUs (CPUs com gráfico integrado) e querem a melhor saída de vídeo possível para monitores modernos. É uma atenção ao detalhe que muitas vezes falta em placas de entrada.

E o Futuro? Até Quando o AM4 Segurará a Onda?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. A AMD já declarou seu compromisso com a plataforma AM5 até pelo menos 2025, e provavelmente além. O AM4, tecnicamente, já está em sua fase "extendida de suporte". Mas o que vemos no mercado contradiz a noção de uma plataforma moribunda. A demanda por CPUs como o 5800X3D, que rivaliza com processadores AM5 de geração atual em jogos, é alta. A AMD continua lançando variantes novas, como o recente Ryzen 5 5600F.

O limite real talvez não seja técnico, mas de disponibilidade de componentes. Quanto tempo as fábricas vão continuar produzindo chipsets B550 e A520? E os VRMs e outros circuitos específicos? A decisão da Gigabyte de relançar estes modelos com revisões de hardware (note o "1.4" e "rev 1.5" nos nomes) sugere que eles estão requalificando e ajustando a cadeia de suprimentos para manter a produção viva. Se outras fabricantes seguirem o exemplo, como os rumores da ASUS indicam, o AM4 pode ter fôlego para mais um ou dois anos facilmente.

Há também um fator ecológico e econômico que raramente é discutido. Em um mundo mais consciente do e-waste, prolongar o ciclo de vida de uma plataforma robusta como o AM4 é uma atitude positiva. Permite que pessoas reaproveitem coolers, gabinetes e até mesmo fontes de builds antigas, reduzindo o descarte e o consumo. Do ponto de vista macroeconômico, oferecer uma opção de valor acessível em um período de inflação e incerteza é um serviço ao consumidor.

No fim das contas, o sucesso contínuo do AM4 é um lembrete poderoso de que o progresso no hardware é incremental, não revolucionário a cada ciclo. A lei dos retornos decrescentes se aplica: saltar de um Ryzen 5 5600 para um Ryzen 5 7600 traz ganhos, mas a um custo total de sistema muito maior do que o ganho de performance justifica para muitos. Enquanto essa equação não mudar drasticamente – e a atual crise das memórias DDR5 está atrasando essa mudança –, o soquete AM4 e a confiável DDR4 seguirão como a escolha inteligente para uma legião de usuários. A jogada da Gigabyte é menos um retrocesso e mais um reconhecimento pragmático dessa realidade de mercado.

Com informações do: Adrenaline