Em um feito que mistura engenhosidade técnica e uma boa dose de ousadia, o grupo brasileiro de overclocking Teclab conseguiu algo que muitos consideravam impossível: ultrapassar a trava de software que a NVIDIA impõe no overclock de memória das suas novas placas GeForce RTX 50. Usando uma abordagem de baixo nível que "engana" o próprio gerenciador de clock da GPU, eles levaram uma RTX 5070 Ti com memória GDDR7 padrão de 28 Gbps para velocidades superiores a 36 Gbps. E o mais interessante? Fizeram isso sem trocar os chips de memória físicos, explorando um potencial que a fabricante preferiu manter sob cadeado.
O bloqueio da NVIDIA e a solução não convencional
Se você já tentou fazer overclock em uma GPU recente da NVIDIA, sabe que há limites bem definidos. Ferramentas como o MSI Afterburner permitem, no máximo, adicionar +3.000 MHz ao clock da memória. Para os módulos GDDR7 de 28 Gbps que equipam a maioria das RTX 50, isso significa chegar a cerca de 34 Gbps. Tudo além disso é bloqueado por uma trava de software. A solução tradicional, especialmente em gerações anteriores, era física: soldar chips de memória mais rápidos, vindos de outras placas ou de lotes especiais. Mas com a GDDR7 sendo tão rápida por padrão, esse caminho perdeu um pouco do brilho.
Foi aí que o criador de conteúdo Burti, do canal Teclab, decidiu ir por outro caminho. Em vez de mexer no hardware ou lutar contra o driver, ele foi direto na fonte: a programação de baixo nível do gerenciador de clock da própria GPU. A ideia, em termos simples, foi fazer o chip acreditar que estava operando na frequência de fábrica, enquanto na realidade já rodava muito mais rápido. "Basicamente eu enganei o gerenciamento de clock do chip da GPU", explicou Burti. "É no nível de lógica baixa, no nível de programação inicial. No momento em que eu mudo essa referência, minha GPU vai achar que está rodando no clock de fábrica, mas já estará rodando com o clock alterado".
O resultado é que softwares de monitoramento continuavam mostrando os valores normais (3.100–3.200 MHz para a GPU e 28 Gbps para a memória), mas o desempenho real contava uma história diferente. Enganar o sistema para extrair mais performance – soa familiar? É a essência do overclocking, levada a um novo patamar.

Os números que comprovam a técnica
De teoria para a prática, a validação veio com benchmarks. A cobaia foi uma GALAX RTX 5070 Ti 1-Click OC, o modelo básico da linha, que também teve seu limite de potência (Power Limit) desbloqueado por uma modificação de hardware. Os testes foram feitos no Unigine Superposition, e os números não deixam dúvidas:
Configuração de fábrica (com Power Limit desbloqueado): 9.922 pontos.
Overclock convencional máximo (+500 MHz na GPU, +3.000 MHz na memória): 11.722 pontos.
Com a nova técnica (+330 MHz na GPU, memória acima de 36 Gbps): 11.993 pontos.
Esse terceiro resultado é o que importa. Mesmo com um overclock menor no núcleo da GPU, a memória rodando acima de 18.000 MHz efetivos (ou 36+ Gbps) foi suficiente para superar a configuração com overclock tradicional no limite. Isso prova duas coisas: primeiro, que a técnica de Burti funciona. Segundo, e talvez mais importante, que os módulos GDDR7 de 28 Gbps têm um potencial físico muito maior do que a NVIDIA permite que exploremos. É como ter um carro capaz de ir a 250 km/h, mas com um limitador eletrônico travado em 180.
Não é sorte, é histórico
Quem acompanha o cenário de overclock sabe que a Teclab não é novata nesse tipo de proeza. O grupo tem um histórico que remonta à era das GTX 1000, quando modificaram o BIOS de uma GTX 1050 2 GB para transformá-la em uma de 4 GB – um feito pioneiro em placas com BIOS criptografado da NVIDIA. Desde então, acumularam recordes mundiais. Lembram da RTX 4070 Ti Super que atingiu 26 Gbps de memória GDDR6, um recorde ainda não batido? Foi eles. A "4090 Super", um Frankenstein construído sobre um PCB de RTX 3090 com chip selecionado? Também.
O que está em jogo aqui vai além de um número em um benchmark. Existe uma narrativa, quase uma missão, de colocar o Brasil no mapa do overclocking de alto nível. E eles estão conseguindo. Com hardware de entrada, muito conhecimento e persistência, estão superando equipes que têm acesso a componentes de ponta e orçamentos muito maiores. É, no mínimo, inspirador.
E este vídeo, segundo Burti, é só um aperitivo. O próximo passo é aplicar a mesma técnica na GALAX RTX 5070 Ti HOF, a versão feita sob medida para overclock extremo, com melhor qualidade de chip e resfriamento. O alvo? Quebrar todos os recordes mundiais da RTX 5070 Ti no Superposition, provavelmente usando resfriamento líquido e talvez até nitrogênio líquido. Enquanto fabricantes como Samsung e Micron desenvolvem módulos GDDR7 nativos de 36 Gbps – que só devem chegar ao mercado no fim de 2026 ou 2027 –, a Teclab já está batendo essa marca com o hardware que temos hoje.
Fica a pergunta: até onde podemos levar nosso hardware quando decidimos ignorar os limites impostos e entender verdadeiramente como ele funciona? A Teclab parece determinada a encontrar a resposta, um recorde de cada vez.
O que essa técnica revela sobre o futuro do overclocking?
O feito da Teclab não é apenas um truque técnico isolado. Ele aponta para uma mudança de paradigma no mundo do overclocking. Durante anos, a comunidade se dividia entre quem "puxava sliders" em softwares como o Afterburner e quem fazia modificações físicas arriscadas, como soldar componentes ou usar BIOS modificados. A abordagem de Burti, porém, abre uma terceira via: a engenharia reversa e a manipulação do firmware em um nível mais profundo.
Isso me faz pensar: será que estamos testemunhando o renascimento do overclocking como uma forma de hacking de hardware? Não no sentido malicioso, mas no espírito de desbravamento e compreensão profunda dos sistemas. Afinal, o que é mais gratificante: simplesmente aumentar um número em uma barra deslizante, ou entender a linguagem que a GPU usa para se comunicar e então convencê-la a fazer algo que seus criadores não planejaram?
E o timing disso tudo é irônico. Enquanto a NVIDIA trava cada vez mais seus produtos – com BIOS criptografados, limites de potência rígidos e agora travas de clock de memória –, uma pequena equipe no Brasil encontra brechas que nem a própria fabricante parecia antecipar. É uma espécie de corrida armamentista silenciosa, onde de um lado estão os engenheiros que projetam os cadeados, e do outro, os entusiastas que dedicam horas a encontrar as chaves.

Os riscos e a ética por trás do método
Claro, não podemos romantizar demais. Manipular o gerenciador de clock em nível tão baixo não é brincadeira. Burti mesmo admite que o processo é delicado e que um erro pode, sim, "brickar" a placa – transformá-la em um peso de papel caríssimo. Diferente do overclock tradicional, onde você pode simplesmente resetar as configurações se o sistema travar, mexer com a referência de clock base é como trocar o pêndulo de um relógio antigo enquanto ele ainda está funcionando.
Mas o risco técnico é apenas uma parte da equação. Existe também uma questão ética e legal interessante aqui. Ao contrário de simplesmente usar um software de overclock, a técnica envolve contornar ativamente uma restrição de software imposta pelo fabricante. Em teoria, isso poderia violar os termos de serviço ou até mesmo leis de proteção de sistemas digitais, dependendo da jurisdição. A NVIDIA, como empresa, tem todo o direito de proteger sua propriedade intelectual e garantir que seus produtos operem dentro dos parâmetros que consideram seguros.
Por outro lado, você comprou a placa, não comprou? Depois que ela sai da loja e entra na sua casa, até que ponto a fabricante pode – ou deveria – controlar como você a usa? É um debate antigo no mundo da tecnologia, que vai desde o "jailbreak" de iPhones até a modificação de consoles de videogame. Onde traçamos a linha entre proteger o consumidor de si mesmo e respeitar sua liberdade de fazer o que quiser com sua propriedade?
Na prática, a comunidade de overclocking sempre operou nessa zona cinzenta. Recordes mundiais são frequentemente estabelecidos com hardware modificado além do que qualquer garantia cobriria. A diferença agora é que as modificações estão migrando do domínio físico para o digital, o que torna tudo um pouco mais abstrato – e talvez mais acessível para quem não tem habilidades com solda.
O impacto real no desempenho dos jogos
Benchmarks sintéticos como o Superposition são ótimos para validar a técnica, mas e os jogos? Será que essa memória ultra-rápida se traduz em mais frames por segundo na vida real? Essa é uma pergunta que Burti ainda não respondeu completamente no vídeo inicial, mas a física da coisa nos dá algumas pistas.
A memória GDDR7 já é absurdamente rápida. A 28 Gbps, a largura de banda de uma RTX 5070 Ti com interface de 256-bit é de 896 GB/s. Puxar isso para 36 Gbps elevaria o número para impressionantes 1.152 GB/s. Em teoria, isso deveria beneficiar especialmente:
Jogos em resoluções muito altas (4K e acima), onde texturas enormes precisam ser carregadas constantemente.
Cenários com Ray Tracing pesado, que exigem acesso rápido a buffers de aceleração e estruturas de dados complexas.
Jogos "mal otimizados" ou com vazamento de memória, que se beneficiam de qualquer sobra de largura de banda.
Mas há um porém. O desempenho em jogos raramente é limitado por um único componente. É um equilíbrio delicado entre CPU, GPU, memória de vídeo e memória do sistema. Em muitos casos, especialmente em resoluções mais baixas ou com CPUs menos potentes, o ganho de overclock na memória pode ser marginal – às vezes apenas 2-5% de aumento de FPS. O verdadeiro teste virá quando a Teclab publicar números de jogos reais, como Cyberpunk 2077 com Ray Tracing Overdrive ou Microsoft Flight Simulator em 4K.
E tem outro fator: a latência. Aumentar a frequência da memória geralmente aumenta também o tempo de resposta (latência) entre solicitações. Em alguns casos raros, overclock de memória muito agressivo pode até piorar o desempenho em certas cargas de trabalho se os timings não forem ajustados adequadamente. Será que a técnica da Teclab permite ajustar esses parâmetros secundários, ou estamos apenas aumentando a frequência bruta?
E as outras placas da série RTX 50?
A pergunta que não quer calar: se funciona na RTX 5070 Ti, funcionará na RTX 5080, 5090, ou até nas mais básicas como a RTX 5060? A arquitetura Blackwell, que sustenta a série RTX 50, é fundamentalmente a mesma em toda a linha, com diferenças principalmente no número de núcleos e na configuração de memória. O gerenciador de clock que Burti "enganou" provavelmente existe em todas as GPUs da série.
No entanto, há variáveis. Placas de entrada como a futura RTX 5060 devem usar memória GDDR6 ou GDDR6X, não GDDR7. O procedimento exato pode ser diferente. Já as placas topo de linha, como a RTX 5090, usam módulos GDDR7 de 32 Gbps nativos – será que eles também têm margem para ir além? E mais: as placas "Founders Edition" da NVIDIA têm BIOS e controle de energia ainda mais restritivos que os modelos de parceiros como GALAX, ASUS ou MSI. A técnica pode ser mais difícil de aplicar nelas.
O que é fascinante é o potencial de descobertas em cadeia. Se a comunidade começar a explorar sistematicamente essas brechas, podemos ver uma nova onda de otimizações não-oficiais para as RTX 50. Alguém pode desenvolver uma ferramenta que automatize o processo, tornando-o acessível a entusiastas menos técnicos (embora não menos corajosos). Ou podem descobrir que o mesmo princípio se aplica ao clock do núcleo da GPU, não apenas da memória.
Imagine só: uma RTX 5070 Ti performando perto de uma RTX 5080 de fábrica, apenas porque alguém no Brasil decidiu que os limites da NVIDIA eram sugestões, não regras. É esse espírito de descoberta que mantém o overclocking vivo, mesmo quando as fabricantes tentam cada vez mais colocar seus produtos em caixinhas bem definidas.
E enquanto escrevo isso, Burti e a equipe da Teclab provavelmente já estão preparando a GALAX HOF para a próxima sessão. O nitrogênio líquido deve estar esfriando, os multímetros calibrados, e a tensão no ar é palpável. Eles não estão apenas quebrando recordes; estão desenhando um novo mapa do que é possível. E o resto de nós? Bem, assistimos, aprendemos, e talvez – só talvez – nos inspiremos a questionar os próprios limites dos nossos equipamentos.
Com informações do: Adrenaline






