Aumento de preços em SSDs empresariais: o que esperar do mercado de memória NAND
Um relatório da Nomura Securities, divulgado através de um post no X (antigo Twitter), está causando agitação no mercado de hardware. A análise sugere que a SanDisk, uma das gigantes do setor de memória flash, pode estar prestes a implementar aumentos de preço de mais de 100% nos chips 3D NAND destinados a SSDs de nível empresarial já no primeiro trimestre de 2026. A notícia, que circulou pela conta
">@jukan05, aponta para uma tempestade perfeita de alta demanda e possíveis restrições de oferta, com potenciais reflexos que podem ir muito além dos data centers.
Nomura: Sandisk could raise enterprise SSD NAND prices by more than 100% quarter-on-quarter (QoQ) in Q1.$SNDK pic.twitter.com/XHG3q8mIsn
— Jukan (@jukan05)
8, 2026
E aqui está o ponto que mais me preocupa: essa disparada nos preços da NAND empresarial raramente fica confinada a um único segmento. Historicamente, os preços da memória flash para smartphones e PCs de consumo tendem a seguir a tendência dos chips de nível empresarial, já que frequentemente saem das mesmas linhas de produção. Então, a pergunta que fica é: até que ponto o consumidor final vai sentir esse impacto no bolso?
As engrenagens por trás do aumento

A Nomura, que tem um histórico sólido de análises no setor de tecnologia, não atribui essa movimentação a um único fator. É uma combinação, na verdade. De um lado, há uma escassez de curto prazo que já vem pressionando os preços – um movimento que já foi observado em novembro, impulsionado pela demanda voraz de data centers para IA. Do outro, há uma expectativa de crescimento estrutural da demanda a médio prazo, que está fazendo os fornecedores repensarem suas estratégias de preço e capacidade.
Mas o que está alimentando essa demanda com tanta força? Um dos principais motores citados é a Plataforma de Armazenamento de Memória de Contexto de Inferência (ICMSP) da NVIDIA. Essa plataforma, baseada na DPU BlueField-4, é equipada com um SSD de 512 GB que suporta cache KV. Parece técnico demais? A tradução é simples: cada unidade dessas consome uma quantidade significativa de memória NAND de alta qualidade.

Para dar uma dimensão do problema, vamos aos números. Cada rack de computação VR NVL144 da NVIDIA vem com 18 DPUs BlueField-4, cada uma com seu SSD de 512 GB. Isso totaliza impressionantes 9.216 TB (ou cerca de 9,2 petabytes) de armazenamento 3D NAND por rack. A Nomura estima que, se a NVIDIA enviar 50.000 racks por ano, a demanda apenas dela seria de aproximadamente 0,439 exabytes de NAND. E isso sem contar os parceiros que fabricam racks compatíveis com a plataforma Vera Rubin.
Uma análise mais cautelosa dos números
Agora, vamos respirar fundo e colocar esses números em perspectiva. A indústria global de NAND produz mais de 800 exabytes anualmente. Mesmo que a demanda da NVIDIA e de seus ecossistemas relacionados seja substancial, consumir cerca de um exabyte por ano em 2026-2027 não parece, à primeira vista, justificar um aumento de preço de 100% em um único trimestre. A matemática simples não fecha tão facilmente.
O que pode estar acontecendo, então? Na minha experiência acompanhando ciclos de commodities de tecnologia, esses movimentos bruscos muitas vezes são amplificados por fatores psicológicos e logísticos. Pode ser uma combinação de: 1) fabricantes sendo conservadores após um período de preços deprimidos, 2 gargalos em etapas específicas da produção (como a fabricação de wafers ou testes), ou 3) uma corrida dos grandes compradores para garantir estoques antes que os preços subam ainda mais, criando uma profecia autorrealizável.

E o que isso significa para você, que talvez esteja pensando em comprar um SSD novo? Bom, o mercado de consumo já apresenta uma variedade significativa. Na Kabum, por exemplo, é possível encontrar modelos básicos, como um SSD SATA III de 250 GB da SanDisk por cerca de R$ 299,99, ou opções mais rápidas em formato M.2 NVMe, como um de 1TB por R$ 776,66. A questão é por quanto tempo esses preços vão se manter.
O relatório da Nomura serve como um alerta. Mesmo que o aumento de 100% seja contido ao segmento empresarial – o que é um grande "se" –, a pressão sobre a cadeia de suprimentos e o desvio de capacidade de produção para atender a essa demanda premium podem, sim, criar escassez e elevar os preços no varejo. É um jogo de oferta e demanda em escala global, e os efeitos têm a desagradável tendência de se espalhar.
Mas vamos além da NVIDIA por um momento. Outro fator que raramente é mencionado, mas que tem um peso enorme, é a transição para arquiteturas de computação heterogênea. Você já parou para pensar em quanta memória flash um servidor moderno de IA realmente precisa? Não é só sobre armazenar dados, mas sobre mantê-los prontos para acesso ultrarrápido durante os ciclos de inferência. Processadores como os da AMD com tecnologia 3D V-Cache e os próprios aceleradores da Intel estão desenhando sistemas onde a latência é o verdadeiro inimigo. E adivinha o que ajuda a combater isso? Exatamente: SSDs empresariais de alta performance com interfaces como PCIe 5.0 e 6.0.
E não se engane pensando que isso é um problema só para as "big techs". A computação de borda (edge computing) está levando essa necessidade por armazenamento rápido e robusto para mais perto de nós. De fábricas inteligentes a hospitais com diagnósticos por imagem em tempo real, a demanda por SSDs que aguentam vibração, temperatura e escritas constantes está explodindo. São mercados que tradicionalmente usavam discos rígidos, mas que agora não abrem mão da velocidade dos sólidos. Essa migração em massa está criando um novo pico de demanda que os analistas talvez ainda não tenham precificado totalmente.
O lado da oferta: uma produção mais complexa do que parece
Falamos muito da demanda, mas e a capacidade de aumentar a oferta? Aqui a coisa fica ainda mais interessante – e preocupante. Fabricar chips 3D NAND de última geração, especialmente os de mais camadas (como os de 200+ camadas que estão se tornando padrão), não é como ligar uma torneira. É um processo absurdamente complexo que requer equipamentos de litografia de extrema precisão, salas limpas e um know-how que se concentra em poucas empresas no mundo: a própria SanDisk (da Western Digital), a Samsung, a SK Hynix e a Micron.
O que pouca gente sabe é que aumentar a produção não significa apenas construir novas fábricas (as famosas "fabs"), que por si só custam bilhões e levam anos. Significa também conseguir os equipamentos certos. E há um gargalo aí: as máquinas de litografia EUV (Extreme Ultraviolet) da ASML, praticamente as únicas capazes de produzir os nós mais avançados, têm uma lista de espera gigantesca. Sem falar nos altíssimos custos de energia e água ultrapura que essas plantas consomem. Em um cenário de custos operacionais globais em alta, será que os fabricantes vão querer ou poder expandir a capacidade agressivamente, ou vão preferir manter a produção mais enxuta e lucrativa?
Além disso, há uma estratégia de negócios em jogo. Após um longo período de preços baixos que comprimiu as margens, as fabricantes de NAND estão, naturalmente, buscando recuperar rentabilidade. Permitir que a oferta fique ligeiramente aquém da demanda explosiva é uma maneira clássica de forçar aumentos de preço e melhorar os resultados financeiros. É um equilíbrio delicado entre atender o mercado e satisfazer os acionistas. E, convenhamos, um aumento de 100% em um trimestre é um sinal bastante agressivo de qual lado da balança está sendo priorizado.
E o consumidor comum? A tempestade chega com atraso, mas chega
Ok, você pode estar pensando: "Tudo bem, mas eu só quero um SSD de 1TB para o meu PC gamer. Isso me afeta?" A resposta, infelizmente, tende a ser sim, mas com um timing e uma intensidade que são difíceis de prever. O mercado de consumo funciona como uma espécie de "válvula de escape" para os fabricantes. Quando a demanda corporativa está aquecida e os preços são altos, a produção de chips de grau empresarial (mais testados e com especificações mais rigorosas) é priorizada. Os chips que não atingem esses padrões super exigentes, ou parte da capacidade de fábrica, são direcionados para os SSDs de consumo.
O problema é que, se a demanda corporativa sugar uma fatia muito grande do bolo produtivo, sobra menos para nós, meros mortais. Menos oferta no varejo, com a demanda por upgrades de PCs, consoles e notebooks sempre presente, é a receita clássica para aumento de preço. E não esqueça dos canais de distribuição. Os grandes importadores e varejistas, ao verem a tendência de alta no mercado global, frequentemente antecipam os repasses ou seguram estoques, o que também pressiona os preços nas prateleiras brasileiras – já tão castigadas por impostos e margem de câmbio.
Um ponto específico que me chama a atenção: os SSDs de entrada, aqueles de 240GB a 500GB, podem ser os mais impactados. Por quê? Porque sua margem de lucro para o fabricante já é naturalmente mais baixa. Em um cenário de custos de matéria-prima (o wafer de silício) em alta, pode simplesmente deixar de ser interessante produzir em grande volume. A indústria pode tentar empurrar os consumidores para capacidades maiores, onde o lucro por unidade é mais atraente. Já percebeu como os SSDs de 120GB praticamente desapareceram? Algo similar pode acontecer com os de 250GB.
E os laptops? Ah, essa é uma dor de cabeça que pode chegar disfarçada. Muitos notebooks de médio e alto porte já vêm com SSDs soldados na placa-mãe. Se o custo do componente NAND sobe para a Dell, Lenovo ou Apple, é quase certo que esse custo será incorporado ao preço final do produto. Você pode não estar comprando um SSD solto, mas vai pagar por ele indiretamente na próxima vez que for trocar de máquina.
Então, o que fazer? Ficar de olho. O relatório da Nomura é um farol apontando para águas turbulentas no futuro próximo. Para quem está planejando um upgrade essencial, talvez valha a pena antecipar a compra. Para os outros, é um bom momento para lembrar que a tecnologia, especialmente a dependente de commodities complexas como os semicondutores, nunca segue uma linha reta de preços sempre caindo. Ciclos são inevitáveis. E tudo indica que o próximo ciclo será de alta. Resta saber quão alto e por quanto tempo.
Com informações do: Adrenaline