O Metacritic, um dos principais agregadores de críticas da indústria dos games, vive um momento peculiar. Enquanto o aclamado Clair Obscur: Expedition 33 ostenta a maior média de notas de usuários da história da plataforma, um título amplamente considerado um dos piores jogos do Nintendo DS está a um passo de roubar essa coroa. É uma situação que diz muito sobre a cultura online e a credibilidade das avaliações comunitárias.

O reinado de Clair Obscur e o inesperado concorrente
Vamos começar pelo topo. Clair Obscur: Expedition 33, da Sandfall Interactive, não é apenas o jogo do ano para o The Game Awards, mas também detém uma média impressionante de 9.5 pontos na seção de usuários do Metacritic. Um feito e tanto, colocando-o acima de lendas consagradas.
Mas quem está em segundo lugar, ameaçando essa posição? Bem, aí a coisa fica interessante. É um empate técnico com notas de 9.3, e a lista inclui obras-primas como The Witcher 3, Metal Gear Solid e Silent Hill 2. E, espremido entre esses gigantes, está Disney's Cory in the House.

Cory in the House: de piada a fenômeno de review
Lançado em 2008 para o Nintendo DS, Disney's Cory in the House é, para ser gentil, um jogo esquecível. Baseado em um spin-off da série As Visões da Raven, o título da Handheld Games recebeu críticas profissionais devastadoras. O Metacritic lista apenas duas avaliações de sites: um 3 da IGN e um 4 do Da Gameboyz.
Então, como um jogo com notas tão baixas da crítica especializada alcançou uma média de 9.3 entre os usuários? A resposta, claro, está na cultura de memes da internet. A piada é justamente elevar um jogo notoriamente ruim ao status de "obra-prima" irônica.
As próprias reviews de usuários no Metacritic são cheias de sátira. Uma delas diz: "O inovador gameplay estilo 'andar por aí e apertar A' definiu o padrão que títulos inferiores como Zelda podem apenas sonhar em alcançar. A IA é tão avançada que os personagens apenas encaram as paredes, contemplando a existência em si. Poético". É humor puro, mas com consequências reais para a métrica do site.

O que isso significa para a credibilidade das avaliações?
Aqui está a parte complicada. Em minha experiência, quando a comunidade decide abraçar uma piada desse nível, ela pode distorcer completamente ferramentas que são usadas por jogadores sérios para tomar decisões de compra. O Metacritic de usuários sempre foi um campo minado, mas casos extremos como esse jogam luz sobre um problema fundamental.
E agora, surge um dilema. Será que os fãs de Clair Obscur, sentindo-se injustiçados, vão começar a inflar as notas do seu jogo favorito em retaliação? Se isso acontecer, toda a seção de avaliações de usuários do Metacritic corre o risco de se tornar uma guerra de bots e campanhas coordenadas, perdendo o pouco de credibilidade narrativa que ainda mantinha.
É um fenômeno curioso. De um lado, temos a celebração irônica de um jogo ruim, um meme que ganhou vida própria. Do outro, a reação potencial de uma comunidade que vê seu jogo aclamado sendo "ultrapassado" por uma piada. No meio disso tudo, fica a pergunta: qual é o valor real de uma nota agregada em uma plataforma que pode ser tão facilmente manipulada pelo humor coletivo?
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Via: Time Extension
Mas a história não para por aí. O fenômeno Cory in the House é apenas a ponta do iceberg de uma tendência que vem se arrastando há anos. Você se lembra do caso de Super Mario Sunshine? Por um bom tempo, sua nota de usuário no Metacritic foi absurdamente baixa, não por ser um jogo ruim – longe disso –, mas por uma campanha organizada de fãs de um console rival. Eles inundaram a página com notas zero, distorcendo completamente a percepção agregada. O sistema, frágil, não conseguiu filtrar o ruído do sinal.
E isso me faz pensar: será que estamos usando as métricas certas? A nota numérica, especialmente em uma escala de 0 a 10, é uma ferramenta brutalmente simplista. Ela reduz experiências complexas, subjetivas e pessoais a um único dígito. Como comparar a inovação narrativa de um Disco Elysium com a perfeição polida de um God of War (2018) usando o mesmo critério? A piada do Cory só funciona porque explora essa fraqueza fundamental. É um exagero que revela o absurdo.

Além da nota: o valor (perdido?) da discussão
O que frequentemente se perde nessa obsessão pelo número final são as reviews em si. Antes do Metacritic e do OpenCritic se tornarem a bússola padrão, muitos jogadores iam atrás de textos completos, de críticos cujos gostos e perspectivas eles entendiam. Eu mesmo tenho meus críticos de confiança – aqueles que adoram RPGs táticos complexos ou que têm paciência zero para fetch quests. Suas análises, cheias de nuances, valem mais do que qualquer agregação.
As avaliações de usuários, em sua melhor forma, poderiam preencher essa lacuna. Em vez de apenas dar uma nota, poderiam ser espaços para discussões ricas: "A mecânica de combate por turnos lembra o jogo X, mas com uma reviravolta interessante no sistema de recursos". Mas, na prática, elas se tornaram um campo de batalha. São usadas para "acertar a média" quando a crítica profissional é muito alta ou muito baixa, ou, como vemos, para fazer piada. O texto da review vira um acessório, muitas vezes ignorado em favor do impacto imediato do número.
E aí entra outro fator: a nostalgia e o revisionismo. Títulos que foram polêmicos ou mal recebidos no lançamento, como Star Wars: Knights of the Old Republic II ou até mesmo Sonic the Hedgehog (2006), encontraram novos públicos e reavaliações anos depois. Comunidades online resgatam esses jogos, destacando suas qualidades únicas apesar dos defeitos gritantes. Essa reavaliação orgânica é valiosa, mas no ecossistema do Metacritic, ela se traduz em uma nova onda de notas altas que podem não refletir a experiência crua de um novato em 2026.
O dilema das plataformas: moderar ou não moderar?
O que o Metacritic, ou qualquer plataforma agregadora, pode fazer diante disso? A moderação radical, exigindo verificação rigorosa de quem comprou o jogo, esbarra em questões de privacidade e escala. Tornar o processo muito trabalhoso afasta usuários legítimos. Mas deixar a porteira aberta, como está, transforma a ferramenta em um parque de diversões para trolls e campanhas coordenadas.
Algumas soluções intermediárias têm sido testadas. O Steam, por exemplo, separa reviews de quem recebeu o jogo de graça e destaca análises "úteis" baseadas no feedback da comunidade. O OpenCritic tenta dar mais transparência, mostrando a distribuição das notas da crítica em um gráfico. Mas nenhuma resolve o cerne da questão: a nossa tendência humana de querer quantificar o inquantificável e de usar sistemas coletivos como armas em guerras culturais.
No fim das contas, o embate entre Clair Obscur e Cory in the House é mais do que uma curiosidade estatística. É um sintoma. Um lembrete de que dados, especialmente os gerados por crowdsourcing, não são neutros. Eles carregam as idiossincrasias, os humores e as piadas internas da comunidade que os produz. Talvez a lição não seja buscar uma métrica perfeita, mas aprender a ler nas entrelinhas desses números, entendendo as histórias e os conflitos que eles escondem. Afinal, a próxima "obra-prima" a ameaçar o topo do ranking pode ser outra piada que ainda não entendemos.
Com informações do: Adrenaline








