Em um cenário onde os fãs de Resident Evil já estavam saturados de trailers e gameplays, a Capcom decidiu tomar um caminho diferente para esquentar os motores para Resident Evil Requiem. Em vez de mais um vídeo mostrando Leon Kennedy atirando em zumbis, a empresa lançou um curta-metragem live action sombrio e emocionalmente carregado, intitulado 'Evil Has Always Had a Name'. A estratégia, surpreendentemente, parece estar funcionando, gerando um buzz positivo que vai além do habitual hype de videogame. O curta não fala sobre heróis, mas sobre vítimas – e é justamente aí que reside seu poder.

Cena do curta live action mostrando a destruição de Raccoon City

Uma narrativa focada no terror humano, não nos monstros

O curta, estrelado e narrado pela atriz Maika Monroe, abandona completamente os protagonistas conhecidos da série. Em vez disso, acompanhamos a rotina aparentemente comum de uma mãe e sua filha em Raccoon City. São cenas de afeto, brincadeiras e normalidade que qualquer um pode se identificar. E é essa identificação que torna a queda tão brutal. A invasão do caos – sirenes, gritos, o inevitável – não é mostrada através de um super-herói entrando em ação, mas através do desespero silencioso e da ruptura de um vínculo familiar. A Capcom, sabiamente, entendeu que o verdadeiro terror de um apocalipse zumbi não está apenas nos monstros, mas na perda do que é humano.

O que mais me impressiona nessa abordagem é a coragem. Em um mercado obcecado por mostrar 'gameplay explosivo', optar por uma peça de atmosfera pura é um risco. Mas, olhando para a reação nas redes sociais e no YouTube, foi um risco que valeu a pena. Muitos comentários chegam a afirmar que o curta é mais impactante e bem-feito do que várias adaptações cinematográficas que a franquia já teve – um elogio significativo, e também uma crítica velada.

O que o curta revela (e esconde) sobre o jogo

Embora não mostre Leon, Claire ou qualquer outro personagem jogável, o material é uma mina de ouro para quem presta atenção aos detalhes da lore. A narrativa reforça as consequências duradouras e trágicas dos atos da Umbrella Corporation, tema central da série. Mais do que isso, ele sutilmente introduz um conceito que parece ser central em Requiem: a evolução dos infectados.

O curta sugere que algumas criaturas em Raccoon City mantêm vestígios das memórias e habilidades que tinham em vida. Essa não é apenas uma ideia assustadora – imaginar um zumbi que, em vez de apenas gemer, lembra-se como usar uma ferramenta – mas também tem implicações diretas na jogabilidade. A Capcom já indicou que isso justificará novas mecânicas, com zumbis especiais capazes de empunhar machados ou motosserras, ligando suas ações passadas ao perigo presente. É uma evolução orgânica do 'zumbi gancho' de Resident Evil 4, potencialmente muito mais perturbadora.

Cena do curta live action mostrando personagens civis em meio ao caos

A grande questão que fica no ar, e que só o jogo completo poderá responder, é se esse peso emocional e narrativo visto no curta será transportado para a experiência interativa. Será que Resident Evil Requiem conseguirá equilibrar a ação tensa que os fãs adoram com uma narrativa que explore de forma mais profunda o custo humano do desastre de Raccoon City? O fato de a Capcom investir em uma produção live action de tom tão sério para promover o jogo é, no mínimo, um forte indício de que a intenção narrativa mudou. Eles estão nos preparando para algo mais sombrio, mais melancólico.

Com lançamento marcado para 27 de fevereiro para PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2 e PC, o sucesso desse curta-metragem coloca uma pressão interessante sobre os ombros do jogo. A expectativa agora não é apenas por bons sustos e tiroteios, mas também por uma história que ressoe. A Capcom acendeu uma chama diferente. Resta saber se Requiem será capaz de mantê-la acesa.

Fonte: Insider-Gaming

E essa mudança de tom não é algo isolado. Olhando para o histórico recente da franquia, dá para traçar uma linha que vai do terror puro de Resident Evil 7 até o equilíbrio entre ação e horror de Resident Evil 4 Remake. Agora, com Requiem, parece que a Capcom quer explorar um território mais psicológico e existencial. O curta live action não é apenas marketing; é uma declaração de intenções. Eles estão dizendo, de forma bastante clara: 'Este jogo vai mexer com você de uma maneira diferente'.

O legado de Raccoon City e o peso da memória

O que torna a premissa de memórias residuais nos infectados tão fascinante – e assustadora – é como ela conecta o passado ao presente de forma visceral. Em jogos anteriores, Raccoon City era um cenário, um pano de fundo. Mas e se o próprio cenário pudesse se lembrar? E se os zumbis que vagam pelas ruas não forem apenas criaturas genéricas, mas ecos de pessoas reais que tiveram suas vidas destruídas? Isso adiciona uma camada de tragédia que vai muito além do susto momentâneo.

Imagine, por exemplo, encontrar um infectado repetindo mecanicamente um movimento de trabalho, como se ainda estivesse em seu emprego na fábrica da Umbrella. Ou um que tenta, de forma desesperada e ineficaz, proteger uma área que era importante para ele em vida. Isso transforma cada encontro de uma mera troca de balas em um pequeno evento narrativo. Você não está apenas sobrevivendo; você está testemunhando os últimos vestígios de uma humanidade perdida. É um conceito que, se bem executado, pode elevar o terror a um patamar mais reflexivo e perturbador.

E isso me faz pensar: será que a Capcom está se inspirando em outras mídias? Há um quê de The Last of Us nessa abordagem, mas com a pitada característica de body horror e conspiração corporativa de Resident Evil. Não se trata de copiar, mas de evoluir a linguagem do terror no videogame, entendendo que o medo mais profundo muitas vezes nasce da empatia – da capacidade de ver um fragmento de nós mesmos naquilo que tememos.

Além do curta: o que mais sabemos sobre a jogabilidade de Requiem?

Enquanto o curta cuida da atmosfera, os vazamentos e rumores – que vêm se mostrando surpreendentemente precisos – pintam um quadro de uma experiência de jogo que pretende ser igualmente ousada. Dizem que o sistema de inventário será mais restritivo, forçando escolhas difíceis semelhantes aos primeiros jogos da série. A durabilidade das armas brancas, introduzida no remake do quarto jogo, deve retornar de forma mais pronunciada. E, é claro, haverá os tais 'zumbis com memória'.

Mas como isso se traduz na prática? Bem, além dos exemplos de zumbis usando ferramentas, especula-se sobre inimigos que podem realizar ações táticas básicas, como tentar flanquear o jogador ou se esconder atrás de cobertura. Não se trata de torná-los gênios da estratégia, mas de dar a eles um comportamento imprevisível e ancorado em uma lógica interna. Um zumbi que foi um policial em vida pode ser mais resiliente e tentar se aproximar de forma mais agressiva, enquanto um que foi um cientista pode ser encontrado em laboratórios, interagindo de forma estranha com equipamentos.

O maior desafio, na minha opinião, será equilibrar essa nova inteligência artificial com o ritmo de jogo. Resident Evil sempre dançou na linha tênue entre o pavor paralisante e a ação catártica. Adicionar uma camada de complexidade aos inimigos pode inclinar a balança para um lado mais lento e metódico – o que, convenhamos, não seria necessariamente ruim, mas representaria uma mudança de paradigma para muitos fãs acostumados com o ritmo mais acelerado das entregas recentes.

E não podemos esquecer dos protagonistas. O curta os omitiu de propósito, mas sabemos que Leon S. Kennedy e Claire Redfield retornam. A grande interrogação é como suas narrativas pessoais – Leon, o policial idealista transformado em agente federal cínico; Claire, a irmã mais nova em busca constante de respostas – vão se entrelaçar com essa nova Raccoon City, um lugar que para eles também está carregado de memórias traumáticas. Será que veremos flashbacks? Encontros com fantasmas do passado que não são literalmente zumbis, mas lembranças igualmente perigosas?

Close-up no rosto angustiado de um personagem civil no curta

O silêncio da Capcom sobre esses detalhes é ensurdecedor. E, de certa forma, é o que mantém a chama do hype acesa. Eles nos deram uma peça emocional poderosa que redefine o tom, mas guardaram os detalhes mecânicos e narrativos centrais a sete chaves. É uma estratégia de marketing arriscada, pois corre o risco de criar expectativas irreais, mas também é refrescante em uma era onde tudo é mostrado em trailers de cinco minutos.

O que está claro é que Resident Evil Requiem não quer ser apenas mais um capítulo. Quer ser um ponto de inflexão. O curta live action é a semente dessa ambição. Agora, resta esperar para ver se o jogo será o solo fértil onde essa semente vai germinar e crescer em uma experiência que realmente marcará, como prometido, uma 'nova era do terror'. A jornada de volta a Raccoon City, aparentemente, será menos sobre fechar um ciclo e mais sobre reabrir velhas feridas para examiná-las sob uma luz nova e terrivelmente humana.

Com informações do: Adrenaline