A ASUS decidiu mergulhar fundo no nicho dos audiófilos que também são gamers com o ROG Kithara, um headset que promete ser um divisor de águas. Com um preço de entrada de US$ 300 (cerca de R$ 1.570 na conversão direta), a empresa não está apenas lançando mais um periférico, mas sim fazendo uma declaração clara: a qualidade sonora de alto nível tem espaço crucial nos jogos competitivos. E, cá entre nós, depois de anos ouvindo headsets que priorizam o boom dos graves em detrimento da clareza, essa abordagem é mais do que bem-vinda.

Headset ASUS ROG Kithara em destaque

O coração do som: entendendo a tecnologia planar magnética

O grande diferencial do Kithara está escondido dentro de suas conchas: drivers planar magnéticos de 100mm. Mas o que isso significa na prática? Ao contrário dos drivers dinâmicos tradicionais que usam uma bobina de voz presa a um diafragma cônico, a tecnologia planar emprega um diafragma fino e plano, suspenso em um campo magnético uniforme. O resultado teórico? Uma resposta de frequência mais linear, uma distorção incrivelmente baixa e uma velocidade de transiente que deixa os drivers convencionais no chinelo.

Para jogos, especialmente FPS táticos como Counter-Strike 2 ou Valorant, essa precisão se traduz em uma vantagem auditiva tangível. A ASUS afirma que o ajuste fino permite identificar a direção de um passo sutil ou o som metálico distinto de uma recarga de arma com uma clareza que headsets comuns simplesmente não conseguem reproduzir. É a diferença entre ouvir um barulho e realmente *entender* de onde ele vem e o que ele é.

E aqui vai um ponto interessante: a escolha pelo design de coroa aberta (open-back). Esse tipo de construção geralmente oferece um soundstage mais amplo e natural – a sensação de que o som vem de fora da sua cabeça – em comparação com os modelos fechados. A contrapartida é o isolamento quase nulo; quem está ao seu lado vai ouvir o que você ouve, e ruídos externos entram com facilidade. Não é a escolha para quem joga em ambientes barulhentos ou não quer incomodar os outros, mas para a imersão e precisão posicional pura, muitos audiófilos juram de pés juntos que é o caminho.

Mais do que som: conectividade, microfone e conforto

Um headset de alto nível precisa ser versátil, e o Kithara parece ter entendido a tarefa. A inclusão de cabos com plugs trocáveis (3.5mm, 4.4mm balanceado e 6.3mm) é um aceno direto aos entusiastas que possuem amplificadores DAC/AMP dedicados. O adaptador USB-C para saída dual 3.5mm é um toque prático excelente, estendendo a compatibilidade para consoles modernos, PCs e até smartphones, sem a necessidade de gambiarras.

O microfone boom de "banda completa" é outra promessa ambiciosa. Ao separar os circuitos de áudio e do microfone, a ASUS busca eliminar um dos maiores incômodos dos headsets gamers: o ruído de fundo e o eco que vazam para o chat. Ter um áudio cristalino para ouvir é uma coisa; garantir que sua comunicação também seja limpa é o que fecha o ciclo para uma experiência competitiva realmente séria.

E depois de horas de jogo, o conforto é rei. A estrutura metálica ajustável e a faixa de cabeça acolchoada com múltiplas camadas são padrão ouro para headsets de ponta. A inclusão de dois conjuntos de almofadas auriculares para troca é um detalhe que mostra atenção ao usuário – diferentes materiais (como espuma com memória de forma e veludo) podem mudar drasticamente a experiência de uso e a assinatura sonora.

Um mercado em transformação

O lançamento do ROG Kithara não acontece no vácuo. Ele chega em um momento em que marcas especializadas em áudio de alta fidelidade, como a Audeze (com sua linha Maxwell), já cruzaram a ponte para o mundo gamer com grande sucesso. A parceria da ASUS com a HiFiMan, fabricante renomada no cenário audiófilo, é um sinal claro dessa convergência. Não se trata mais de colocar LEDs RGB em um driver comum; é trazer tecnologias de áudio de referência para uma nova audiência.

A pergunta que fica é: os jogadores estão dispostos a investir nesse nível de sofisticação? Para o jogador casual, US$ 300 é um valor salgado. Mas para o competidor sério ou para o entusiasta que exige o mesmo rigor sonoro nos games e na música, o Kithara pode representar um "dois em um" muito convincente. Ele desafia a noção de que headset gamer é sinônimo de som bombástico e pouco refinado.

Claro, a prova final está na audição. Especificações de papel são uma coisa, mas como esse driver planar magnético de 100mm se comporta com a trilha sonora atmosférica de um Cyberpunk 2077 ou na cacofonia caótica de um Battlefield? A resposta para isso só virá com testes práticos extensivos.

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Fonte: Engadget

O desafio da equalização: som de referência versus "assinatura gamer"

Um dos debates mais interessantes que o Kithara levanta é sobre a equalização padrão. A indústria de headsets gamers, por anos, adotou uma curva de som com ênfase pronunciada em graves e agudos – a famosa curva em "V". Isso cria uma sensação inicial de impacto e "detalhe", mas muitas vezes em detrimento da fidelidade e do equilíbrio tonal. É um som feito para impressionar em cinco minutos na loja, não necessariamente para ser preciso durante horas de uso.

O que a ASUS promete com o Kithara é algo diferente: uma resposta mais plana, mais neutra. Em teoria, isso oferece ao jogador o som "como os desenvolvedores pretendiam". Mas será que é isso que os jogadores realmente querem? Afinal, muitos títulos competitivos já são mixados para destacar pistas de áudio importantes, como passos. Adicionar uma camada extra de equalização agressiva pode, na verdade, mascarar esses detalhes ou criar uma fadiga auditiva mais rápida.

Na minha experiência, a transição para um som mais neutro pode ser desconcertante no início. Os tiros podem parecer menos "explosivos", a trilha sonora menos "épica". Mas depois de um período de adaptação – que alguns chamam de "detox auditivo" – a clareza e a separação instrumental começam a fazer sentido. Você para de ouvir um amálgama de ruídos e começa a discernir camadas. É uma mudança de mentalidade: de ser bombardeado por som para analisá-lo ativamente.

E aqui está um ponto crucial: a ASUS incluiu suporte ao seu software Armoury Crate. Isso abre a possibilidade para quem quiser ajustar o som ao seu gosto. O purista pode manter o perfil plano. O jogador que sente falta de um pouco mais de "punch" nos graves para explosões pode criar um preset personalizado. Essa flexibilidade é fundamental para um produto que tenta agradar a dois públicos distintos.

Além do FPS: a experiência em outros gêneros

É fácil focar nos jogos de tiro em primeira pessoa quando se fala de áudio preciso, mas e os outros gêneros? Como um driver planar magnético de 100mm se sai ao reproduzir a orquestra sinfônica de um RPG como Final Fantasy XVI ou os detalhes ambientais de um jogo de terror como Alone in the Dark?

A tecnologia planar é frequentemente elogiada por sua velocidade e controle. Isso significa que, em teoria, transientes rápidos – como o estalar de um galho, o tilintar de uma espada ou o ataque de um instrumento de corda – são reproduzidos com uma nitidez e definição que drivers dinâmicos podem "engolir". Para a imersão narrativa, isso é uma ferramenta poderosa. A textura do som ganha uma nova dimensão; você não ouve apenas uma chuva, você ouve o impacto das gotas individuais em diferentes superfícies.

No entanto, há uma ressalva. Alguns puristas argumentam que drivers planares muito grandes, como os 100mm do Kithara, podem perder um pouco da "agilidade" em frequências médio-altas quando comparados a drivers menores. É uma troca: você ganha em extensão de graves e em "corpo" sonoro, mas precisa de um tuning muito cuidadoso para manter a precisão. A ASUS e a HiFiMan afirmam ter resolvido isso com o design do motor magnético e do diafragma, mas, novamente, só os testes práticos dirão.

E para quem também usa o headset para consumir mídia? Um produto nessa faixa de preço precisa ser um camaleão. A reprodução de música, especialmente gêneros como jazz acústico ou música clássica, será um teste de fogo para a suposta fidelidade do Kithara. Se ele entregar uma experiência auditiva de alto nível tanto nos games quanto nas playlists, seu argumento de valor salta de "headset gamer premium" para "headset de áudio de referência que também é ótimo para games".

A questão do preço e do público-alvo

US$ 300. R$ 1.570 na conversão direta, sem impostos, frete ou margem de revenda. Na realidade brasileira, podemos estar falando de um produto que chega perto ou até ultrapassa a barreira dos R$ 2.000. Isso coloca o ROG Kithara em um patamar premium inquestionável. Ele não compete com os headsets de entrada das marcas gamers; ele compete com produtos de marcas especializadas em áudio e com os tops de linha de outras gigantes, como a própria Audeze Maxwell, a Sennheiser (com sua linha EPOS) e a Beyerdynamic.

Então, quem é o comprador desse headset? Eu vejo três perfis principais. O primeiro é o jogador competitivo sério, para quem qualquer vantagem marginal é válida e o investimento em equipamento faz parte da "ferramenta de trabalho". O segundo é o audiófilo que joga – a pessoa que já tem um par de fones de ouvido de alta qualidade para música e busca uma experiência similar nos games, sem precisar de dois dispositivos. O terceiro, e talvez o mais interessante, é o entusiasta de tecnologia que valoriza a inovação e a construção de qualidade e está disposto a pagar por um produto que promete ser a "última palavra" em som para jogos por algum tempo.

É um mercado de nicho, sem dúvida. Mas é um nicho que cresce e que as marcas estão notando. A aposta da ASUS é que a linha que separa o "gamer" do "audiófilo" está cada vez mais tênue. Nós, consumidores, estamos mais informados e exigentes. Já não aceitamos qualquer som estridente com RGB. Queremos imersão, precisão e, acima de tudo, qualidade que justifique o preço.

O sucesso do Kithara, portanto, não será medido apenas em unidades vendidas, mas no impacto que ele terá no mercado. Ele pode forçar outras marcas gamers a repensarem suas prioridades de áudio, a investirem em tecnologias melhores em vez de apenas em designs chamativos. Ou pode se tornar um produto de culto, adorado por uma minoria e ignorado pelo mainstream. A jornada desde o anúncio até as prateleiras – e, mais importante, até as cabeças dos jogadores – é o que definirá seu legado.

Com informações do: Adrenaline