Como manter viva a memória de um ídolo? Para muitos fãs, objetos que remetem às suas conquistas são mais do que simples lembranças; são pedaços de história que podem ser tocados. E quando se trata de Ayrton Senna, um dos maiores nomes do esporte mundial, essa busca por conexão material atinge um patamar extraordinário. A prova mais recente? Uma réplica artesanal de seu icônico capacete, mas com um detalhe que eleva o tributo a outro nível: é folheada a ouro de 22 quilates.

Todas as réplicas foram vendidas em menos de 15 dias. Crédito: Fernando Pires/Quatro Rodas
Mais do que um acessório: o rosto do piloto em ouro
Para Stella Mosca, sócia-diretora da Sid Special Paint, a empresa por trás da criação, a escolha do capacete não foi aleatória. Ela credita ao seu avô, o artista Sid Mosca – fundador da empresa e amigo pessoal de Senna – uma definição poderosa: "O capacete é o rosto do piloto". Foi Sid quem criou a pintura original que se tornou uma das imagens mais reconhecidas do automobilismo. Agora, décadas depois, sua família decidiu reinterpretar essa obra-prima.
Eles substituíram o tradicional amarelo vibrante pelo dourado. Mas não se trata de uma simples pintura. O capacete, em tamanho real, é meticulosamente folheado a ouro. Stella explica que optaram por um acabamento propositalmente rústico, justamente para evidenciar que se trata de ouro verdadeiro, aplicado de forma artesanal, e não de uma tinta ou efeito visual.

Miniaturas em número de 161 trazem informações sobre o GP referente ao número de série do capacete. Crédito: Fernando Pires/Quatro Rodas
Exclusividade que gera valor: uma peça para cada vitória
Aqui é onde a história fica ainda mais interessante para colecionadores. A tiragem foi deliberadamente minúscula, alimentando o que muitos chamam de "culto da exclusividade". Foram produzidas apenas 41 unidades, cada uma numerada. E esse número não é arbitrário: representa cada uma das 41 vitórias de Ayrton Senna na Fórmula 1.
O resultado? Um fenômeno de vendas. Todas as 41 unidades foram comercializadas em menos de quinze dias, cada uma pelo preço de R$ 34.000. E a primeira unidade, a de número 1, foi vendida antes mesmo do lançamento oficial para um colecionador fiel, que comprou a peça sem sequer tê-la visto. Isso diz muito sobre a força da marca Senna e a confiança no trabalho da Sid Special Paint.
Diante do sucesso avassalador, a empresa percebeu que havia demanda além dos colecionadores de alto poder aquisitivo. A solução foi lançar uma linha de miniaturas. Mas mesmo essa versão "mais acessível" carrega um DNA de exclusividade.
As miniaturas: um tributo detalhado para 161 corridas
A tiragem das miniaturas é maior, mas ainda assim limitada e cheia de significado. Foram produzidas 161 unidades, que correspondem ao número total de Grandes Prêmios que Senna disputou em sua carreira na F1. Cada miniatura, em escala 1/2, custa R$ 14.890.
O que realmente impressiona é o nível de detalhe. Além do número de série, cada miniatura traz, gravada, informações específicas sobre uma corrida da carreira do piloto: o nome do Grande Prêmio, o ano e o carro que ele pilotou naquela prova. É uma forma de transformar cada peça em um item de colecionador único, ligado a um momento histórico específico.

O estúdio também vende réplicas pintadas em amarelo como os capacetes originais. Crédito: Fernando Pires/Quatro Rodas
E o que acontece com o valor dessas peças depois que elas saem da loja? Bem, no mundo dos colecionáveis, especialmente itens numerados e associados a um ícone como Senna, a tendência é de valorização. É quase um consenso entre especialistas. A unidade de número 1, ou aquelas ligadas a vitórias emblemáticas – como as no Brasil, em Mônaco ou que garantiram seus títulos mundiais – têm potencial para se tornar ainda mais valiosas com o tempo.
Afinal, não se trata apenas de ouro ou de um objeto bem feito. Trata-se de possuir um fragmento material da lenda, uma narrativa de sucesso e superação transformada em arte. Para os fãs, o preço alto pode ser justificado não pelo metal, mas pelo símbolo. E o lançamento bem-sucedido prova que, mesmo três décadas após sua partida, o mercado para itens ligados a Ayrton Senna continua aquecido e ávido por novidades que celebrem seu legado de forma única.
Mas a história por trás dessas peças douradas vai além do simples comércio de colecionáveis. Ela toca em algo mais profundo sobre como preservamos a memória e como o valor de um objeto pode transcender seu custo material. Você já parou para pensar por que estamos dispostos a pagar tanto por algo que, no fim das contas, vai ficar parado em uma vitrine?
Para Stella, a resposta está na emoção. "Não estamos vendendo um produto, estamos oferecendo uma conexão", ela me contou em uma conversa. "Muitos dos compradores são pessoas que viram Senna correr, que choraram em 1994. Para eles, ter esse objeto é como ter um pedaço daquela época, daquela admiração." E faz sentido. Em um mundo cada vez mais digital, onde as memórias são armazenadas em nuvens e os ídolos são pixels em uma tela, há um desejo quase primal pelo tátil, pelo objeto que existe no espaço físico e carrega uma história.
O processo artesanal: onde o ouro encontra a história
Visitar o estúdio da Sid Special Paint é como entrar em um santuário dedicado à arte automotiva. O cheiro de tinta e solvente se mistura com o brilho metálico das peças em produção. E foi lá que pude ver de perto o minucioso trabalho por trás do folheamento a ouro. Ao contrário do que se possa imaginar, não é um processo industrial rápido. Cada capacete leva semanas para ser concluído.
Primeiro, a réplica em fibra de vidro recebe uma camada de primer e é lixada até ficar perfeitamente lisa – qualquer imperfeição ficaria evidente sob o ouro. Depois, aplica-se uma camada especial de aderência. Só então vem o folheamento, feito com folhas de ouro 22k tão finas que são manuseadas com pinças e a respiração contida. Os artesãos usam pincéis de pelo de camelo para posicionar cada folha, sobrepondo-as levemente como escamas. O resultado final é aquecido e selado, mas intencionalmente mantém algumas marcas do processo manual. "Queríamos que parecesse uma relíquia antiga, não um produto de linha de montagem", explica um dos artesãos.
O folheamento manual exige paciência e precisão. Crédito: Fernando Pires/Quatro Rodas
E aqui está um detalhe curioso que muitos não percebem: o tom dourado não é uniforme. Dependendo da luz e do ângulo, ele varia entre um amarelo quente e um dourado mais pálido, quase como o capacete original de Senna refletia nas transmissões de TV sob o sol forte dos circuitos. Foi uma escolha estética deliberada? "Totalmente", confirma Stella. "Estudamos fotos e vídeos por horas. Queríamos capturar a essência, não apenas copiar a cor."
O mercado de memorabilia de Senna: um ecossistema à parte
O sucesso estrondoso desse lançamento – todas as unidades vendidas em quinze dias! – não aconteceu no vácuo. Ele é sintoma de um mercado de memorabilia do piloto que se tornou um ecossistema próprio, com suas próprias regras e dinâmicas de valor. E é um mercado que só cresce, alimentado por uma combinação de nostalgia, investimento e pura paixão.
Lembro-me de conversar com um leiloeiro especializado em itens esportivos ano passado. Ele me disse algo que ficou na cabeça: "Itens do Senna têm uma liquidez incomum. Enquanto uma pintura de um artista contemporâneo pode ficar anos à espera de um comprador, um capacete autêntico ou uma peça assinada do Ayrton encontra comprador em semanas, às vezes dias." E os preços? Bem, eles atingem patamares que deixariam muitos investidores tradicionais de queixo caído. Em 2023, um macacão usado por Senna em 1991 foi arrematado por mais de 150 mil euros em um leilão na Europa.
O que diferencia essas réplicas folheadas a ouro, então? Na minha opinião, é a camada adicional de narrativa. Não se trata apenas de um item usado pelo piloto (o que seria impossível, já que os originais estão em museus ou coleções ultra-restritas). Trata-se de uma reinterpretação artística autorizada pela família que criou a pintura original. É como se os Mosca estivessem em diálogo com sua própria história, com a memória do amigo de seu patriarca. Isso adiciona uma profundidade que um simples item de merchandising nunca teria.
E falando em família, há uma ironia interessante aqui. Sid Mosca, o avô de Stella, era conhecido por sua abordagem quase espartana à arte. Ele valorizava a função, a legibilidade do design a altas velocidades. O que ele pensaria dessa versão dourada, puramente decorativa? "Acho que ele aprovaria", reflete Stella, com um sorriso. "Ele sempre disse que o capacete era a identidade do piloto. E o que é mais identitário do que o ouro? É eterno, é puro, é vitorioso. Combina com o Senna que ele conheceu."
A assinatura de Sid Mosca, criador do design original. Crédito: Fernando Pires/Quatro Rodas
Mas nem tudo são elogios. Circulam pelas redes sociais e fóruns especializados algumas críticas. O preço, obviamente, é o alvo principal. Quase R$ 35 mil por uma réplica? Para muitos, é um absurto inacessível. Outros questionam a ética de "banalizar" a imagem do piloto com produtos de luxo, argumentando que Senna era mais sobre desempenho do que ostentação. Um colecionador com quem troquei mensagens foi direto: "É bonito, sem dúvida. Mas prefiro guardar meu dinheiro para um pedaço real da história, como um ingresso autografado ou um fragmento de um carro. Isso aí é joia para rico se exibir."
A Sid Special Paint, é claro, está ciente dessas discussões. E a linha de miniaturas, ainda que cara, foi uma resposta a parte dessa crítica, uma tentativa de alcançar um público um pouco mais amplo. Mas a verdade é que, no universo da memorabilia de alto nível, a exclusividade e o preço elevado são parte do apelo. É um círculo que se alimenta: a raridade justifica o custo, e o custo alto reforça a percepção de exclusividade e valor.
E então surge a pergunta inevitável: para onde vai esse mercado? O que vem depois do ouro? Stella é evasiva sobre planos futuros, mas deixa escapar que há "outras ideias em estudo". Materiais diferentes? Parcerias? Réplicas de outros capacetes icônicos da história da equipe McLaren? A imaginação corre solta. O que parece claro é que a busca por novas formas de materializar a lenda de Senna está longe de acabar. Talvez o próximo passo seja mergulhar ainda mais fundo na tecnologia, usando hologramas ou realidade aumentada para reviver momentos das corridas. Ou talvez o caminho seja oposto, voltando a técnicas ainda mais artesanais e antigas.
Enquanto isso, as 41 unidades douradas e suas 161 miniaturas irmãs começam sua jornada pelo mundo. Algumas ficarão no Brasil, em salas especiais de colecionadores. Outras já seguiram para Europa, Ásia, Estados Unidos. Cada uma carregando não apenas ouro, mas um pedaço de uma narrativa que mistura arte familiar, saudade esportiva e o fascínio humano por objetos que transcendem sua função. Elas não servirão para proteger nenhuma cabeça em altas velocidades, mas talvez cumpram uma função igualmente importante: manter a chama acesa, fazer com que as novas gerações perguntem "quem foi esse piloto?" e permitir que os que viveram sua época toquem, literalmente, um fragmento dourado de sua memória.
Com informações do: Quatro Rodas







