A nova Toyota Hilux, que chegará ao Brasil em 2027, acaba de demonstrar que sua fama de robustez vai muito além da capacidade de carga ou do terreno difícil. A nona geração da picape média conquistou a nota máxima de 5 estrelas nos rigorosos testes de colisão do ANCAP, o programa de avaliação de carros novos da Austrália e Nova Zelândia. Esse resultado, divulgado em dezembro de 2025, é um forte indicativo do padrão de segurança que os consumidores brasileiros podem esperar – e traz consigo algumas inovações interessantes e até um ponto de atenção curioso.
Os Segredos da Nota Máxima: Airbags e Tecnologia
Para alcançar as 5 estrelas, a engenharia da Toyota não economizou. A grande estrela técnica foi a inclusão de um airbag central, um dispositivo ainda pouco comum projetado especificamente para evitar que as cabeças do motorista e do passageiro se choquem em uma colisão lateral. Imagine a cena: um impacto forte no lado do carro. Sem esse airbag, os ocupantes podem ser arremessados um contra o outro. Com ele, uma barreira inflável surge entre eles, mitigando lesões graves.
Mas a segurança passiva é só parte da história. O pacote de sistemas de assistência ao condutor (ADAS) da nova Hilux é extenso e parece ter sido decisivo para a pontuação. Ela conta com:
Frenagem Autônoma de Emergência (AEB): Capaz de detectar pedestres, ciclistas e motociclistas, não apenas outros carros.
Sistema de Suporte de Faixa: Inclui assistente de permanência (LKA), aviso de saída (LDW) e até uma manutenção de emergência (ELK) que pode corrigir a direção se você estiver prestes a sair da pista de forma perigosa.
Detecção de Presença Infantil (CPD): Um item de série nas versões de cabine dupla que usa sensores nos bancos traseiros para alertar se uma criança foi deixada para trás no veículo. Em um país de clima quente como o Brasil, essa tecnologia pode ser literalmente salvadora.
Assistente de Velocidade Inteligente (SAS): Lê as placas de trânsito e pode ajustar a velocidade do cruise control automaticamente ou alertar o motorista.
Os números do crash-test são impressionantes: 84% de proteção para adultos, 89% para crianças (uma das notas mais altas) e 82% na proteção de usuários vulneráveis da via, como pedestres.

O Outro Lado da Moeda: Pontos de Atenção
Aqui vem um dos aspectos mais fascinantes do relatório. Apesar da nota máxima, o ANCAP fez uma crítica estrutural importante. Eles deduziram oito pontos porque a dianteira da Hilux – seu robusto para-choque e estrutura – foi identificada como um potencial "risco" para os ocupantes de um carro menor em uma colisão frontal.
É o velho dilema da física: a massa e a rigidez que protegem tão bem quem está dentro da picape podem causar mais danos ao veículo que recebe o impacto. Não é um defeito, mas uma característica inerente ao design de veículos altos e pesados. Faz você pensar sobre a responsabilidade ao volante de um carro assim, não é?
Outro ponto prático para famílias: o relatório apontou a ausência do ponto de ancoragem superior (top tether) para cadeirinhas infantis na posição central do banco de trás. Por isso, o órgão não recomenda instalar a cadeirinha no meio. Algo a se verificar quando o modelo chegar ao Brasil.

E no Brasil? A Longa Espera e a Revolução Energética
Agora, a parte que interessa ao mercado nacional: a nona geração da Hilux só chegará ao Brasil no início de 2027. A produção na fábrica da Toyota em Zárate, Argentina, está programada para começar no final de 2026, em um lançamento escalonado que priorizará as versões a diesel tradicionais.
Mas a espera pode valer a pena pela revolução energética que vem a bordo. A Toyota está adotando uma estratégia "multienergia" para a Hilux:
Motor 2.8 Turbodiesel: A propulsão clássica e confiável será mantida.
Híbrido Leve (MHEV) 48V: Previsto para chegar no segundo trimestre de 2027, prometendo reduzir consumo e emissões.
Versão 100% Elétrica (BEV): A grande novidade. Com dois motores que somam 196 cv e tração integral, porém com uma bateria de 59,2 kWh que limita a autonomia a cerca de 240 km e a capacidade de reboque a 1.600 kg. Claramente, um foco inicial em uso urbano ou frotas corporativas com rotas definidas.
É um passo ousado para um ícone do segmento de trabalho. A picape elétrica levanta questões práticas: como ela se comportará em longas estradas de interior, no transporte de carga pesada ou no off-road? A autonomia anunciada sugere que, por enquanto, seu nicho será específico.

Enquanto isso, o SUV irmão, o SW4, deve iniciar sua produção entre março e abril de 2027. A jornada até as concessionárias brasileiras será longa, mas os resultados do ANCAP mostram que a próxima Hilux não está apenas mudando de visual – está evoluindo para se tornar uma das picapes mais seguras e tecnológicas do mercado, mesmo que traga consigo debates importantes sobre compatibilidade veicular e os limites iniciais da eletrificação no segmento.
E essa evolução tecnológica não para por aí. Conversando com alguns engenheiros da indústria, ouvi comentários interessantes sobre como a eletrônica embarcada está mudando a própria filosofia de construção desses veículos. A Hilux, tradicionalmente conhecida por sua simplicidade mecânica e facilidade de manutenção em locais remotos, agora incorpora uma rede complexa de sensores e controladores. Será que essa complexidade vai se refletir no custo de propriedade a longo prazo? Ou os ganhos em segurança e eficiência justificam a mudança?
O Mercado em Transformação: Concorrentes e Expectativas
Enquanto a Toyota prepara sua chegada para 2027, o cenário competitivo não está parado. A Ford Ranger já está na sua geração atual, e a Chevrolet S10 deve passar por uma renovação significativa antes disso. A grande pergunta que fica é: como essas concorrentes vão responder ao desafio de segurança estabelecido pela nota do ANCAP? E mais importante, será que vão trazer tecnologias similares para o mercado brasileiro no mesmo timing, ou a Hilux terá um período de vantagem?
Lembro-me de quando os airbags laterais de cortina começaram a aparecer nas picapes de luxo, há uns dez anos. Hoje, são quase item obrigatório na mentalidade do consumidor. O airbag central e a detecção de presença infantil podem seguir o mesmo caminho, tornando-se o novo padrão mínimo esperado. Isso pressiona toda a indústria a evoluir – o que é ótimo para nós, consumidores finais.
A Questão do Preço: Tecnologia Tem Seu Custo
Aqui entra um ponto espinhoso, mas inevitável. Toda essa tecnologia de segurança – os sensores, os airbags extras, os sistemas de assistência – não vem de graça. A pergunta que todo potencial comprador vai fazer é: quanto dessa nota máxima do ANCAP vai se traduzir em um aumento no preço final da Hilux quando ela chegar aqui?
É um cálculo difícil. Por um lado, a Toyota tem um histórico de absorver parte dos custos de inovação para manter a competitividade. Por outro, a desvalorização cambial e os custos de produção local na Argentina adicionam variáveis complexas à equação. Em minha opinião, é provável que vejamos uma estratificação mais clara entre as versões. As tecnologias de segurança mais avançadas, como o pacote completo de ADAS, podem ficar concentradas nas configurações de topo de linha, enquanto as versões de trabalho mais básicas mantenham um foco no custo-benefício.
Isso cria um dilema interessante. A segurança, idealmente, deveria ser democrática. Mas a realidade econômica do Brasil muitas vezes impõe escolhas difíceis. Será que veremos campanhas de conscientização ou até incentivos fiscais para popularizar esses itens de segurança, como já acontece em alguns países com o ESP?
Além do Crash Test: A Segurança no Mundo Real
Os laboratórios do ANCAP simulam cenários padronizados – colisão frontal, lateral, impacto com poste. Mas o Brasil tem suas próprias peculiaridades no trânsito. Estradas esburacadas, animais na pista, ultrapassagens arriscadas em rodovias de pista simples. Como a nova Hilux se comporta nesses contextos?
Os sistemas de assistência são uma camada de proteção, mas a robustez da construção e a confiabilidade dos freios em longos declives continuam sendo críticos. A famosa durabilidade da Hilux sempre foi um ativo de segurança indireto – um veículo que não quebra em situações perigosas é, por si só, mais seguro. A eletrificação e a complexidade eletrônica trazem uma nova pergunta: essa confiabilidade lendária será mantida?
Outro aspecto pouco comentado é a visibilidade. Picapes altas como a Hilux tradicionalmente têm pontos cegos maiores. Os sistemas de monitoramento de ponto cego (BLIS) e as câmeras de 360 graus, que esperamos que venham na nova geração, não são apenas conveniências – são ferramentas essenciais para mitigar esse risco inerente ao design do veículo.
E não podemos esquecer do fator humano. A tecnologia mais avançada do mundo é inútil se o motorista a desativar por achar irritante ou se não entender como ela funciona. A interface dos sistemas, a clareza dos alertas e até a formação dos vendedores nas concessionárias para explicar esses recursos serão parte fundamental do sucesso real dessa revolução de segurança. Já passou da hora de o teste de direção para tirar a CNH incluir noções básicas sobre como interagir com ADAS, não acha?
A Eletrificação como Parte da Equação de Segurança
Quando se fala em picape elétrica, o foco costuma ser autonomia, torque ou custo por quilômetro. Mas a eletrificação traz implicações profundas para a segurança, algumas óbvias, outras sutis.
O centro de gravidade mais baixo, devido ao peso das baterias no assoalho, pode melhorar significativamente a estabilidade dinâmica e reduzir o risco de capotamento – um acidente particularmente perigoso em veículos altos. O sistema de frenagem regenerativa também oferece uma desaceleração mais suave e consistente em longas descidas, aliviando o estresse nos freios a disco tradicionais e evitando o temido fade.
Por outro lado, surgem novos desafios. O silêncio de um motor elétrico pode ser um risco para pedestres e ciclistas desatentos. A Toyota certamente incluirá um AVAS (Sistema de Alerta de Veículo Audível) para emitir um som em baixas velocidades. E há toda a engenharia de segurança envolvendo a bateria de alta voltagem – sua blindagem em caso de colisão, os procedimentos de resgate para os bombeiros e o isolamento elétrico.
É um novo mundo. A picape que por décadas foi símbolo de força bruta e simplicidade mecânica está se tornando um concentrado de tecnologia de ponta. A jornada até 2027 será de muita especulação, análise de spy shots e espera. Mas uma coisa os testes do ANCAP já deixaram clara: a batalha no segmento de picapes médias não será mais apenas sobre torque, capacidade de carga ou durabilidade. A segurança acaba de entrar no ringue como um critério decisivo, e a nova Hilux parece ter dado o primeiro e forte golpe.
Com informações do: Quatro Rodas








