O cenário das lojas digitais de jogos é, muitas vezes, um terreno fértil para títulos de qualidade duvidosa. Esses produtos, conhecidos como 'shovelware', costumam se esconder atrás de preços baixos para atrair compradores desavisados. Agora, parece que a Sony decidiu tomar uma atitude drástica para limpar sua própria casa. A empresa removeu silenciosamente mais de mil jogos publicados por um único estúdio da PlayStation Store, em um movimento que pode sinalizar o início de uma faxina mais ampla no catálogo digital.

O sumiço silencioso da ThiGames
Foi um usuário do X, RobThanatos, quem primeiro notou o desaparecimento. De uma hora para outra, todos os 1.194 jogos publicados pela editora alemã ThiGames sumiram da loja. E não era qualquer editora: a ThiGames detinha o quarto maior catálogo de jogos em toda a PlayStation Network. Imagine só, mais de mil títulos evaporando sem qualquer aviso prévio.
All @PlayStation games by the publisher @ThiGames_DE seem to be unlisted from the ps store, they had the 4th most games on psn. It's unclear why. pic.twitter.com/ulmW17O3x9
O curioso é o silêncio. Nem a Sony nem a ThiGames se pronunciaram oficialmente sobre o ocorrido. Esse tipo de ação unilateral, sem explicação, deixa uma névoa de incerteza no ar. Será que foi uma violação dos termos de serviço? Uma decisão de curadoria? A comunidade de jogadores fica especulando enquanto as empresas se calam.
E se essa for apenas a primeira peça de dominó a cair? Especialistas já apontam outras editoras que poderiam ser os próximos alvos, como Webnetic, Xitilon, Ratalaika Games e eastasiasoft. Todas compartilham uma característica: um volume enorme de lançamentos, muitos deles com uma qualidade que, digamos, deixa a desejar. A Sony estaria finalmente impondo um padrão mínimo de qualidade para sua loja? É uma pergunta que vale milhões.
A estranha economia dos 'shovelwares' e os colecionadores de troféus
Aqui está uma ironia do mundo gamer: esses jogos considerados 'lixo' por muitos têm um mercado cativo. E não, não são jogadores casuais enganados. São os 'trophy hunters', os caçadores de troféus. Para essa comunidade, um shovelware barato que ofereça uma platina (o troféu máximo) em 10 minutos não é um desperdício de dinheiro – é um investimento eficiente.
Empresas como a Ratalaika Games praticamente construíram um modelo de negócio em cima disso. Eles produzem jogos extremamente simples, com mecânicas básicas, que podem ser terminados – e platinados – em tempo recorde. O preço é baixo (muitas vezes alguns dólares), a qualidade é irrelevante, e o troféu brilhante no perfil do jogador é garantido. É uma transação pura e simples: você paga pelo troféu, não pela experiência.
Mas qual o problema disso, afinal? Se tem quem compre, por que a loja deveria se importar? Bem, a questão vai além da mera curadoria. Esses jogos:
Poluem os resultados de busca, dificultando que jogadores encontrem títulos de verdadeira qualidade.
Podem confundir compradores menos experientes, especialmente crianças, que podem achar que estão comprando um jogo similar a um sucesso, mas por uma fração do preço.
Desvalorizam o trabalho de desenvolvedores independentes sérios, que lutam por visibilidade na mesma prateleira digital.
Na minha opinião, há uma linha tênue entre permitir a diversidade de conteúdo e manter um padrão que preserve a credibilidade da plataforma. A Steam, por exemplo, já enfrentou críticas por sua moderação considerada frouxa, permitindo que clones e jogos roubados de outras plataformas aparecessem em sua loja. A Sony, ao que parece, está tentando evitar cair no mesmo buraco.
O que esperar do futuro da PlayStation Store?
A ação contra a ThiGames é um precedente importante. Ela demonstra que a Sony está disposta a usar seu poder de curadoria de forma agressiva, mesmo contra uma editora com um catálogo gigantesco. Isso levanta várias questões para o futuro.
Os critérios para remoção são claros? Existe um aviso ou um processo de recurso para os desenvolvedores? Ou a remoção é sumária, baseada em alguma métrica interna obscura? A falta de transparência é, talvez, a parte mais preocupante para quem publica jogos na plataforma.
Por outro lado, você já tentou navegar pela PlayStation Store ultimamente? Às vezes, encontrar um jogo indie genuinamente bom em meio a dezenas de ofertas duvidosas é como procurar uma agulha num palheiro. Uma limpeza, se feita com critério, pode beneficiar a todos – jogadores encontram conteúdo melhor, e desenvolvedores sérios ganham mais visibilidade.
O movimento da Sony me faz lembrar de quando as locadoras de vídeo físicas ainda existiam. Havia sempre aquela seção de filmes B, com capas chamativas e enredos absurdos. A diferença é que, na loja digital, essa seção não está segregada – ela se mistura com tudo. Separar o joio do trigo digitalmente é um desafio monumental, mas parece que 2026 pode ser o ano em que a Sony decide encará-lo de frente. Resta saber quais editoras serão as próximas a sentir o baque e como a comunidade de caçadores de troféus vai se adaptar a um mercado potencialmente mais enxuto de 'platinas fáceis'.
Fonte: Eurogamer
E essa não é a primeira vez que a Sony dá sinais de que está de olho na qualidade do seu ecossistema. Lembra daquela política de exigir que todos os jogos lançados para o PS5 a partir de 2023 fossem testados também no PS4 Pro? Na época, muitos viram como uma barreira para desenvolvedores menores, mas também era um filtro de qualidade indireto. Um jogo que não consegue rodar de forma aceitável em hardware mais antigo pode ser um sinal de otimização preguiçosa – algo comum em muitos shovelwares.
O que me intriga, no entanto, é o timing. Por que agora? A indústria passa por um momento de consolidação, com cortes de custos e uma busca feroz por eficiência. Manter um catálogo inchado com milhares de títulos que quase ninguém joga tem um custo. Servidores para armazenar os arquivos, banda para distribuí-los, sistemas de suporte para eventuais problemas... Tudo isso pesa no balanço. Remover conteúdo de baixo engajamento pode ser, em parte, uma decisão financeira pragmática disfarçada de curadoria.
O lado cinzento: desenvolvedores pegos no fogo cruzado
Aqui está um ponto que merece uma pausa para reflexão. Ao mirar uma editora como a ThiGames, que provavelmente atuava como uma "publicadora fantasma" para dezenas de estúdios minúsculos ou individuais, a Sony pode estar apagando, sem querer, o trabalho legítimo de alguns desenvolvedores. Nem todo jogo simples é necessariamente um shovelware mal-intencionado.
Imagine um desenvolvedor solo na Europa Oriental ou na América do Sul, com recursos limitados, que criou um jogo de puzzle honesto, mas básico. Ele procura uma editora para ajudá-lo a lidar com a complexa certificação da Sony e encontra a ThiGames. Seu jogo é lançado, vende algumas dezenas de cópias e some no mar de títulos. De repente, ele descobre que não só seu jogo foi removido da loja, mas todo o seu canal de publicação evaporou. Como ele recupera seus rendimentos? Como lança uma atualização? O silêncio da Sony deixa essas pessoas num limbo absoluto.
É um dilema clássico da moderação em escala: como criar regras que filtrem o lixo sem esmagar a grama que tenta crescer ao redor? A Valve, na Steam, tentou abordagens como a taxa de entrada do Steam Direct para desencorajar lançamentos de baixo esforço, mas a enxurrada continuou. A solução da Sony, por enquanto, parece muito mais manual e brutal.
A reação da comunidade: entre o alívio e a apreensão
Navegando por fóruns e redes sociais, a reação é... dividida, para dizer o mínimo. De um lado, há um grupo considerável de jogadores comemorando. "Finalmente!", "Era uma vergonha ter aquela porcaria na mesma loja que um God of War", são comentários comuns. Para eles, a PlayStation Store é uma vitrine de prestígio, e a presença de shovelwares a desvaloriza, como uma loja de grife que de repente começa a vender bijuterias de plástico na entrada.
Do outro lado, os caçadores de troféus estão em polvorosa. Subreddits dedicados ao tema estão cheios de threads com títulos alarmistas como "O Fim das Platinas Fáceis?" e "Stockpile seus jogos da Ratalaika AGORA!". Para essa comunidade, a remoção da ThiGames não é uma limpeza, é o fechamento de uma farmácia. Eles temem um efeito cascata que encareça ou até elimine seu hobby específico. Afinal, se a Sony começar a exigir um mínimo de tempo de jogo ou complexidade para conceder uma platina, todo o seu "metagame" desmorona.
E no meio disso tudo, ficam os desenvolvedores independentes médios. Em conversas privadas, muitos expressam um sentimento ambíguo. Por um lado, torcem para que uma faxina dê mais destaque aos seus jogos, feitos com anos de dedicação. Por outro, temem que os critérios de remoção sejam tão vagos e arbitrários que um dia possam ser aplicados a eles por algum motivo obscuro. A falta de comunicação gera um clima de insegurança que é péssimo para a criatividade.
Será que estamos vendo o nascimento de uma nova era de "paredões digitais", onde plataformas periodicamente purgam seu catálogo para manter a saúde do ecossistema? A Apple já faz algo similar com apps abandonados na App Store. O Google tem políticas contra apps de baixa qualidade. O jogo, agora, é descobrir onde a Sony vai traçar sua linha na areia. O que define um shovelware? É puramente a qualidade gráfica? O tempo para platinar? A originalidade (ou falta dela) da proposta? A quantidade de bugs?
Enquanto a Sony não se pronunciar, o mercado vai operar no modo palpite. Outras editoras de volume certamente estão revisando seus portfólios e seus processos nesse momento. Talvez algumas decidam antecipar a maré e auto-remover seus títulos mais fracos. Talvez outras dobrem a aposta, achando que a ação foi um caso isolado. O que é inegável é que a remoção silenciosa de mais de mil jogos é um terremoto de magnitude considerável no submundo do desenvolvimento para consoles. E os tremores secundários ainda estão por vir.
Com informações do: Adrenaline








