O mercado de carros usados e seminovos no Brasil está passando por uma mudança de gostos notável. Enquanto os SUVs continuam dominando as vendas, são as picapes usadas e, surpreendentemente, as peruas novas que estão registrando os maiores saltos no interesse dos consumidores em 2025. Dados recentes revelam uma busca crescente por versatilidade e espaço, mesmo que isso signifique navegar por segmentos com oferta limitada. Vamos entender o que está por trás desses números e o que eles dizem sobre os desejos do motorista brasileiro atual.

O Boom das Picapes Usadas

Os números não deixam dúvidas: o interesse por picapes usadas disparou. Segundo o Webmotors Autoinsights, essa categoria registrou um aumento impressionante de 20,1% nas buscas e visitas em comparação com 2024. Esse é o maior crescimento percentual em todo o mercado de seminovos e usados.

Mas por que essa súbita paixão? Na minha opinião, isso reflete uma combinação de fatores. A oferta de picapes seminovas com tecnologias de ponta – como sistemas avançados de assistência ao motorista e conectividade – aumentou significativamente. Antes, esses recursos eram quase exclusividade de carros de luxo. Agora, é possível encontrar uma picape com alguns anos de uso que oferece muito mais conforto e tecnologia do que um hatchback novo de entrada. É um desejo aspiracional que se tornou mais acessível.

É curioso notar, no entanto, que apesar desse crescimento explosivo, as picapes ainda ocupam a quarta posição em participação de mercado (10%), ficando atrás dos onipresentes SUVs (30%), sedãs (26%) e hatches (22%). Isso mostra que, embora a tendência seja forte, os SUVs mantêm uma hegemonia absoluta em volume. Será que as picapes conseguirão desafiar essa liderança nos próximos anos?

A Surpreendente Procura por Peruas Novas

Aqui está um dado que realmente chama a atenção: no mercado de carros novos, o segmento que mais cresceu em buscas foi o das peruas, com um salto colossal de 34,5%. As minivans também mostraram fôlego, com alta de 31,9%. Isso é, no mínimo, intrigante.

Por quê? Bem, a realidade é que a oferta de peruas novas no Brasil é extremamente restrita. A única modelo efetivamente à venda é a poderosa (e cara) Audi RS6 Avant, com preço na casa dos R$ 1,25 milhão. Alguns lojistas também listam o elétrico Zeekr 001 como perua. Então, o que explica essa busca?

Audi RS6 Avant estacionada, um carro perua de alto desempenho

Parece ser um caso claro de desejo desconectado da oferta prática. Talvez os consumidores estejam buscando uma alternativa espaçosa e elegante aos SUVs, mas simplesmente não encontram opções no mercado. É uma lacuna que as montadoras parecem relutantes em preencher. Já no caso das minivans, a oferta é um pouco mais concreta, com modelos como a Chevrolet Spin, Kia Carnival e o novo GAC Aion Y, que podem estar puxando as buscas.

E os SUVs novos? Eles continuam soberanos, concentrando quase metade (48%) de todas as buscas por 0km. As picapes novas, por outro lado, tiveram uma leve retração de 1,4% na procura, mas ainda mantêm uma fatia respeitável de 15% do mercado. Uma estabilidade interessante, contrastando com a febre no mercado de usados.

O Declínio dos Hatches e a Transição de Mercado

Enquanto modelos maiores ganham espaço, os tradicionais hatches estão perdendo terreno – e os números são claros. Entre os usados, a procura por hatches caiu 1,9%. No mercado de carros novos, a situação é mais severa, com uma retração de 9,7% nas buscas.

Isso não é exatamente uma surpresa, mas confirma uma tendência de longa data. O hatchback, por décadas o carro de entrada preferido do brasileiro, está sendo gradualmente substituído por SUVs compactos (os chamados "SUVs B") que oferecem uma sensação de maior presença na rua, posição de dirigir mais alta e, muitas vezes, um visual mais "robusto", mesmo com preços similares.

O levantamento aponta para um momento de transição claro. De um lado, temos o SUV como o padrão de consumo consolidado, a escolha segura e majoritária. Do outro, surgem desejos mais específicos: a picape usada como símbolo de capacidade e tecnologia acessível, e a busca nostálgica ou prática pela praticidade das peruas, mesmo sem opções viáveis no mercado.

O que isso significa para o futuro? Talvez vejamos as montadoras reavaliando seu portfólio. A demanda reprimida por peruas é um sinal claro. E o sucesso das picapes usadas pode indicar que há espaço para versões mais acessíveis ou com foco urbano nesse segmento. O mercado brasileiro, sempre peculiar, está mais uma vez mostrando que seus desejos nem sempre seguem o roteiro global.

E essa "peculiaridade" brasileira merece um olhar mais atento. Você já parou para pensar por que, em um país com estradas muitas vezes desafiadoras e uma cultura que valoriza tanto a praticidade, as peruas – que são essencialmente carros familiares por excelência – praticamente desapareceram? Na minha experiência, conversando com amigos e familiares, percebo que há uma certa nostalgia pelo antigo Ford Corcel ou pela perua Chevrolet Opala. Eram carros que uniam espaço, conforto e um certo status, algo que o SUV tenta replicar, mas com uma proposta completamente diferente de dirigibilidade.

O Fator Custo-Benefício e a Mentalidade do Comprador de Usado

Voltando às picapes, o que realmente está impulsionando essa busca não é apenas o apelo do modelo em si. É uma equação financeira quase irrefutável. Pegue uma picape média, como uma Toyota Hilux ou uma Ford Ranger com 3 ou 4 anos de uso. Ela já sofreu a maior parte da desvalorização inicial – que é brutal nesse segmento – mas ainda carrega uma robustez construtiva e uma lista de equipamentos que um carro popular novo simplesmente não oferece. Tração 4x4, capacidade de carga, motorização robusta, e hoje em dia, até bancos de couro, telas multimídia gigantes e assistentes de permanência em faixa.

É frustrante, mas é a realidade: por um preço similar ou até menor do que um SUV médio 0km bem equipado, você leva para casa uma máquina consideravelmente mais capaz e com uma sensação de "produto premium". O brasileiro está ficando mais esperto na hora de comprar, calculando o valor real do que está adquirindo, não apenas o status de ter um carro novo na garagem.

E isso nos leva a um ponto crucial: a confiabilidade. As picapes, em sua maioria, são desenvolvidas para trabalhar duro. Sua fama de "indestrutíveis" – embora um exagero – cria uma percepção de durabilidade muito forte na mente do consumidor. Na prática, isso se traduz em uma sensação de segurança ao comprar uma unidade usada. "Se foi feita para aguentar o tranco, um uso normal na cidade vai ser fichinha", pensa o comprador. Será que essa lógica se sustenta? Em muitos casos, sim, especialmente com a manutenção em dia.

A Lacuna das Peruas: Oportunidade Perdida ou Desinteresse das Montadoras?

Agora, sobre o elefante na sala: a oferta de peruas. Aquele aumento de 34,5% nas buscas por peruas novas é um grito no vácuo. É o consumidor procurando algo que simplesmente não existe no mercado brasileiro, a não ser em patamares estratosféricos. Por que as montadoras insistem em ignorar esse segmento? A resposta padrão sempre gira em torno de custos de homologação, nicho de mercado pequeno e a supremacia dos SUVs.

Mas e se estivermos diante de um erro de cálculo? O que esses dados do Webmotors podem estar indicando é que existe uma fatia de consumidores cansada do formato SUV. Pessoas que priorizam o espaço interno eficiente (o porta-malas de uma perua é quase sempre mais útil e acessível que o de um SUV), a estabilidade e o prazer de dirigir de um carro mais baixo e com centro de gravidade mais próximo do chão, e um design que foge do padrão "carrão alto".

Imagine se uma montadora trouxesse uma perua familiar, com motor aspirado flex confiável, espaço interno generoso e um preço competitivo na faixa dos SUVs médios. Seria um fracasso? Talvez não. O sucesso do Renault Duster na época em que os SUVs ainda não dominavam tudo mostrou que o brasileiro adota produtos diferentes quando eles fazem sentido. A perua faz sentido para famílias, para quem viaja muito na estrada, para quem carrega bagagem volumosa com frequência. É um utilitário de verdade, disfarçado de carro de passeio.

Enquanto essa oferta não chega – e tudo indica que não chegará tão cedo –, o que resta para quem deseja uma perua? O mercado de usados, é claro. Modelos como o antigo Volkswagen Variant (o famoso "Variantão"), a perua Chevrolet Vectra e até algumas Peugeot 408 mais recentes se tornam artigos raros e cobiçados, mantendo um valor de revenda surpreendente para sua idade. É um mercado paralelo, movido por entusiastas e por quem realmente precisa daquele formato específico de carroceria.

O Futuro: Eletrificação e Novos Hábitos Podem Redesenhar a Demanda

E como fica essa tendência com a lenta, mas constante, chegada dos carros elétricos? A eletrificação pode ser a chave para reacender alguns desses segmentos adormecidos. Uma picape elétrica usada, daqui a alguns anos, pode ser uma proposta extremamente interessante: baixíssimo custo de manutenção, desempenho instantâneo e, em tese, uma mecânica mais simples e durável. Já para as peruas, o pacete elétrico é quase uma luva. O espaço plano no assoalho, ideal para acomodar baterias, combinado com a aerodinâmica geralmente mais eficiente de uma perua em relação a um SUV, poderia resultar em veículos familiares com autonomia excelente e um conforto silencioso ímpar.

Além disso, mudanças nos hábitos de trabalho, com mais pessoas aderindo ao modelo híbrido ou home office, podem estar alterando a relação com o carro. Se você não precisa enfrentar o trânsito todos os dias, talvez esteja mais disposto a ter um veículo menos convencional, como uma picape para viagens de fim de semana ou projetos pessoais, ou uma perua confortável para essas viagens menos frequentes, porém mais longas. O carro deixa de ser uma mera ferramenta de deslocamento diário e passa a ser um item mais ligado ao lazer e às necessidades específicas do estilo de vida – e isso beneficia justamente os segmentos que estão em alta nas buscas.

O que parece claro, analisando esses movimentos, é que o motorista brasileiro está em um momento de busca por identidade. O SUV foi adotado massivamente, virou o padrão, mas agora parte do público começa a procurar alternativas que expressem necessidades ou desejos mais particulares: a robustez e a versatilidade da picape, a elegância e praticidade da perua. O mercado de usados e seminovos, com sua variedade enorme e preços mais acessíveis, acaba sendo o termômetro mais sensível para captar esses desejos antes que eles se traduzam em vendas de 0km. As montadoras que souberem ler esses sinais – não apenas os números frios de venda, mas essas tendências de busca e interesse – podem encontrar nichos valiosos em um mercado cada vez mais saturado de opções similares.

Com informações do: Quatro Rodas