Em meio a uma crise global de fornecimento de memória, alimentada pela demanda insaciável de Inteligência Artificial, um rumor vindo de fabricantes de placas de vídeo (AIBs) traz um dado curioso: mesmo após um aumento recente, a NVIDIA ainda estaria cobrando menos por seus pacotes de memória GDDR6 e GDDR7 do que a AMD. Essa informação, se confirmada, pode ter um impacto direto no bolso do consumidor final e revela nuances na estratégia das duas gigantes do setor.

O rumor e o aumento de preço
A informação foi divulgada pelo canal taiwanês Benchlife, conhecido por seus contatos na indústria, mas ainda deve ser tratada como um rumor, já que não há um comunicado oficial das empresas. Segundo a publicação, a NVIDIA notificou formalmente suas parceiras AIB no dia 16 de janeiro sobre um aumento nos preços de todos os seus pacotes de memória. O que chama a atenção, no entanto, é a comparação: mesmo com esse reajuste, os valores praticados pela NVIDIA continuariam mais baixos do que os cobrados pela AMD para seus próprios kits de memória.
É um daqueles detalhes de bastidor que raramente vêm à tona, mas que são fundamentais para entender o ecossistema. As AIBs, como ASUS, Gigabyte, MSI e outras, não compram apenas o chip gráfico (a GPU). Elas adquirem um pacote completo que inclui a GPU e os módulos de memória necessários para montar a placa de vídeo final. O preço desse pacote é um dos fatores mais críticos para determinar a margem de lucro do fabricante e, consequentemente, o preço de venda ao consumidor.

O cenário por trás dos preços: a crise de memória
Para entender por que esse aumento era quase inevitável, é preciso olhar para o mercado global. Estamos no meio de uma tempestade perfeita para os preços de memória. A explosão da IA generativa e de treinamento de modelos consome quantidades colossais de memória de alta performance, a mesma tecnologia (GDDR e HBM) usada nas placas de vídeo gamers e profissionais. Fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron estão com sua capacidade de produção praticamente toda direcionada para atender essa demanda corporativa, que é muito mais lucrativa.
O resultado? Escassez e preços em alta para o segmento de consumo. E essa crise, segundo analistas, deve se estender por todo 2026 e possivelmente 2027. Ou seja, a pressão sobre os custos é real e persistente. A NVIDIA e a AMD, ao repassarem parte desse aumento para as AIBs, estão apenas refletindo a realidade do mercado de componentes. A questão é como cada uma está administrando essa pressão.
Por um lado, a NVIDIA, com seu domínio de mercado e escala colossal, pode ter conseguido contratos de fornecimento ou preços mais favoráveis com os fabricantes de memória. Por outro, a AMD, em uma posição de menor volume no segmento de GPUs discretas, pode ter menos poder de barganha. Mas isso é só especulação. Outra possibilidade é uma estratégia deliberada de preço para manter as AIBs satisfeitas e competitivas em um momento difícil.
Um alívio para as AIBs: os bundles continuam
Há um ponto positivo no meio de toda essa notícia de aumento. O rumor também deixa claro que tanto a NVIDIA quanto a AMD continuam fornecendo os pacotes completos (GPU + memória) para suas parceiras. Isso pode parecer óbvio, mas no ano passado circularam rumores preocupantes de que a NVIDIA poderia deixar de enviar as memórias, forçando as AIBs a procurarem seus próprios fornecedores no mercado aberto.
Essa mudança seria catastrófica, especialmente para as fabricantes menores. Imagine ter que disputar, sozinho, alguns poucos lotes de memória GDDR6X no mercado spot com gigantes como a Google ou a Microsoft, que estão comprando tudo o que podem para seus data centers de IA. Seria uma batalha perdida antes mesmo de começar. A manutenção dos bundles, portanto, traz uma certa estabilidade e proteção para o ecossistema de fabricantes de placas, garantindo que elas consigam pelo menos os componentes básicos para produzir.
E o que isso significa para nós, consumidores? Bom, é quase certo que esses aumentos de custo serão repassados. A pergunta não é se os preços das placas de vídeo vão subir, mas quando e quanto. A diferença de preço entre os kits da NVIDIA e da AMD pode se traduzir em uma ligeira vantagem competitiva para as placas baseadas em GeForce em termos de preço final, ou em uma margem um pouco melhor para as AIBs que trabalham com a verde. Em um mercado já tão caro, qualquer flutuação é sentida.
É interessante notar como a guerra entre NVIDIA e AMD vai muito além do desempenho bruto nos jogos. Envolve cadeia de suprimentos, relações com parceiros, poder de negociação e estratégia de preços em um nível muito mais profundo. Enquanto isso, os rumores sobre cancelamentos de linhas, como as supostas RTX 50 SUPER, ou mudanças de foco, como a priorização da Radeon RX 9070 XT, mostram que a escassez de memória está forçando as empresas a fazerem escolhas difíceis. O mercado de hardware para PC nunca parece ter um momento de tranquilidade, não é mesmo?
Mas vamos pensar um pouco além do preço por pacote. A diferença, mesmo que pequena, pode ter um efeito cascata interessante. Imagine uma AIB que produz tanto placas GeForce quanto Radeon. Se o custo do "kit base" da NVIDIA é consistentemente mais baixo, isso pode influenciar sutilmente onde ela coloca seus esforços de marketing, qual linha recebe os melhores coolers ou designs de PCB primeiro, ou até mesmo a quantidade de unidades produzidas de cada arquitetura. Não é uma decisão binária, claro, mas em um negócio de margens apertadas, cada centavo conta. E isso pode, no fim das contas, afetar a disponibilidade e a diversidade de modelos que chegam às prateleiras.
O outro lado da moeda: desempenho e eficiência
Aqui surge uma questão crucial: preço do pacote é uma coisa, mas e a eficiência? Digo, o que as AIBs e nós, consumidores, realmente recebemos por esse dinheiro? A AMD, em suas gerações mais recentes, tem investido pesado em arquiteturas de memória mais eficientes, como a Infinity Cache. A ideia é usar um pool de cache enorme e ultrarrápido na GPU para reduzir a dependência da memória GDDR, que é mais lenta e consome mais energia.
O que isso significa na prática? Bem, uma placa AMD pode, teoricamente, atingir um desempenho similar ao de uma concorrente NVIDIA usando memória com uma interface mais estreita (menos bits) ou uma velocidade de clock um pouco menor. Em tese, isso poderia permitir que a AMD usasse módulos de memória um pouco mais baratos ou disponíveis em maior quantidade para construir suas placas. Mas os rumores indicam que o preço do pacote completo dela é maior. Então, será que o custo adicional do complexo sistema de cache na GPU está anulando essa possível vantagem no custo da memória? É um quebra-cabeça de engenharia e economia fascinante.
Por outro lado, a NVIDIA segue com sua abordagem mais "direta": memória GDDR6X/GDDR7 extremamente rápida, com larguras de banda monstruosas, alimentada por uma arquitetura que sabe como usar toda essa velocidade. É uma solução que parece mais cara à primeira vista, mas que, de acordo com o rumor, pode não estar custando tanto assim para as AIBs. A eficiência, nesse caso, está em obter o máximo de desempenho bruto possível, mesmo que o consumo de energia seja um ponto de atenção. Dois caminhos radicalmente diferentes para tentar resolver o mesmo problema.
O consumidor no meio do fogo cruzado
E onde ficamos nós nessa história toda? À mercê das decisões. A verdade é que a transparência nesse nível da cadeia é quase zero. Nós vemos o preço final na etiqueta, mas não temos a menor ideia de quanto daquele valor é o chip, quanto é a memória, o cooler, a PCB ou a margem da loja. Rumores como esse dão um raro vislumbre da cozinha, mas ainda é um jogo de adivinhação.
O que me preocupa, honestamente, é a normalização dos preços altos. Se as AIBs absorverem parte desse aumento no custo da memória, suas margens vão encolher. Se repassarem tudo, nós pagamos mais. Em ambos os cenários, a pressão por cortar custos em outras áreas aumenta. Será que vamos ver mais placas com coolers menos robustos, backplates de plástico ou softwares de controle menos refinados nas entradas de gama? É uma possibilidade real. A busca por "valor" pode se tornar uma caça a migalhas em um mercado onde o piso de preço só sobe.
E não podemos esquecer do elefante na sala: a Intel. A fabricante, que ainda está tentando firmar sua presença no mercado de GPUs discretas com a linha Arc, deve estar observando essa confusão toda com um misto de preocupação e oportunidade. Por um lado, ela também sofre com os mesmos problemas de fornecimento de memória. Por outro, se conseguir estabelecer uma relação de custo-benefício mais atraente para as AIBs em meio a essa crise, poderia ganhar um espaço valioso. No entanto, seu volume é ainda menor que o da AMD, o que provavelmente a coloca em uma posição de negociação ainda mais frágil com os fornecedores de memória. Mais uma variável nessa equação já complicada.
No fim das contas, esse rumor sobre os preços dos pacotes de memória é como uma peça de um quebra-cabeça muito maior. Sozinha, ela não define o panorama, mas ajuda a explicar os movimentos ao redor. A escassez e os altos custos estão forçando todo mundo a se adaptar. As fabricantes de memória priorizam a IA. A NVIDIA e a AMD ajustam suas estratégias de fornecimento e preço. As AIBs lutam para manter a lucratividade. E nós... nós esperamos, comparamos preços, e torcemos para que a próxima geração traga alguma luz no fim do túnel, mesmo sabendo que a crise deve durar ainda alguns bons anos. A pergunta que fica é: quais outras mudanças, além do preço, essa pressão extrema na cadeia de suprimentos vai forçar no design e no lançamento das próximas placas de vídeo?
Com informações do: Adrenaline








