Lançado há mais de duas décadas, Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty continua a ser um dos jogos mais discutidos e analisados da história. Com sua narrativa complexa e reviravoltas que desconstroem as expectativas do jogador, o título de Hideo Kojima foi frequentemente lido como uma premonição sobre os perigos da inteligência artificial e das deepfakes. Mas, em uma recente entrevista, o próprio criador veio a público para corrigir essa interpretação. E o que ele revela é talvez ainda mais relevante para o nosso mundo hiperconectado de hoje.

Do DNA ao Digital: A verdadeira transição de Kojima
Em conversa com a Wired, Kojima traçou uma linha clara entre os temas de seus jogos. "Metal Gear Solid 1 era sobre DNA", ele explicou. "O que não sobra no DNA são memes". Aqui, ele se refere ao conceito cunhado pelo geneticista Richard Dawkins, de comportamentos e ideias que se replicam de pessoa para pessoa, como um vírus cultural. Foi a partir desse ponto, segundo Kojima, que seu pensamento migrou do analógico para o digital.
E essa mudança de foco é fundamental. Enquanto o primeiro jogo lidava com a herança biológica e o destino escrito nos genes, a sequência mergulhou no que acontece quando nossas ideias, nossas memórias e nossa própria identidade se tornam dados. Dados que, diferente da matéria orgânica, não se decompõem. É um salto conceitual enorme, e um que muitas pessoas, incluindo eu, talvez tenhamos perdido na época, fascinados demais com os twists da trama do Raiden.
Um mundo que não esquece: A profecia não intencional
"No mundo digital, tudo permanece", afirmou Kojima. Pense nisso por um segundo. Um tweet impulsivo, uma foto embaraçosa, uma opinião polarizada postada em um fórum – tudo isso fica. Não apodrece, não desbota, não é consumido pelo tempo como um livro ou uma fotografia física. "Mesmo grafites permanecem sem deteriorar", ele complementa, numa analogia poderosa. A internet, então, é a tinta indelével que conecta todos esses rabiscos eternos.
E é aí que mora o cerne da questão de Metal Gear Solid 2. Não era sobre máquinas ganhando consciência, mas sobre dados ganhando vida própria. Quando informações, descontextualizadas e replicadas infinitamente, começam a ditar narrativas, manipular percepções e criar realidades paralelas. Soa familiar? Kojima admite, com um tom quase de resignação: "Virou meio que uma realidade. Eu não previ isso, mas sim um futuro que eu não desejava, mas infelizmente estamos nos caminhando para ele".
É impressionante, e um pouco assustador, perceber como a "Sociedade dos Patriots" e seu controle da informação soam menos como ficção científica distópica e mais como um espelho distorcido das nossas bolhas de mídia social e guerras de narrativa. A manipulação mostrada no jogo, que muitos associaram a uma IA maligna, era, na visão do criador, um produto puramente humano e social da era digital.
O legado de uma visão mal interpretada
Apesar de Kojima negar ter "previsto" o futuro, a atualidade de MGS2 é inegável. Discussões sobre deepfakes, desinformação em massa e a liquidez da verdade no ambiente online mostram que o jogo estava cutucando feridas que só iriam se abrir completamente anos depois. Ele não antecipou a tecnologia específica, mas capturou perfeitamente o impacto psicológico e social que uma rede de dados permanente traria.
E talvez essa seja a maior lição aqui. Às vezes, nos fixamos tanto na metáfora (a IA) que perdemos o objeto real (a sociedade digital). Kojima, hoje longe da Konami e da franquia que o tornou famoso, continua explorando essas relações humanas fragmentadas em Death Stranding. Mas é intrigante voltar a um trabalho de 2001 e descobrir que sua mensagem principal estava, de certa forma, à frente até da nossa própria capacidade de entendê-la. Será que estamos finalmente alcançando a complexidade necessária para decifrar completamente o que Sons of Liberty tentava dizer? O jogo está aí, esperando, com seus dados eternos, para uma nova rodada de interpretação.
Fonte: PC Gamer
Raiden, o avatar da desinformação
E falando em Raiden, aquele protagonista que pegou todo mundo de surpresa, será que sua função na trama vai além de uma simples reviravolta narrativa? Kojima sempre foi mestre em usar a mecânica do jogo para reforçar seu tema. Em MGS1, você era o lendário Solid Snake, um veterano. Em MGS2, você começa como Snake, mas é subitamente forçado a jogar como Raiden, um novato que acredita piamente no que lhe é dito. A quebra da quarta parede, as chamadas do Coronel que começam a glitchar e a se contradizer... não era só um truque legal. Era você, jogador, sentindo na pele a desorientação de quem recebe informações conflitantes de fontes "confiáveis".
Na época, isso foi visto como uma crítica à mídia tradicional, aos governos que mentem. Hoje, a analogia se multiplica por mil. Você não acha? Somos todos um pouco Raiden, recebendo um fluxo incessante de dados de algoritmos, influenciadores, notificações e grupos de WhatsApp, tentando discernir o que é real em meio ao ruído. O "S3" do jogo, o plano para criar o soldado perfeito através da manipulação contextual, soa terrivelmente parecido com os sistemas de recomendação que moldam nossas visões de mundo, um clique de cada vez.
O que realmente significa "memes" no contexto de Kojima
Quando Kojima fala sobre "memes" no sentido dawkinsiano, é fácil reduzir a ideias virais simples, como danças do TikTok ou frases de efeito. Mas o que ele estava mirando era muito mais profundo e assustador. Pense em narrativas políticas, teorias da conspiração, vieses culturais profundamente arraigados, até mesmo a nossa noção de normalidade. Esses são os verdadeiros "memes" que o jogo explora – unidades de cultura que se replicam, mutam e, no ambiente digital, ganham uma imortalidade perigosa.
O Arsenal Gear, aquele gigantesco sistema de IA que muitos apontam como o "vilão", na verdade é apenas o recipiente, a infraestrutura. O verdadeiro antagonista é o conteúdo que ele curou e replica: a história filtrada, as memórias editadas, a "verdade" que os Patriots decidiram que a sociedade deveria consumir. Não é que a máquina seja má; é que ela está executando perfeitamente um programa escrito por humanos, um programa para controlar a realidade através do controle da informação. E isso, francamente, é muito mais plausível do que uma Skynet com consciência própria.
Em minha experiência revisitando o jogo recentemente, fiquei impressionado com diálogos que antes pareciam apenas filosóficos e agora soam como manchetes. A fala de GW sobre "filtrar o contexto" para criar a história perfeita é exatamente o que as bolhas de filtro fazem conosco diariamente, não é?
Da ficção para a fricção: o presente que Kojima não desejava
Kojima disse que não previu, mas sim imaginou um futuro indesejado. A distância entre esses dois verbos é crucial. Um profeta tenta acertar os detalhes; um artista alerta sobre direções. E a direção que ele apontou – um mundo onde dados ganham vontade própria – se materializou de formas que nem ele poderia imaginar.
Veja as deepfakes, por exemplo. Em MGS2, a manipulação da imagem do Presidente era um plot point chave, algo quase mágico. Hoje, qualquer um com um software acessível pode fazer algo similar. A questão deixou de ser "como eles fizeram isso?" para "em quem podemos confiar?". A crise de confiança epistemológica, essa sensação de que não há mais um chão factual sólido, é exatamente o terreno pantanoso que o jogo antecipava.
E tem mais. A ideia de "dados que não morrem" criou um fenômeno social novo: o cancelamento eterno. Um erro cometido (ou atribuído) a alguém há dez anos pode ser desenterrado e viralizar a qualquer momento, com o contexto original muitas vezes apagado pelo tempo. A "memória perfeita" da internet se tornou uma ferramenta de julgamento implacável, um tribunal sem prescrição. Isso é "dados ganhando vida própria"? Eu diria que sim. São informações, descoladas de seu momento e intenção originais, passando a ditar o presente de uma pessoa.
O que me faz pensar: se Metal Gear Solid 2 fosse lançado hoje, será que seríamos capazes de entendê-lo melhor, ou estaríamos tão imersos na sua profecia realizada que a crítica nos passaria despercebida? Às vezes, é preciso o distanciamento do espelho para enxergar o reflexo com clareza. E Kojima, com seu olhar de fora, conseguiu enxergar o formato do nosso rosto digital antes mesmo de nós o termos.
Fonte para contexto adicional: The Verge | Discussão sobre a entrevista: ResetEra
Com informações do: Adrenaline











