Em um movimento que mistura sustentabilidade, economia circular e uma nova visão sobre o pós-venda automotivo, a Stellantis divulgou os primeiros resultados do seu Centro de Desmontagem Veicular Circular AutoPeças, em Osasco (SP). Em apenas 100 dias de operação, a iniciativa já desmontou 370 veículos considerados perda total ou em fim de vida útil, colocando mais de 6.000 peças usadas – mas certificadas – de volta no mercado. E o mais interessante? Mais de 1.600 dessas peças já foram vendidas, mostrando que há um apetite real por componentes de origem garantida, mesmo no segmento de usados.

Centro de Desmontagem Veicular Circular AutoPeças

Um projeto global que desembarcou no Brasil

Você sabia que esta unidade em Osasco é apenas a segunda do tipo operada pela Stellantis no mundo? A primeira fica em Turim, na Itália. Isso coloca o Brasil em um lugar de destaque dentro da estratégia global de economia circular do grupo. O investimento inicial foi de R$ 13 milhões, com uma capacidade projetada para desmontar até 8.000 veículos por ano. Todos os carros processados são adquiridos em leilões, o que garante um fluxo constante de matéria-prima para o processo.

Na minha opinião, isso vai muito além de um simples desmanche. É uma redefinição completa do conceito de fim de vida útil para um automóvel. Em vez de um amontoado de ferro-velho, o carro se transforma em uma fonte valiosa de peças e materiais recicláveis. E o consumidor ganha acesso a componentes originais com procedência rastreável, muitas vezes a um custo mais acessível do que as peças novas.

Interior do centro de desmontagem veicular

Onde e como as peças estão sendo vendidas?

Aqui está um dado que pode surpreender: o mercado digital está liderando as vendas. Nos primeiros cem dias, 66% das transações foram realizadas através da loja oficial da Circular AutoPeças no Mercado Livre. Os 34% restantes vieram da loja física, instalada no próprio centro em Osasco. Essa preferência pelo online reflete uma mudança de comportamento do consumidor, que busca praticidade e transparência na hora de comprar peças usadas.

A Stellantis já soma mais de 6.000 seguidores no perfil do Mercado Livre e ultrapassou 21.000 no Instagram. São mais de 6.500 interações no Google. Esse engajamento todo sinaliza uma curiosidade genuína do público. E a empresa planeja ir além: o lançamento de um e-commerce próprio está nos planos, o que deve ampliar ainda mais o acesso.

Estoque de peças no centro de desmontagem

O coração da operação: da descontaminação à prateleira

Mas como funciona, na prática, transformar um carro acidentado em peças prontas para venda? O processo é bem mais sofisticado do que se imagina. É um fluxo industrial estruturado, que começa com a descontaminação do veículo. Tudo é retirado: óleo, combustível, líquido de arrefecimento. Só depois disso o carro vai para a linha de desmontagem.

Cada componente é avaliado individualmente por técnicos. Eles decidem se a peça pode ser reaproveitada diretamente, se precisa de remanufatura ou se seu destino é a reciclagem. As que são aprovadas para reuso passam por uma limpeza com produtos biodegradáveis e recebem uma etiqueta de rastreamento única, emitida pelo Detran. Essa etiqueta é a garantia de origem, contendo dados do veículo de onde a peça saiu e informações sobre sua conformidade.

Técnico avaliando peças na linha de desmontagem

E a rastreabilidade não para por aí. Cada veículo desmontado gera uma "carteira de desmonte", um documento digital que pode listar até 49 grupos de peças, com o histórico completo de quem trabalhou em cada etapa. A Stellantis ainda mantém um sistema interno de codificação e controle de qualidade, uma camada extra de segurança além das exigências legais.

Processo de limpeza e identificação de peças

O impacto ambiental vai além das peças

Quando falamos em sustentabilidade, os números são impressionantes. Em pouco mais de três meses, o centro reciclou 246 toneladas de aço e alumínio. Reaproveitou 16 toneladas de plástico e recuperou 1 tonelada de cobre. A empresa garante que 100% dos materiais dos carros desmontados têm um destino útil – fluidos, óleos, metais nobres, tudo é processado. Isso representa uma redução direta e significativa de resíduos automotivos que, de outra forma, poderiam poluir o meio ambiente.

É frustrante pensar na quantidade de recursos valiosos que eram perdidos nos desmanches tradicionais, muitas vezes por falta de tecnologia ou processos adequados. O projeto da Stellantis mostra que é possível fazer diferente. E o sucesso inicial nas vendas prova que o consumidor está disposto a abraçar essa mudança quando ela vem com transparência e qualidade.

Sistema de rastreabilidade e documentação das peças

O que começou como um experimento em Osasco parece estar encontrando seu ritmo. Com um estoque inicial de mais de 4.000 peças ainda disponível e um fluxo constante de veículos chegando, a pergunta que fica é: outras montadoras vão seguir o mesmo caminho? A economia circular deixou de ser um conceito de relatório de sustentabilidade para se tornar um negócio real, com demanda real. E no centro disso tudo está um consumidor mais consciente, que valoriza não apenas o preço, mas a origem e o impacto do que compra.

O que realmente diferencia uma peça "circular" de uma usada comum?

Essa é uma pergunta que muitos consumidores devem estar se fazendo. Afinal, o mercado de peças usadas já existe há décadas. O que muda, na prática, quando você compra uma peça com o selo da Circular AutoPeças? A resposta está em camadas de garantia que simplesmente não existem no desmanche tradicional.

Primeiro, há a questão da procedência. No modelo convencional, você raramente sabe de qual carro exato a peça veio, seu histórico de acidentes ou manutenção. Aqui, cada componente tem uma identidade digital. Imagine poder escanear um código e ver que o farol que você está comprando veio de um Jeep Renegade 2020, com 45.000 km, que sofreu uma colisão traseira – mas a dianteira, de onde o farol foi retirado, estava intacta. Essa transparência muda completamente o jogo da confiança.

Depois, vem o processo de triagem. Em um desmanche comum, a avaliação é muitas vezes visual e rápida. No centro da Stellantis, os técnicos seguem protocolos específicos para cada tipo de peça. Um motor, por exemplo, não é apenas inspecionado externamente. Ele pode passar por testes de compressão, verificação de vazamentos e análise dos componentes internos antes de ser liberado para venda ou enviado para remanufatura. É a diferença entre "parece bom" e "foi testado e aprovado".

O desafio de educar o mercado e vencer o preconceito

Vamos ser honestos: a palavra "desmanche" ainda carrega uma certa carga negativa para muita gente. Está associada a lugares improvisados, peças de qualidade duvidosa e, infelizmente, até a um mercado paralelo de peças roubadas. Um dos maiores trabalhos da Stellantis, acredito, não é só operar o centro, mas fazer um rebranding completo desse conceito na mente do consumidor.

E como se faz isso? Com dados, transparência e, claro, marketing. O forte engajamento nas redes sociais que mencionamos não é por acaso. É uma ferramenta poderosa para educar. Através de vídeos mostrando o processo industrial, depoimentos de técnicos explicando os testes e até tutoriais de como identificar uma peça original, a empresa está construindo uma nova narrativa. Não se trata mais de comprar algo "usado porque é barato", mas de escolher algo "certificado e sustentável".

Outro ponto crucial é a relação com as oficinas mecânicas e os seguros. Esses são players-chave no ecossistema. Se uma seguradora passar a recomendar o uso de peças circulares certificadas em reparos, o volume dispara. Se oficinas de confiança começarem a oferecer essa opção aos clientes, a aceitação se amplia. É uma cadeia que precisa ser conquistada elo por elo.

E o futuro? Expansão, mais marcas e a questão dos preços

Com os resultados positivos iniciais, é natural especular sobre os próximos passos. A unidade de Osasco hoje processa veículos das marcas Fiat, Jeep, Ram e Peugeot – todas do grupo Stellantis. Mas e os carros de outras montadoras que chegam aos leilões como perda total? No momento, eles não são aceitos. No entanto, é tentador pensar em um futuro onde o centro opere como uma prestadora de serviço para outras fabricantes, ampliando ainda mais seu impacto.

A expansão geográfica também está no radar. Uma segunda unidade no Brasil, possivelmente em outra região com grande frota de veículos, faria todo o sentido para reduzir custos logísticos e tempo de entrega. Afinal, uma das vantagens competitivas precisa ser a agilidade. Ninguém quer esperar semanas por uma peça, mesmo que ela seja sustentável.

E falando em vantagem competitiva, vamos ao ponto sensível: o preço. As peças da Circular AutoPeças são, em média, 30% a 50% mais baratas que as novas originais. Mas podem ser um pouco mais caras que as peças de um desmanche comum sem certificação. Aí entra a equação de valor para o consumidor. Vale a pena pagar um pouco mais pela rastreabilidade, pela garantia de que não é uma peça de origem duvidosa e pela certeza de que passou por controles de qualidade? Para um número crescente de pessoas, a resposta parece ser sim, especialmente para itens de alto valor como motores, câmbios e computadores de bordo.

Mas e para uma maçaneta ou um espelho retrovisor? Aí a conta pode ser diferente. A estratégia de preços da Stellantis terá que ser inteligente, talvez oferecendo margens menores em peças de alto giro para conquistar o cliente, e mantendo a vantagem nas peças mais complexas. É um equilíbrio delicado.

Além do carro: o que acontece com os materiais que não viram peças?

A narrativa é forte nas peças reaproveitadas, mas a verdadeira economia circular só se fecha quando 100% dos materiais têm um destino. E a Stellantis garante que é isso que acontece. Os plásticos dos para-choques, painéis e interior, por exemplo, não viram apenas lixo. Eles são triturados, limpos e transformados em grânulos que podem ser usados para fabricar novos componentes não-críticos, ou até itens completamente diferentes, como bancos de praça ou cones de sinalização.

Os pneus, que são um enorme problema ambiental, são destinados para empresas especializadas em reciclagem, que podem transformá-los em asfalto borracha ou solados de sapato. Os vidros são reciclados para a indústria vidreira. Até os tecidos dos bancos e carpetes podem ter uma segunda vida. É um processo de mineração urbana, onde o carro desmontado é a mina.

Essa parte "invisível" do processo é, talvez, a mais importante do ponto de vista ecológico. Reduz a pressão sobre a extração de novas matérias-primas, economiza energia gigantesca (produzir alumínio reciclado consome 95% menos energia do que produzi-lo da bauxita, por exemplo) e evita que toneladas de resíduos vão para aterros. É um ganho que não aparece no ticket de venda da peça, mas que tem um valor imenso para o planeta.

O modelo está provando seu valor. A demanda existe, o processo é viável e o impacto ambiental é mensurável. Mas o caminho à frente ainda tem obstáculos. A logística reversa de peças defeituosas, a escalabilidade do modelo para atender um país continental como o Brasil e a constante evolução dos materiais usados nos carros novos – com mais compostos e eletrônicos – são desafios reais. A Stellantis abriu uma porta importante, mas o sucesso de longo prazo vai depender de como ela e, potencialmente, seus concorrentes, vão navegar por essas questões complexas nos próximos anos.

Com informações do: Quatro Rodas