O ano de 2025 não foi apenas mais um capítulo para a indústria de games; foi um período que redefiniu expectativas e consolidou tendências que vinham se desenhando há anos. Segundo o relatório anual da consultoria Newzoo, o mercado global atingiu a impressionante marca de US$ 197 bilhões, um crescimento de 7,5% em relação a 2024. Mas os números por trás desse valor total contam uma história muito mais rica e complexa sobre para onde o dinheiro está indo, quem está jogando e, talvez o mais importante, o que os jogadores realmente valorizam. Vamos mergulhar nos dados?

Gráfico da Newzoo mostrando o crescimento do mercado de games

Um Retrato Financeiro em Três Plataformas

Quando você divide aquele montante colossal de US$ 197 bilhões, surge um panorama fascinante de como cada plataforma contribuiu para o sucesso. Os jogos para dispositivos móveis continuam sendo o gigante, respondendo por US$ 108 bilhões (uma alta de 7,7%). É um setor movido por títulos consagrados e modelos de negócio bem estabelecidos, mostrando uma maturidade impressionante.

Mas a verdadeira surpresa, pelo menos para mim, veio do desempenho do PC. A plataforma registrou US$ 43 bilhões em receita, com um crescimento robusto de 10,4% – o maior entre todas as plataformas. Enquanto isso, o mercado de consoles, avaliado em US$ 45 bilhões, cresceu a um ritmo mais moderado de 4,2%. O que esses números nos dizem? Bem, parece que a velha discussão sobre qual plataforma é "melhor" está sendo substituída por uma compreensão de que cada uma atende a um tipo diferente de engajamento e consumo.

O desempenho acima do esperado para PC e mobile foi decisivo para aproximar a indústria da marca de US$ 200 bilhões.

E falando em engajamento, aí está a chave. Michiel Buijsman, analista-chefe da Newzoo, fez um ponto crucial: o crescimento não veio necessariamente de um aumento massivo no número de jogadores, mas sim de um aprofundamento no envolvimento dentro dos ecossistemas existentes. As pessoas não estão apenas jogando mais; estão investindo mais tempo e, claro, mais dinheiro nos mundos que já amam.

PC vs. Console: Duas Filosofias de Sucesso

Aqui a coisa fica realmente interessante. Ao olhar para os jogos que mais geraram receita em cada plataforma, percebemos que PC e console seguem caminhos quase opostos.

No PC, a lista dos 10 mais rentáveis de 2025 é um verdadeiro caldeirão de inovação. Todos são lançamentos do próprio ano, e o que mais me chamou a atenção foi a presença de dois jogos independentes e três novas franquias que ninguém conhecia antes. Títulos como Schedule I e ARC Raiders dividem espaço com sequências aguardadas, como Monster Hunter Wilds e Borderlands 4. Isso sinaliza uma plataforma aberta, onde o público está disposto a arriscar em experiências novas e designs complexos. O PC se consolida, na minha opinião, como o laboratório de criatividade da indústria.

Ranking dos jogos de PC por receita em 2025Ranking dos jogos de PC por usuários ativos mensais (MAU) em 2025

Já o cenário dos consoles é... bem, mais previsível. A lista de maior faturamento também é composta apenas por lançamentos de 2025, mas a semelhança termina aí. Não há um único título indie ou nova franquia no top 10. Em vez disso, é um desfile das grandes séries estabelecidas: EA Sports FC 26, NBA 2K26, Madden NFL 26. Metade deles são lançamentos anuais, aqueles que você praticamente pode marcar no calendário. A Electronic Arts dominou, ocupando quase metade das posições. É um mercado que valoriza a confiança e a continuidade acima da experimentação.

Todos os jogos são de grandes séries estabelecidas, sendo metade deles lançamentos anuais recorrentes.

Um caso à parte e digno de nota foi Pokémon Legends: Z-A. Conseguir entrar nessa lista sendo um exclusivo de uma única plataforma (no caso, o Nintendo Switch 2, cujo lançamento influenciou os dados do ano) é um feito e tanto, mostrando o poder absoluto da franquia.

Ranking dos jogos de console por receita em 2025Ranking dos jogos de console por usuários ativos mensais (MAU) em 2025

Batalhas de Gigantes e o Impacto Indie

Nenhuma análise de 2025 estaria completa sem mencionar a virada na eterna rivalidade entre duas franquias de tiro em primeira pessoa. Os dados da Newzoo contam uma história clara: Battlefield 6 teve um desempenho consistentemente superior ao de Call of Duty: Black Ops 7. Enquanto o Battlefield apareceu em todas as listas importantes (receita e usuários ativos tanto no PC quanto no console), o Call of Duty só conseguiu figurar no top 10 de usuários ativos mensais (MAU) para consoles. Para uma série acostumada a dominar as paradas, foi, sem dúvida, um ano para reflexão.

E enquanto os gigantes travavam suas batalhas, o cenário independente provou, mais uma vez, que criatividade e inovação podem fazer um barulho ensurdecedor. O relatório destaca o papel fundamental de jogos como Clair Obscur: Expedition 33, que não só vendeu bem, como varreu o The Game Awards, levando para casa o prêmio máximo de Jogo do Ano. É um lembrete poderoso de que o coração da indústria ainda bate forte nos estúdios menores.

Olhando Para o Horizonte (Com Algumas Nuvens)

O futuro, no entanto, não é feito apenas de projeções otimistas. Os especialistas da Newzoo emitem alertas sérios para o próximo ciclo. Fatores externos, como tarifas comerciais imprevisíveis, pressões inflacionárias e uma recente escassez de componentes de memória, podem começar a exercer uma pressão significativa a partir de 2026, impactando custos e, potencialmente, o preço final para os jogadores.

Além disso, movimentos corporativos em 2025 sinalizam uma mudança estrutural. A decisão da EA de se tornar uma empresa privada e a abertura dos Vantage Studios da Ubisoft são exemplos de uma tendência que Emmanuel Rosier, diretor de inteligência de mercado da Newzoo, descreve como uma maior concentração de propriedade e um gerenciamento mais rigoroso de portfólios. Em outras palavras, as grandes publishers estão se consolidando e ficando mais focadas. O que isso significa para a diversidade de jogos no longo prazo? Ainda é cedo para dizer, mas é uma tendência que vale a pena observar de perto.

O relatório completo da Newzoo, que serviu de base para esta análise, pode ser encontrado através da fonte original em Wccftech.

Mas vamos além dos números frios por um momento. O que realmente significa "engajamento mais profundo"? Na prática, eu vejo isso se manifestar de maneiras que vão muito além de simplesmente comprar um passe de batalha ou um skin. Estamos falando de comunidades que se organizam em servidores de Discord para discutir lore, de jogadores que gastam centenas de horas criando mods complexos para seus jogos favoritos no PC, e de fãs que consomem horas de conteúdo no YouTube sobre um único título. Esse ecossistema paralelo – de criadores, streamers e teóricos – é o verdadeiro motor do crescimento. A receita do jogo em si é só a ponta do iceberg; o valor real está na economia de atenção que ele gera.

E isso nos leva a um ponto crucial sobre os jogos para celular. A maturidade do setor, mencionada no relatório, tem um lado menos glamoroso. A "inovação" muitas vezes se traduz em refinamentos agressivos de mecanismos de monetização, como sistemas de gacha cada vez mais complexos ou eventos limitados que criam uma sensação de urgência quase constante. É um mercado que domina a arte de converter engajamento em receita de forma extremamente eficiente. Mas, cá entre nós, você já não sente uma certa fadiga com essa abordagem? A saturação de modelos parecidos pode ser o próximo grande desafio para os desenvolvedores mobile.

A Ascensão do "Jogo como Plataforma" e os Novos Modelos

Um fenômeno que o relatório da Newzoo toca, mas que merece mais destaque, é a consolidação do conceito de "jogo como plataforma". Não estou falando apenas de jogos de serviço (live services), que já são velhos conhecidos. Estou falando de títulos que transcendem a ideia de um produto fechado e se tornam espaços digitais onde outras coisas acontecem.

Veja o caso de Fortnite, que nem sequer apareceu nos rankings de receita de 2025, mas continua sendo um colosso em termos de usuários ativos. Por quê? Porque ele deixou de ser apenas um battle royale. Virou um palco para shows, um cinema para trailers de filmes, um sandbox criativo onde os jogadores constroem suas próprias experiências. A Epic Games praticamente doou o jogo para ganhar na economia de criadores e no metaverso. É uma estratégia arriscadíssima que redefine completamente o que é sucesso financeiro no setor. A receita não vem mais apenas da venda do jogo ou de itens cosméticos; vem de parcerias com marcas, de cortes nas vendas do modo criativo, de ser a infraestrutura de entretenimento para uma geração.

O sucesso agora é medido não apenas pela receita direta, mas pelo domínio de um ecossistema e pela captura da atenção do usuário em longo prazo.

E isso pressiona os modelos tradicionais. O lançamento premium de US$ 70, padrão nos consoles, começa a parecer... limitado. Como competir com um jogo que é gratuito, está constantemente se atualizando e oferece um universo de possibilidades criadas pelos próprios usuários? A resposta, para muitas publishers, tem sido dobrar a aposta na qualidade de produção e na narrativa. God of War Ragnarök (um sucesso de 2022 que ainda vende) e os novos Final Fantasy são exemplos dessa contra-ofensiva: experiências cinematográficas fechadas, polidas até o brilho, que justificam o preço cheio como um ingresso para um evento único. São duas filosofias em rota de colisão.

Geopolítica dos Jogos: O Papel das Regiões em 2025

O relatório global inevitavelmente esconde nuances regionais fascinantes. A Ásia-Pacífico, liderada pela China e pelo Japão, continua sendo a maior região em receita, um fato amplamente conhecido. Mas a dinâmica interna está mudando. A regulamentação mais rígida na China para tempo de jogo e gastos de menores, por exemplo, forçou as gigantes locais como Tencent e NetEase a buscarem crescimento agressivo no exterior. Você já deve ter notado a enxurrada de anúncios para jogos mobile chineses no ocidente, muitos com orçamentos de marketing que rivalizam com blockbusters de console.

Já a América do Norte e a Europa mostram um apetite crescente por modelos híbridos. A assinatura do Xbox Game Pass e a PlayStation Plus evoluíram de catálogos de jogos para verdadeiras redes de distribuição, onde um lançamento day-one no serviço pode ser mais lucrativo do que vendas tradicionais, dependendo do acordo. Isso cria uma tensão interessante: de um lado, a pressão por conteúdos exclusivos e de alta qualidade para atrair assinantes; do outro, o risco de saturar o serviço com títulos medianos que não justificam a mensalidade. A Microsoft, em particular, parece estar apostando tudo nesse modelo, adquirindo estúdios para alimentar sua máquina de conteúdo.

E não podemos esquecer dos mercados emergentes, como América Latina e Sudeste Asiático. Lá, o crescimento é impulsionado quase que exclusivamente pelos celulares e pelo PC, com os consoles sendo um luxo para poucos devido aos preços elevados. Isso cria um cenário de consumo totalmente diferente, onde modelos free-to-play bem otimizados para hardware modesto reinam absolutos. São jogadores que talvez nunca comprem um jogo por US$ 70, mas que, coletivamente, movimentam bilhões em microtransações. Ignorar essa realidade é um erro estratégico colossal para qualquer publisher com ambições globais.

A Inteligência Artificial: Ferramenta Criativa ou Desestabilizadora?

Por fim, há um elefante na sala que o relatório de 2025 ainda não consegue medir completamente, mas cujos efeitos já começam a ser sentidos nos bastidores: a inteligência artificial generativa. Em 2025, a IA deixou de ser um conceito futurista e se tornou uma ferramenta prática em estúdios de todos os tamanhos.

Para os indies, é uma democratização sem precedentes. Ferramentas que geram texturas, conceitos de arte, diálogos auxiliares ou até trechos de código estão permitindo que equipes minúsculas compitam em escala e polimento com estúdios muito maiores. O jogo indie vencedor do GOTY de 2026 pode muito bem ser feito por uma equipe de cinco pessoas usando IA de forma criativa, não como uma muleta, mas como um amplificador de talento. É emocionante pensar nas possibilidades.

Mas, e sempre há um "mas", isso também traz uma enorme desestabilização para as carreiras tradicionais. Artistas conceituais, redatores de lore junior, testadores de QA... muitas funções de entrada no mercado estão sendo repensadas ou automatizadas. As grandes publishers veem na IA uma forma de reduzir custos astronômicos de desenvolvimento, especialmente para jogos de mundo aberto que exigem uma quantidade absurda de conteúdo. O dilema é: até que ponto a automação esvazia a alma de um jogo? Um mundo gerado por algoritmo pode ter a mesma coerência e cuidado narrativo que um mundo meticulosamente planejado por uma equipe de designers? Ainda não sabemos a resposta, mas 2026 e 2027 serão os anos em que essa tensão entre eficiência e autenticidade vai definir a próxima geração de jogos.

O relatório da Newzoo nos dá um retrato nítido de onde o dinheiro está hoje. Mas as verdadeiras histórias – as que vão moldar os próximos US$ 200 bilhões – estão sendo escritas nas escolhas arriscadas dos estúdios independentes, nas batalhas por assinaturas das plataformas, nas regulamentações de governos distantes e nos algoritmos treinados em servidores. O mercado pode ter batido a meta, mas o jogo, esse, está longe de terminar.

Com informações do: Adrenaline