O ano de 2025 trouxe um sopro de otimismo para o setor automotivo nacional. Dados divulgados pela Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) mostram um crescimento de 2,58% nas vendas de automóveis e comerciais leves, passando de 2.485.319 unidades em 2024 para 2.549.462 unidades no ano passado. Mas, se você olhar mais de perto, os números revelam uma transformação muito mais profunda do que um simples crescimento modesto. A verdadeira revolução está acontecendo sob o capô – ou melhor, na ausência dele.
O boom dos eletrificados: muito mais do que uma tendência
Enquanto o mercado geral cresceu de forma tímida, um segmento explodiu com força impressionante. A comercialização de veículos eletrificados – que inclui modelos 100% elétricos e híbridos – registrou um salto de 60,8% em 2025. Foram 285.097 unidades emplacadas, um aumento substancial frente às 177.308 do ano anterior. É um ritmo de crescimento que deixa qualquer outro segmento no chinelo.
Dentro desse universo, os híbridos lideram com folga, apresentando um crescimento de 77,19% e alcançando 205.325 unidades. Já os elétricos puros, embora em menor volume, também mantiveram uma trajetória sólida, com alta de 29,58% e 79.772 unidades vendidas. O que isso significa? Na minha opinião, é um sinal claro de que o consumidor brasileiro está, sim, disposto a adotar novas tecnologias, mas com um pé atrás quando se trata de depender exclusivamente da rede de recarga – ainda incipiente em muitas regiões do país. Os híbridos oferecem uma ponte psicológica e prática perfeita.

O que esperar do futuro próximo?
Olhando para frente, a Fenabrave projeta um crescimento de 3% para o mercado nacional em 2026, o que representaria cerca de 2.625.912 unidades de automóveis e comerciais leves. Mas essa projeção, como o próprio Sérgio Dante Zonta, 1º vice-presidente da entidade, destacou, depende de alguns fatores externos. E aqui é onde a coisa fica interessante.
Dois pontos foram citados como potencialmente capazes de "melhorar esse índice de crescimento". O primeiro é a efetivação do Marco Legal das Garantias, que, em tese, poderia liberar mais crédito e reduzir as taxas de juros para o financiamento de veículos. O segundo – e talvez mais impactante no curto prazo – é a continuidade e expansão do programa Carro Sustentável.
Zonta foi enfático: "[O programa] teve um ponto positivo no crescimento dos carros populares e que se ele for efetivado tanto para carros como para comerciais leves em um volume superior aos populares, nós teremos, na redução do IPI, mais vendas". Em outras palavras, políticas públicas direcionadas continuam sendo um motor poderoso para girar a roda do setor.
Um mercado em transição, mas ainda cheio de desafios
Os números pintam um cenário de dualidade. De um lado, temos a força inegável e disruptiva dos eletrificados, que estão redefinindo as preferências e forçando a indústria a se adaptar em velocidade recorde. Por outro, o crescimento geral do mercado ainda é moderado, sugerindo que fatores macroeconômicos – como juros, inflação e poder de compra – seguram um potencial maior.
E você, já considerou um carro eletrificado na sua próxima compra? A experiência de dirigir um híbrido, por exemplo, com seu silêncio quase assustador em baixas velocidades, é algo que muda completamente a percepção sobre o que é um automóvel. A infraestrutura de recarga, especialmente para os elétricos puros, ainda é um ponto de dor que precisa ser resolvido com urgência para que o crescimento seja sustentável e se espalhe para além dos grandes centros urbanos.
O que me surpreende é a velocidade com que a conversa mudou. Há poucos anos, falar de carro elétrico no Brasil era quase ficção científica. Hoje, é uma realidade em expansão, impulsionada por uma combinação de consciência ambiental, incentivos fiscais e, vamos admitir, uma certa curiosidade tecnológica do consumidor. Resta saber se a indústria e o governo conseguirão manter o ritmo dessa corrida pela eletrificação, garantindo que ela seja acessível e prática para todos.
Falando em acessibilidade, esse é um ponto crucial que muitas análises superficiais acabam ignorando. O preço médio de um veículo híbrido ou elétrico ainda é significativamente superior ao de um modelo a combustão equivalente. Programas como o Carro Sustentável ajudam, mas será que são suficientes para democratizar de verdade o acesso? Ou estamos criando, pelo menos por enquanto, um mercado de nicho para uma parcela da população com maior poder aquisitivo?
Aliás, você já parou para pensar na cadeia produtiva por trás desses números? O crescimento dos eletrificados não é só sobre vender carros. Ele pressiona toda uma rede: desde a instalação de eletropostos em condomínios e postos de gasolina – que agora precisam se reinventar como 'centros de mobilidade' – até a capacitação de mecânicos para lidar com alta voltagem e sistemas computadorizados complexos. É uma mudança de paradigma que exige investimento em várias frentes simultaneamente.

O papel das montadoras: mais do que apenas lançar modelos
As fabricantes, claro, estão no centro dessa revolução. Mas a estratégia vai muito além de simplesmente colocar um novo modelo no catálogo. Na minha experiência acompanhando lançamentos, percebo uma corrida por quem oferece a melhor promessa de 'paz de espírito' ao consumidor. Planos de manutenção pré-pagos, garantias estendidas para as baterias – que são o coração e a maior preocupação do comprador – e até parcerias para oferecer wallboxes (carregadores domésticos) com a compra do carro estão se tornando o novo normal.
E não podemos esquecer do mercado de seminovos. Esse será o próximo grande capítulo. À medida que a primeira leva de carros eletrificados começar a sair das garantias de fábrica e a ser revendida, teremos um teste real de como a tecnologia envelhece e qual é a sua valorização de revenda. É um fator que pesa muito na decisão do brasileiro, conhecido por ser um comprador pragmático que sempre pensa no 'próximo dono'. Se a bateria de um carro elétrico de 5 anos tiver uma degradação severa, o prejuízo pode ser grande, e isso pode frear a adoção em massa.
E os combustíveis alternativos? O etanol some do mapa?
Aqui surge uma discussão fascinante, e um pouco negligenciada. Com todo o foco na eletrificação, parece que a discussão sobre os biocombustíveis, especialmente o etanol brasileiro, ficou em segundo plano. Mas será uma substituição ou uma coexistência? Alguns especialistas defendem que os carros híbridos flex – que rodam com etanol e também têm uma bateria – podem ser a solução mais brasileira possível, combinando a independência energética e a infraestrutura já existente com os benefícios de eficiência da eletrificação.
No entanto, o investimento das montadoras nessa tecnologia tem sido tímido. Por quê? Talvez porque desenvolver uma plataforma específica para um mercado (o Brasil) seja menos interessante economicamente do que adaptar plataformas globais elétricas ou híbridas a gasolina. É um jogo complexo de interesses globais versus necessidades locais. O consumidor final, no fim das contas, quer o que for mais barato para encher o tanque – ou carregar a bateria – e que lhe dê menos dor de cabeça.
Outro aspecto que raramente é mencionado é o impacto na matriz energética do país. Se, de repente, milhões de carros elétricos começarem a ser plugados nas tomadas à noite, nossa rede elétrica aguenta? A transição para a mobilidade elétrica precisa andar de mãos dadas com investimentos em geração de energia renovável. Do contrário, estaremos apenas trocando a poluição do escapamento pela poluição da termelétrica a carvão que gera a eletricidade. É um paradoxo ecológico que precisa ser evitado a todo custo.
Olhando para o horizonte, além de 2026, as perguntas se multiplicam. A chegada de fabricantes chinesas com preços agressivos vai aquecer a competição e forçar uma queda nos preços dos eletrificados? A tecnologia de baterias de estado sólido, que promete mais autonomia e recarga mais rápida, chegará ao mercado brasileiro em condições acessíveis? E o hidrogênio, que alguns veem como o futuro dos caminhões e ônibus, terá algum papel nos veículos leves?
O que está claro é que o modesto crescimento de 2,6% do mercado esconde uma agitação tremenda. Estamos no meio de uma redefinição do que significa possuir e dirigir um carro. As regras do jogo estão sendo escritas agora, e cada número divulgado pela Fenabrave é como um capítulo novo dessa história. A sensação é de que estamos apenas no começo de uma curva muito longa e cheia de reviravoltas.
Com informações do: Quatro Rodas








