O mercado brasileiro de SUVs está prestes a receber um concorrente que desafia algumas convenções. A Jetour, marca chinesa do grupo Chery, acaba de lançar o T1, um SUV híbrido plug-in com um visual robusto e linhas quadradas que gritam "aventura", mas que, curiosamente, vem apenas com tração dianteira. Com preços a partir de R$ 249.900, ele se posiciona como uma proposta alternativa para quem busca o estilo off-road sem o custo e complexidade de um sistema de tração integral. Mas será que o visual é suficiente?

Um Híbrido Potente com DNA Urbano e Ares de Aventura
Por baixo do capô, o T1 compartilha a mesma mecânica híbrida plug-in de seu irmão, o SUV S06. O coração do sistema é um motor 1.5 turbo a gasolina que entrega 135 cv, trabalhando em conjunto com um motor elétrico de 204 cv. A potência combinada é nada modestos 315 cv, transmitidos por um câmbio automático DHT de uma marcha.
Onde o T1 leva uma clara vantagem é na bateria. Com 26.4 kWh de capacidade (contra 19.4 kWh do S06), ele promete uma autonomia elétrica de 88 km, segundo o fabricante. E aqui está um ponto interessante: ele suporta recarga rápida DC de até 40 kW, o que significa que, em teoria, você pode recuperar de 30% a 80% da carga em cerca de 30 minutos. Para o dia a dia urbano, isso é um diferencial e tanto.
No entanto, as leis da física são implacáveis. O visual quadrado e a carroceria maior (4,70 m de comprimento) têm seu preço. O T1 é um segundo mais lento de 0 a 100 km/h que o S06, completando a prova em 8,7 segundos. A autonomia total combinada (gasolina + eletricidade) é a mesma do irmão: 1.200 km, mesmo com um tanque de combustível maior, de 70 litros.

Credenciais Off-Road: Até Onde Ele Pode Ir Sem 4x4?
Esta é a grande questão, não é? A Jetour tenta compensar a ausência da tração nas quatro rodas com uma série de números e modos de condução. A suspensão é independente nas quatro rodas (McPherson na frente e Multilink atrás), supostamente calibrada para lidar com o peso extra das baterias.
As especificações de "capacidade off-road" são divulgadas com certa pompa:
Ângulo de entrada: 28 graus
Ângulo de saída: 28 graus
Vão livre do solo: 20 cm
Capacidade de imersão: 70 cm
Além dos modos de condução normais (Eco, Normal, Esporte), há um chamado "X-Mode" e outros modos específicos para terrenos difíceis. Na prática, esses sistemas basicamente atuam no controle de tração e na gestão da potência do motor elétrico para tentar evitar que a roda dianteira patine. É uma solução inteligente para trilhas leves e estradas de terra esburacadas, mas está longe de substituir um bom sistema 4x4 mecânico ou uma tração integral real para situações mais extremas. Em minha opinião, é um SUV para quem quer o *estilo* de vida aventura, mais do que para praticá-la de forma intensa.

Conforto, Tecnologia e as Duas Versões Disponíveis
Por dentro, o T1 aposta no espaço. O entre-eixos de 2,80 m garante boa habitabilidade para os ocupantes traseiros. O porta-malas oferece 574 litros, que podem se expandir para 1.455 litros com os bancos rebatidos. O design do interior tenta seguir a temática "aventureira", com elementos verticais e botões físicos redundantes no console central – um acerto, na minha visão, pois facilita o uso com luvas ou em movimento.
A estrela do interior é a tela central de 15,6 polegadas, com Android Auto e Apple CarPlay sem fio. O quadro de instrumentos é totalmente digital, de 10,25 polegadas. E um ponto alto é o pacote de assistência à condução (ADAS), que vem de série mesmo na versão de entrada e inclui itens como frenagem autônoma de emergência e controle de cruzeiro adaptativo.
O T1 chega em duas versões bem equipadas:
Jetour T1 Advance (R$ 249.900): A versão de entrada já vem repleta de itens. Destaque para os bancos dianteiros com ajuste elétrico e ventilação, ar-condicionado digital de duas zonas, sistema de câmeras 360º e todo o pacote ADAS mencionado.

Jetour T1 Premium (R$ 264.900): Por R$ 15.000 a mais, adiciona itens de conforto e luxo como teto solar panorâmico, sistema de som Sony com 9 alto-falantes, porta-malas elétrico, carregador por indução de 50W e bancos com memória.
O que me surpreende, analisando a ficha, é o nível de equipamento oferecido pelo preço. A concorrência direta, considerando o tamanho e a potência híbrida, costuma ser significativamente mais cara. O T1 parece apostar em uma combinação de tecnologia, estilo marcante e um preço agressivo para conquistar seu espaço.
Mas será que essa aposta vai funcionar? O mercado brasileiro tem uma relação de amor e desconfiança com os SUVs de tração dianteira que tentam se passar por aventureiros. Por um lado, a maioria dos compradores nunca vai realmente usar um sistema 4x4 – é um fato. A praticidade do dia a dia, o conforto e o consumo eficiente pesam muito mais. Por outro, pagar por um visual robusto sem a capacidade correspondente pode deixar um gosto amargo para quem, eventualmente, se aventurar em uma estrada de terra após uma chuva.
E falando em consumo, essa é uma das grandes promessas do T1. Com sua grande bateria, a ideia é que você faça a maior parte dos seus deslocamentos urbanos no modo puramente elétrico, usando o motor a gasolina apenas para viagens mais longas. Na prática, se você tem onde recarregar em casa ou no trabalho, o custo por quilômetro pode cair drasticamente. É uma matemática sedutora, especialmente com os preços da gasolina. No entanto, o peso extra da bateria (que contribui para os mais de 2 toneladas do veículo) sempre cobra seu pedágio no desgaste de pneus e componentes da suspensão a longo prazo.

O Desafio da Concorrência e a Percepção da Marca
Agora, vamos colocar o T1 na vitrine ao lado dos outros modelos. Por volta de R$ 250 mil, você encontra uma gama interessante de opções. Há os SUVs médios tradicionais, como o Toyota Corolla Cross híbrido, que é uma máquina de eficiência e confiabilidade, mas com um visual infinitamente mais discreto. Há também os chineses que já se estabeleceram, como os modelos da Caoa Chery, que oferecem muito equipamento pelo preço.
O grande diferencial do T1, portanto, não está apenas na ficha técnica. Está na personalidade. Ele é um carro que chama a atenção, que faz uma declaração de estilo. Enquanto muitos concorrentes buscam um design seguro e consensual, o T1 abraça suas linhas quadradas e sua postura imponente. Isso atrai um tipo específico de comprador – aquele que prioriza a presença e o conceito de "lifestyle" associado ao veículo.
Mas e a Jetour? A marca ainda é uma recém-chegada ao Brasil, e construir confiança leva tempo. Oferecer uma garantia robusta (ainda não divulgada nos detalhes para o T1) e uma rede de concessionárias e serviço técnico ágil será crucial. De que adianta um carro cheio de tecnologia se, na primeira falha de um componente eletrônico, o proprietário ficar semanas esperando uma peça? A experiência pós-venda será o verdadeiro teste para esse e outros modelos chineses que estão chegando com preços agressivos.

Para Quem o T1 Faz Sentido, Afinal?
Depois de analisar todos esses aspectos, a imagem do comprador ideal começa a ficar mais clara. O T1 não é para o off-roader de fim de semana que enfrenta trilhas técnicas. Também não é, necessariamente, para a família que busca apenas o SUV mais espaçoso e confortável pelo menor preço – há opções mais focadas nisso.
Na minha visão, o T1 é uma proposta para quem:
Valoriza um design único e marcante, que fuja do padrão;
Faz principalmente trajetos urbanos e periurbanos, com acesso a recarga;
Deseja a eficiência e o desempenho suave de um híbrido plug-in, mas acha os modelos convencionais muito "comuns";
Eventualmente pega estradas de terra ou de chão em condições razoáveis, mas não busca o extremo;
E, claro, quer um nível de equipamento muito alto sem precisar escalar para faixas de preço premium.
É um nicho, sem dúvida. Mas um nicho que parece estar crescendo. A vontade de se expressar através do carro que se dirige, combinada com a racionalidade econômica da eletrificação, cria um espaço interessante no mercado. O T1 tenta ocupar esse espaço com uma personalidade forte.
Resta saber como ele se comportará na vida real. A robustez dos materiais internos ao longo dos anos, o desgaste da suspensão com tanto peso, a confiabilidade do complexo sistema híbrido em nosso clima e condições de tráfego – essas são perguntas que só o tempo e os primeiros proprietários poderão responder. A Jetour está convidando o consumidor brasileiro a fazer uma aposta diferente. Agora, é ver se o público vai aceitar o convite.
Com informações do: Quatro Rodas








