Se você está planejando montar ou atualizar um PC e deu uma olhada nos preços de memória RAM recentemente, provavelmente levou um susto. Os valores subiram de forma assustadora nos últimos meses, e a fabricante G.Skill decidiu finalmente se pronunciar oficialmente sobre o assunto. Em uma declaração curta e direta, a empresa aponta um único culpado principal: a explosão da demanda por Inteligência Artificial. Mas será que essa explicação é suficiente para quem precisa comprar um módulo de RAM hoje?

Módulos de memória RAM G.Skill

A declaração da G.Skill, publicada em seu fórum comunitário, não deixa muita margem para dúvidas. "Os preços de DRAM estão enfrentando volatilidade significativa em toda a indústria, devido às restrições e escassez globais de suprimento, causadas por uma alta demanda sem precedentes vindo da indústria de IA", afirma a empresa em tradução livre. O texto é quase um aviso padrão, alertando que os custos de aquisição de componentes subiram e que, por isso, os preços ao consumidor também refletem esse aumento. Eles ainda deixam claro que novos ajustes para cima podem acontecer a qualquer momento, sem aviso prévio.

O que a explicação da G.Skill deixa de fora

É aqui que a coisa fica interessante. A declaração soa como algo voltado para quem não acompanha o noticiário de tecnologia. Para o consumidor médio que só quer saber por que o kit de 32GB que ele queria agora custa o dobro, talvez baste. Mas para entusiastas e compradores informados, a explicação parece incompleta, quase evasiva.

O que realmente seria útil saber? Bom, por exemplo, quais são os planos concretos da G.Skill para lidar com essa escassez. Eles estão buscando novos fornecedores? Investindo em capacidade de produção própria? Como está a situação dos seus estoques atuais? A falta de qualquer perspectiva de normalização é particularmente frustrante. A empresa simplesmente joga a responsabilidade para o "mercado" e segue em frente.

Notebook com tela aberta, simbolizando a possível redução na memória padrão dos dispositivos

E talvez haja um motivo para esse silêncio. Outras fontes do setor, como a concorrente Micron, já pintaram um cenário bem sombrio. Relatórios de análise de mercado sugerem que essa escassez e os preços altos podem ser uma realidade duradoura. Um artigo aqui mesmo no Adrenaline menciona a possibilidade de os preços elevados se estenderem até 2028. Dar uma previsão otimista agora poderia ser um tiro pela culatra se a situação piorar.

O efeito dominó no mercado de tecnologia

O impacto dessa crise vai muito além do bolso de quem monta um PC gamer. Estamos falando de um componente fundamental para praticamente tudo que é eletrônico. Smartphones, notebooks, consoles de videogame, placas de vídeo... tudo consome memória DRAM.

Já existem indícios concretos desse efeito cascata. Há rumores, como este sobre possíveis cortes no suprimento das futuras GPUs da NVIDIA, ligando a escassez de memória à produção de placas de vídeo. Outro sinal alarmante é a normalização de notebooks com apenas 8GB de RAM, como discutido em uma análise recente. Em um momento em que os softwares demandam cada vez mais recursos, voltar a 8GB como padrão é um retrocesso significativo impulsionado pelo custo.

A própria Micron, uma das gigantes no setor, já admitiu publicamente que está com dificuldades para atender à demanda, como noticiado nesta matéria. Quando um dos principais fabricantes do mundo diz isso, é porque a situação é realmente séria.

E no meio disso tudo, é irônico pensar que, enquanto a G.Skill culpa a IA pelos preços, ela mesma continua inovando no segmento de alto desempenho, como demonstrou ao alcançar overclocks impressionantes de 10.000 MT/s em seus módulos CAMM2 DDR5, uma tecnologia que você pode conhecer melhor aqui. Parece um mundo de contrastes: de um lado, a falta de produto básico; de outro, a busca pelos limites extremos da tecnologia.

Mas vamos pensar um pouco além da superfície. A explicação da G.Skill, embora tecnicamente correta, simplifica demais uma cadeia de produção absurdamente complexa. A "demanda por IA" não é um monstro único e homogêneo. Ela se desdobra em várias frentes que consomem memória de formas diferentes e, muitas vezes, conflitantes.

De um lado, temos os data centers hyperscale, aqueles gigantes operados por Google, Microsoft, Amazon e Meta. Eles estão em uma corrida frenética para construir e atualizar servidores capazes de treinar e rodar os modelos de IA generativa mais recentes. Esses sistemas não usam memória DDR comum como a do seu PC – eles consomem quantidades colossais de HBM (High Bandwidth Memory), um tipo de DRAM muito mais caro e complexo de fabricar, que é empilhado diretamente sobre o processador. Acontece que as linhas de produção de HBM e DDR compartilham etapas críticas. Quando as fundições direcionam toda sua capacidade e os materiais mais avançados para atender a encomendas bilionárias de HBM, sobra menos para a DDR que vai para o varejo. É um gargalo criado no próprio coração da fabricação.

E não para por aí. Você já parou para considerar o ciclo de vida de uma fábrica de semicondutores? A transição para os nós de fabricação mais novos – como os 1-beta da Micron ou processos equivalentes da Samsung e SK Hynix – é lenta, cara e cheia de obstáculos. Aumentar a produção não é como girar um botão. Leva meses, exige calibragem precisa de maquinário que custa centenas de milhões de dólares e enfrenta um limite físico na disponibilidade de insumos críticos, como os wafers de silício de alta pureza. Enquanto essa capacidade nova não amadurece, a demanda já explodiu. O resultado? A famosa lei da oferta e demanda faz seu trabalho implacável.

O consumidor final no meio do fogo cruzado

Para quem está do lado de cá do balcão, a frustração é palpável. Você abre um site de comparação de preços e vê a história recente de um kit de memória popular. Em outubro, R$ 800. Em janeiro, R$ 1.100. Em março, R$ 1.450. É um aumento que dói no orçamento e, pior, inviabiliza projetos. Quantos builds de entrada ou intermediários foram adiados ou cancelados porque o orçamento para a RAM consumiu o que era destinado à placa de vídeo ou ao processador?

E aí surge a pergunta que muitos se fazem, mas poucos verbalizam: será que as fabricantes não estão, de certa forma, se aproveitando da situação? É claro que os custos subiram. Ninguém duvida disso. Mas a magnitude dos aumentos ao consumidor final sempre parece superar a justificativa técnica. É um misto de escassez real, especulação no canal de distribuição (os atacadistas e revendedores que estocam produto antecipando novas altas) e, talvez, uma oportunidade para recuperar margens que podem ter sido comprimidas em períodos de preços baixos. Difícil separar onde termina um e começa o outro.

Algumas comunidades de entusiastas online têm sugerido táticas de sobrevivência. Comprar memória de marcas "white label" ou menos conhecidas que ainda podem ter estoques antigos a preços melhores. Ficar de olho em promoções relâmpago. Ou, radicalmente, considerar a compra de memória usada, um mercado que tem se aquecido bastante. Mas são todas soluções paliativas, com seus próprios riscos. A sensação é de estar encurralado.

E o futuro? Mais perguntas do que respostas

O que a declaração da G.Skill mais evidencia é a incerteza. A empresa não se compromete com prazos, não traça um cenário, não oferece um fio de esperança. E isso, por si só, é um dado alarmante. Se nem quem está dentro da indústria consegue enxergar o fim do túnel, o que resta para o consumidor?

Alguns analistas apontam para o final de 2025 ou 2026 como um possível ponto de inflexão, quando novas fábricas e linhas de produção devem começar a operar em capacidade total. Mas são projeções que dependem de uma série de variáveis frágeis: a geopolítica (tensões envolvendo Taiwan, principal produtor de silício), a demanda contínua por IA (que pode esfriar ou mudar de direção) e até a saúde da economia global. É um castelo de cartas.

Enquanto isso, o mercado se adapta de formas distorcidas. Vimos o fenômeno com os SSDs durante a última grande escassez de chips: os fabricantes começaram a mudar componentes internos, usar controladores diferentes, reduzir garantias. Com a RAM, podemos ver uma pressão maior para a adoção de memória soldada (como em muitos notebooks), que dá menos opções ao usuário mas mais controle de custos ao fabricante. Ou a popularização de tecnologias de memória unificada, como a da Apple, que embora eficiente, tranca o usuário em um ecossistema fechado.

E você, como tem lidado com isso? Adiou a compra do seu novo PC? Aceitou pagar o preço mais alto? Ou está revirando os fóruns atrás de uma pechincha milagrosa? A falta de transparência, no fim das contas, joga todo mundo nesse jogo de adivinhação – e quem sempre paga a conta é o mesmo.

Com informações do: Adrenaline