Em um mercado dominado por gigantes como o Steam, a estratégia de uma loja digital pode ser definida tanto pelo que ela escolhe fazer quanto pelo que decide não fazer. Após a venda da CD Projekt RED e agora sob o controle de seu cofundador Michael Kiciński, a GOG, famosa por sua dedicação à preservação de jogos clássicos, está traçando um caminho que muitos considerariam contraintuitivo: em vez de tentar uma batalha direta pela supremacia do mercado, a plataforma vai dobrar a aposta em sua identidade única. Em entrevista à Games Industry, Kiciński foi categórico ao afirmar que seria uma tolice acreditar que a GOG tem a capacidade de destronar o Steam. Mas será que essa humildade estratégica é, na verdade, sua maior força?

Pense bem: quantas lojas você conhece que tentaram enfrentar a Valve de frente e sobreviveram para contar a história? A Epic Games Store, com todo o poder financeiro da Fortnite, ainda luta para conquistar uma fatia significativa. O Discord, que tinha uma base de usuários gigantesca, praticamente abandonou a empreitada. Kiciński e o diretor da GOG, Maciej Gołębiewski, observam esses exemplos e tiram uma lição clara. O sucesso não vem de replicar o que o Steam faz, mas de oferecer algo que ele não oferece – ou não oferece tão bem.
O Nicho Como Fortaleza: Preservação e Curadoria
E é aí que a missão da GOG ganha um brilho especial. Enquanto o Steam é uma megabiblioteca, muitas vezes caótica, onde qualquer jogo pode tentar a sorte (graças a sistemas automatizados), a GOG se posiciona como uma curadoria especializada. Gołębiewski explicou que o foco continuará sendo uma mistura de "clássicos retrô" e "clássicos modernos".
Isso vai muito além de simplesmente vender jogos velhos. É sobre garantir que Fallout 2, Baldur's Gate ou System Shock 2 funcionem perfeitamente em um Windows 11, sem que o jogador precise virar um técnico em informática. É um trabalho de detetive, de engenharia reversa e de pura paixão pela história dos games. Já houve casos em que a GOG precisou contratar detetives particulares só para localizar os detentores dos direitos de jogos esquecidos. Que outra loja faz isso?
Na minha experiência como jogador, é reconfortante saber que existe um lugar dedicado a isso. O Steam pode ter 50.000 jogos, mas quantos deles são clássicos cuidadosamente restaurados? A resposta é: pouquíssimos. A GOG preenche essa lacuna de forma brilhante.

Ampliando o Catálogo Sem Perder a Alma
Agora, focar no nicho não significa estagnar. A nova direção planeja ampliar a quantidade de lançamentos, tornando a plataforma mais atrativa para desenvolvedores independentes que buscam um espaço com curadoria e visibilidade. Imagine um indie que fez um jogo inspirado nos RPGs dos anos 90. No Steam, ele pode se perder no mar de lançamentos diários. Na GOG, ele pode ser destacado ao lado dos títulos que o inspiraram, para um público que já valoriza esse estilo.
É uma proposta de valor diferente. Kiciński resumiu bem: "Não é preciso ser que nem os outros. O GOG tem sua própria identidade". E essa identidade é construída sobre pilares como jogos sem DRM (uma bandeira histórica da loja), preços regionalizados justos e um catálogo que conta uma história.
Mas há um ponto onde a humildade estratégica dá lugar ao pragmatismo: a experiência do usuário. Aqui, Kiciński admite que o Steam "está ganhando" em termos de facilidade de uso. E isso é algo que a GOG pretende observar e melhorar. Afinal, de que adianta ter os melhores clássicos se a loja for complicada de navegar? Melhorar interfaces, simplificar processos e tornar a descoberta de jogos mais intuitiva será um foco, sem que isso signifique copiar o concorrente, mas sim adaptar os pontos fortes dele ao DNA da GOG.
O que me surpreende, no fim das contas, é a clareza de visão. Em um mundo obcecado por crescimento a qualquer custo e dominação de mercado, ver uma empresa abraçar conscientemente seu nicho e aprofundar sua missão específica é refrescante. A GOG não quer ser o Steam. Ela quer ser a melhor GOG possível, o santuário onde os jogos, velhos e novos, são tratados com o respeito e o cuidado que merecem. E, pelo visto, sob a liderança de seu cofundador, essa será a batalha que ela escolheu lutar. Será que o mercado de jogadores nostálgicos e de indies que buscam visibilidade é grande o suficiente para sustentar esse sonho? Os próximos anos dirão. Fonte: PC Gamer
E essa clareza se reflete em decisões práticas. Enquanto outras plataformas correm para adicionar funcionalidades sociais complexas ou sistemas de conquistas cada vez mais elaborados, a GOG parece estar fazendo uma pergunta mais fundamental: o que realmente importa para o jogador que procura nossos jogos? A resposta, muitas vezes, é simplicidade e confiabilidade. Você compra, baixa, instala e joga. Ponto. Sem clientes pesados que consomem recursos, sem DRM que te trata como um criminoso em potencial, sem surpresas desagradáveis.
Mas será que essa abordagem minimalista é suficiente em 2024? Afinal, os jogadores modernos estão acostumados a bibliotecas sincronizadas na nuvem, a recomendações algorítmicas e a comunidades integradas. É uma tensão interessante. Por um lado, há um charme inegável na simplicidade da GOG. Por outro, não dá para ignorar que algumas conveniências do Steam realmente fazem falta. A sincronização de saves na nuvem, por exemplo, é algo que muitos jogadores consideram essencial hoje em dia, especialmente quem joga em mais de um PC. A GOG Galaxy, o cliente opcional da loja, oferece algumas dessas features, mas sua adoção não é universal como o Steam. É um equilíbrio delicado entre preservar a filosofia "sem amarras" e atender às expectativas contemporâneas.
O Desafio dos "Clássicos Modernos" e a Relação com os Desenvolvedores
O plano de expandir para "clássicos modernos" é particularmente intrigante. O que define um clássico moderno, afinal? É um jogo com mais de cinco anos? Dez? É aquele que já saiu das listas de mais vendidos mas mantém uma base de fãs fervorosa? A curadoria aqui será crucial. Incluir títulos como Disco Elysium ou Hades faz todo o sentido – são jogos aclamados que já provaram seu valor ao longo do tempo e se encaixam no perfil de um público que valoriza narrativa e jogabilidade refinada.
No entanto, convencer publishers e desenvolvedores a trazerem seus jogos "mais velhos" para a GOG pode ser um desafio à parte. Muitos já têm acordos de exclusividade temporária ou permanente com outras lojas. Outros podem ver pouco valor comercial em relançar um título de alguns anos atrás em uma plataforma de nicho. A GOG terá que trabalhar duro para demonstrar que seu público – engajado, disposto a pagar por qualidade e sem DRM – representa uma oportunidade de vendas estável e de longo prazo, diferente do pico inicial e subsequente queda comum no Steam.
E falando em desenvolvedores, a política de preços regionalizados justos da GOG é outro diferencial que merece destaque. Enquanto algumas plataformas aplicam conversões automáticas que, na prática, tornam os jogos inacessíveis em países com moedas mais fracas, a GOG tem histórico de tentar encontrar um ponto de equilíbrio. Isso cria uma lealdade não só do consumidor final, mas também dos criadores que veem seus jogos sendo vendidos a preços realistas em mercados emergentes. É um jogo de longo prazo, que constrói boa vontade – um ativo intangível, mas poderosíssimo.
O Futuro: Evolução Sem Traição
O maior risco para a GOG, na minha opinião, não é o Steam ou a Epic. É a tentação de, aos poucos, abandonar seus princípios fundamentais em busca de um crescimento mais rápido. Cada nova funcionalidade, cada parceria, cada decisão sobre o que entra ou não no catálogo precisa ser filtrada pela pergunta: "Isso está alinhado com quem somos?"
Kiciński mencionou que observará o que o Steam faz bem em termos de facilidade de uso. Isso é sábio. Adotar boas ideias de usabilidade não é trair sua identidade; é respeitar o tempo do usuário. O perigo está em tentar copiar o modelo de negócios por trás da facilidade – os bundles agressivos, as sales que deseducam o consumidor sobre o valor real dos jogos, a loja que se transforma em um cassino de microtransações para itens cosméticos.
Há também a questão da descoberta. O algoritmo do Steam, por mais imperfeito que seja, às vezes acerta em recomendações surpreendentes. A GOG, com seu catálogo menor e mais curado, tem a oportunidade de fazer uma curadoria humana excepcional. Em vez de "jogos como este", poderia ser "jogos que inspiraram este" ou "a evolução deste gênero". Transformar a loja em uma espécie de museu interativo e loja ao mesmo tempo. Imagine abas temáticas curadas por especialistas, retrospectivas de estúdios históricos, bundles que contam uma história (como a "Trilogía do RPG Isométrico dos Anos 90").
E o que dizer do potencial da nuvem? Services como o GeForce Now e o Xbox Cloud Gaming estão mudando a forma como as pessoas jogam. A GOG, com sua biblioteca de jogos sem DRM, está em uma posição teoricamente privilegiada para negociar com esses serviços. Afinal, não há bloqueios técnicos para executar seus jogos em uma máquina virtual. Um acordo que permitisse jogar sua biblioteca da GOG via streaming poderia ser um diferencial enorme para um público que valoriza a propriedade, mas também a conveniência.
No final, a jornada da GOG sob sua nova direção me lembra um pouco a de uma editora de livros independente. Ela não vai vender best-sellers de aeroporto na mesma escala que as grandes redes. Mas pode se tornar a editora de referência para um gênero específico, com edições cuidadas, capas bonitas e um catálogo que os fãs colecionam com orgulho. O sucesso não se mede apenas em volume de vendas, mas em relevância cultural e na construção de uma comunidade. A pergunta que fica é: em um mercado de games cada vez mais volátil e orientado para o serviço, quantos jogadores ainda valorizam essa proposta? E mais importante: quantos estão dispostos a pagar por ela?
Com informações do: Adrenaline








