O universo de Westeros, criado por George R.R. Martin, continua a expandir-se na televisão, mas nem sempre com a bênção total do seu criador. A segunda temporada de House of the Dragon, o spin-off de Game of Thrones focado na Casa Targaryen, foi palco de tensões públicas entre o autor e a produção do seriado. Agora, Martin decidiu esclarecer os rumores e detalhar a sua relação complicada com o showrunner Ryan Condal, revelando uma frustração que vai além de simples desentendimentos criativos.

O Coração da Controvérsia

Em diversas publicações, Martin não escondeu o seu descontentamento com algumas escolhas narrativas da segunda temporada. O que começou como comentários esparsos nas redes sociais evoluiu para uma discussão mais profunda sobre a autoria e o controle criativo. O autor deixou claro que, embora a série seja baseada no seu livro Fogo & Sangue, o processo de adaptação para a HBO o afastou da narrativa final. "Há um ponto em que você precisa se desapegar", ele refletiu em uma entrevista, mas esse desapego parece ter vindo com um gosto amargo.

O cerne do problema, segundo Martin, não são apenas mudanças pontuais, mas uma sensação de que a essência da história e dos personagens que ele concebeu estava sendo alterada sem o seu aval. Ele mencionou especificamente a caracterização de certas figuras Targaryen e a dinâmica entre elas, que ele acredita terem sido simplificadas ou distorcidas para se adequar ao ritmo televisivo. É uma situação delicada, não é? Por um lado, adaptações exigem mudanças; por outro, até onde um criador deve ceder a visão do seu próprio mundo?

Ryan Condal e os Desafios de Adaptar um Mundo Vivo

Do outro lado está Ryan Condal, o showrunner encarregado de transformar a densa história dos Targaryen em um drama televisivo cativante. A pressão é imensa: seguir os fãs fiéis dos livros, agradar ao público massivo que Game of Thrones conquistou e, ao mesmo tempo, entregar uma produção dentro de prazos e orçamentos apertados. Em minha experiência acompanhando o set, é comum que showrunners se sintam entre a espada e a parede nesses casos.

Fontes próximas à produção sugerem que Condal tentou, inicialmente, manter um diálogo próximo com Martin. No entanto, à medida que os prazos de produção apertavam e as decisões precisavam ser tomadas rapidamente, a comunicação teria se tornado mais esporádica e menos colaborativa. Martin, acostumado a um processo de escrita meticuloso e solitário, pode ter se sentido excluído de um projeto que ainda carrega o seu nome. A ironia é que House of the Dragon é um sucesso de crítica e audiência, mas seu criador original parece assistir a ele com uma certa distância melancólica.

E isso levanta uma questão interessante: quem é o verdadeiro "dono" de uma história após ela ser adaptada? O autor que a criou ou os cineastas que a reinterpretam para uma nova mídia?

Uma Decepção que Vem de Longe

Para entender a frustração atual de Martin, é preciso voltar um pouco. A experiência com o final da série original Game of Thrones ainda parece pairar sobre ele. Enquanto os showrunners David Benioff e D.B. Weiss correram para concluir a história, Martin continua a escrever os livros finais de As Crônicas de Gelo e Fogo. Essa desconexão entre o destino televisivo e o literário dos seus personagens criou uma cisão pública.

O caso de House of the Dragon é diferente, pois a fonte material (Fogo & Sangue) já está completa. Mesmo assim, a sensação de perda de controle parece ser a mesma. Em suas palavras, quando as adaptações se afastam muito do cânone que ele estabeleceu, "o mundo que você criou se desfaz como papel". É uma metáfora poderosa para a fragilidade de um universo de fantasia diante das demandas comerciais.

Alguns fãs defendem as mudanças, argumentando que a televisão é um meio diferente e precisa de ritmo e clareza narrativa que um livro de mil páginas não exige. Outros, os puristas, ecoam o desapontamento de Martin. O que me surpreende é como essa tensão entre fidelidade e adaptação continua a ser um dos debates mais acalorados no entretenimento. No fim, talvez não haja um vencedor claro, apenas histórias diferentes contadas em plataformas diferentes.

O futuro da franquia na HBO, com outros spin-offs em desenvolvimento, coloca uma interrogação sobre como esses projetos vão gerir a relação com o criador original. A lição de House of the Dragon pode ser que colaboração, quando se trata de um mundo tão amado e detalhado como Westeros, exige mais do que consultoria pontual. Exige um respeito mútuo pelo processo criativo do outro – algo que, aparentemente, se perdeu no caminho entre o papel e a tela. E enquanto Martin se dedica a terminar A Dança dos Dragões, os fãs ficam a imaginar como seria a série se ele tivesse tido as rédeas mais curtas, ou se a liberdade criativa de Condal era, no fundo, o preço necessário para termos a série na nossa TV.

Mas a questão vai além de simples desentendimentos criativos. O que realmente parece incomodar Martin é uma sensação de deslocamento, quase como se estivesse assistindo a uma versão alternativa do seu próprio trabalho. Em um post recente no seu blog, Not a Blog, ele foi mais explícito: "Quando você passa anos construindo um mundo, dando vida a personagens, definindo suas motivações e traçando seus destinos, vê-los serem reinterpretados – ou, em alguns casos, reescritos – pode ser uma experiência estranhamente despersonalizante." A palavra "despersonalizante" aqui é reveladora. Não se trata apenas de discordar sobre um arco de personagem; é sobre sentir que a sua própria voz, a sua marca registrada naquelas páginas, foi abafada.

E isso nos leva a um ponto crucial: a diferença fundamental entre o processo de escrita de Martin e a produção televisiva. O autor é conhecido por seu método "jardineiro", onde a história cresce organicamente, com personagens que tomam vida própria e desviam o enredo planejado. É um processo lento, introspectivo e não linear. A televisão, por outro lado, opera com roteiros que precisam ser finalizados, cronogramas de filmagem rígidos e uma cadeia de comando que vai do showrunner aos produtores executivos da HBO. A necessidade de decisões rápidas e definitivas é incompatível com o estilo de Martin de constante revisão e descoberta. Imagine tentar encaixar um rio que muda de curso constantemente dentro de um canal de concreto pré-moldado. A pressão para que o canal se mantenha é enorme, mesmo que isso signifique desviar o rio de seu caminho natural.

O Peso do Legado e as Expectativas dos Fãs

Outra camada de complexidade vem dos fãs. A base de fãs de Game of Thrones é vasta e diversificada, indo desde leitores que decoram passagens dos livros até espectadores casuais que só conhecem a série da HBO. Martin, como criador, sente uma responsabilidade profunda para com o primeiro grupo – aqueles que mergulharam nas nuances políticas de Porto Real e nas profecias obscuras de Asshai. Quando a série simplifica uma trama ou altera um motivo de um personagem, são esses fãs que Martin sente que está decepcionando. Ele se vê, de certa forma, como seu guardião.

Ryan Condal, por sua vez, precisa servir a um mestre diferente: a narrativa televisiva eficaz. Um exemplo prático: nos livros, a rivalidade entre Rhaenyra e Alicent é alimentada por anos de desconfiança mútua, mal-entendidos e interferências de cortesãos ambiciosos. Na série, essa tensão é frequentemente condensada em cenas de confronto direto e diálogos mais explícitos. Para um espectador que nunca leu Fogo & Sangue, isso cria um conflito claro e dinâmico. Para um leitor, pode parecer uma redução da complexidade psicológica que Martin tanto valoriza. Condal está errado? Não necessariamente. Ele está apenas fazendo o seu trabalho, que é diferente do trabalho de Martin. O problema é que ambos os trabalhos carregam o mesmo nome.

E o que dizer dos outros spin-offs que estão a caminho? Projetos como A Knight of the Seven Kingdoms (baseado em O Cavaleiro dos Sete Reinos) e Snow (focado em Jon Snow após o final de Game of Thrones) colocam Martin em terrenos ainda mais pantanosos. O primeiro é uma história que ele já concluiu, mas com um tom muito diferente – mais íntimo e menos épico. O segundo mergulha em um território pós-livros, onde não há material fonte canônico para seguir ou desviar. Será que Martin terá mais influência nesses projetos? Ou a máquina da HBO já aprendeu que pode operar o universo de Westeros independentemente do seu criador?

Um Precedente Perigoso para Autores de Fantasia

A situação de Martin não é única, mas sua estatura a torna um caso emblemático. Ela estabelece um precedente preocupante para outros autores de sagas de fantasia épica que sonham com adaptações. Se até George R.R. Martin, com todo o seu sucesso e influência, pode se sentir marginalizado no processo de adaptação da sua obra mais famosa, o que esperar para autores com menos poder de barganha? A mensagem subliminar é clara: venda os direitos, receba o cheque, e afaste-se. O seu bebê criativo agora pertence a um estúdio.

Mas será que precisa ser assim? Olhando para outras franquias, vemos modelos diferentes. Peter Jackson trabalhou em colaboração próxima com os herdeiros de Tolkien (e com os próprios textos, tratados com reverência quase religiosa) em O Senhor dos Anéis. A série The Expanse teve os autores dos livros, Daniel Abraham e Ty Franck (que escrevem sob o pseudônimo James S.A. Corey), profundamente envolvidos como produtores e roteiristas durante toda a sua execução. Esses casos sugerem que uma simbiose mais saudável é possível. Por que não aconteceu com Martin e Condal? A escala monstruosa e o apetite insaciável por conteúdo da era dos streamings podem ter acelerado um processo que, no passado, permitia mais deliberação.

No fim das contas, o que está em jogo aqui é mais do que o ego de um autor ou a visão de um showrunner. É a própria integridade de um mundo de ficção. Westeros, com suas casas nobres, suas conspirações e seus dragões, transcendeu as páginas dos livros para se tornar um fenômeno cultural global. Mas à medida que se expande através de séries, jogos e mercadorias, corre o risco de se diluir, de perder a sua alma original. A frustração de Martin é, no fundo, o lamento de um arquiteto que vê sua catedral gótica meticulosamente planejada receber anexos de vidro e aço modernos. Eles podem ser funcionais e até belos por si só, mas alteram irrevogavelmente a paisagem que ele imaginou.

E então ficamos com uma pergunta desconfortável: em um ecossistema midiático que valoriza mais a produção constante de conteúdo do que a coesão de uma única visão artística, ainda há espaço para o autor como verdadeiro guardião do seu mundo? Ou o conceito de "autor" se dissolve quando a história se torna uma propriedade intelectual administrada por um comitê criativo? Enquanto a HBO planeja mais séries em Westeros e Martin se recolhe para tentar, mais uma vez, concluir Os Ventos do Inverno, essa divisão parece só aumentar. A Casa do Dragão pode estar forte na tela, mas suas fundações, na visão do seu criador, talvez não sejam tão sólidas quanto parecem.

Com informações do: IGN Brasil