Quando se fala em "versão de entrada" de um carro elétrico, a mente costuma ir para algo espartano, com cortes evidentes para justificar o preço. O Geely EX2 Pro, porém, parece ter recebido um briefing diferente. Por R$ 119.990, ele chega ao Brasil não como um carro simples, mas como um veículo que questiona o que realmente consideramos "básico" no mercado atual. Com equipamentos que muitos hatches a combustão na mesma faixa de preço nem sonham em oferecer, o EX2 Pro é um sinal claro de como a concorrência chinesa está reescrevendo as regras do jogo.

Um "básico" que não parece básico
É quase um choque. Você olha para o preço, R$ 119.990, e depois para a lista de equipamentos do EX2 Pro. Faróis e lanternas full-led? Tem. Antena shark fin? Tem. Bancos de vinil, quadro de instrumentos digital, central multimídia gigante de 14,6 polegadas, seis airbags e freio de estacionamento eletrônico com auto-hold? Tudo isso está lá. A única concessão realmente visível à ideia de entrada de gama são as rodas de aço aro 15" com calotas – que, vamos combinar, não são as mais bonitas do mundo.
Mas a sensação é que estamos tão acostumados a receber pouco pelos nossos R$ 120 mil, que qualquer coisa além parece um luxo. Em minha experiência, muitos carros populares a combustão nessa faixa ainda brigam para oferecer ar-condicionado digital e um sistema multimídia decente, quanto mais todo esse pacote tecnológico.
A versão mais completa, a EX2 Max (R$ 135.990), adiciona rodas de liga leve, acabamento macio no console, base de carregamento sem fio e, o mais importante, um pacote robusto de assistência ao condutor com frenagem automática de emergência e piloto automático adaptativo. O Pro fica apenas com câmera de ré e sensores. É uma diferença significativa em segurança ativa, mas o fato é: o "básico" já vem muito bem servido de conforto e conectividade.

Porte de SUV, alma de Volvo, espaço de sobra
Aqui está um dos grandes trunfos do EX2, e algo que pode pegar muitos desprevenidos. Chamá-lo de "hatch compacto" é um erro. Com 4,13 metros de comprimento e 1,80 m de largura, ele tem dimensões muito próximas às de um Volkswagen T-Cross. Na verdade, é 4 cm mais largo! A altura livre do solo de 16 cm, porém, o coloca mais na categoria de hatch elevado do que de SUV de verdade.
Esse tamanho generoso se traduz em um interior surpreendentemente espaçoso. Na traseira, adultos de 1,80m viajam com folga, e há até saídas de ar e uma porta USB dedicada para os passageiros de trás. O porta-malas oferece 375 litros, praticamente idêntico ao do T-Cross, e ainda há um bônus: um "frunk" (porta-malas dianteiro) de 70 litros, um espaço extra valioso que surge por não haver motor na frente.
E por que ele é tão bem aproveitado? A explicação está na sua origem. O EX2 foi desenvolvido sobre a plataforma DEA da Geely, uma evolução da plataforma CMA que equipa os Volvo XC40 e C40. Isso não só justifica a boa estabilidade e o espaço interno, mas também a configuração de tração traseira – uma raridade nessa categoria que beneficia tanto a dinâmica quanto a distribuição de peso.

Motor síncrono e uma dinâmica que surpreende
Sob o capô (ou melhor, sob o assoalho traseiro), trabalha um motor elétrico síncrono de ímã permanente. Soa técnico, mas a diferença prática é relevante. Esse tipo de motor é mais eficiente que os assíncronos comuns em muitos concorrentes, como os BYD Dolphin, e oferece uma resposta ainda mais imediata. Com 116 cv e 15,3 kgfm, o desempenho é equivalente ao de um carro 1.6 aspirado ou um 1.0 turbo, fazendo o 0 a 100 km/h em 10,2 segundos.
Mas a grande surpresa, para mim, veio ao volante. A tração traseira elimina aquela "briga" entre a direção e a força do motor, comum em elétricos de tração dianteira quando você pisa forte. O EX2 é excepcionalmente agarrado, graças também aos pneus 205/65 R15. É preciso realmente forçar no modo Sport para as rodas traseiras sequer reclamarem.
A suspensão, calibrada para nossas ruas, merece elogios. O carro é confortável, absorve bem as imperfeições sem ficar mole, e mantém uma compostura estável. É um elétrico leve (1.300 kg) que não pune o ocupante. E os freios? Ah, isso é um alívio. O sistema que mescla regeneração e freios a disco é tão bem dosado que a sensação no pedal é perfeitamente convencional, sem aquele toque esponjoso ou artificial de outros EVs.

Onde o EX2 Pro ainda tropeça
Nenhum carro é perfeito, e o Geely tem seus pontos de atenção. O mais criticável, atualmente, é a conectividade. Aquela tela enorme de 14,6" não vem com Android Auto ou Apple CarPlay. Pior: nem tem um navegador embarcado como plano B. A promessa é que essa integração chegará via atualização de software OTA (Over-the-Air). Só não pode demorar, porque no mundo atual, isso é um déficit grave.
Outra falta sentida, especialmente para motoristas mais altos, é a ausência de ajuste de profundidade no volante. É um item que deveria ser padrão. Detalhes como o acabamento de plástico duro no console (no Pro) e o fato dos modos de condução e regeneração resetarem para o padrão toda vez que o carro é desligado também mostram onde a fabricante economizou.
Ainda assim, quando você coloca tudo na balança, o EX2 Pro se sai muito bem. Ele é a prova de que um carro elétrico acessível não precisa ser minúsculo, lento ou desprovido de equipamentos. Ele é, simplesmente, um carro normal. Um carro que você entra e dirige, sem precisar se adaptar a manias estranhas ou a uma sensação de que está fazendo um grande sacrifício pela mobilidade sustentável. Até o ajuste dos espelhos segue os velhos e bons botões manuais. Há um certo charme nisso.

O sucesso do EX2 na China, onde foi o carro mais vendido em 2025, à frente de rivais consagrados como os BYD Dolphin, não parece ser por acaso. Ele acerta em pontos fundamentais: espaço, equipamento, desempenho suficiente e um preço que pressiona fortemente os equivalentes a combustão. No Brasil, ele chega como um dos argumentos mais convincentes para quem pensa em fazer a transição para a eletrificação sem abrir mão do pragmatismo no dia a dia. Resta saber se o mercado brasileiro está pronto para essa nova definição de "básico" que os chineses estão impondo.
O desafio da infraestrutura e a experiência de recarga
Falar de carro elétrico sem mencionar a recarga é como falar de smartphone sem falar da bateria. E aqui, a experiência com o EX2 Pro traz nuances interessantes. Com sua bateria de 49 kWh (líquidos), a autonomia homologada é de 380 km no ciclo WLTP. Na vida real, com ar-condicionado ligado e um trânsito misto, é realista esperar algo entre 300 e 330 km. Para a maioria dos deslocamentos urbanos e até viagens intermunicipais, é mais que suficiente. Mas e quando a bateria chega perto do fim?
O carro aceita recarga rápida em corrente contínua (DC) de até 70 kW. Em teoria, isso significa ir de 30% para 80% em cerca de 30 minutos. Na prática, porém, a disponibilidade de carregadores rápidos de 70 kW no Brasil ainda é um ponto de atenção. Muitos postos públicos oferecem potências de 22 kW ou 50 kW, o que estende um pouco esse tempo. É um lembrete de que, ao comprar um elétrico hoje, você também está comprando um plano de rota – saber onde estão os carregadores confiáveis no seu caminho habitual ou nos destinos que frequenta.
Em casa, com um wallbox de 7,4 kW (o recomendado), uma recarga completa de 0 a 100% leva aproximadamente 7 horas. Ou seja, dá para plugar à noite e acordar com o "tanque" cheio. A Geely oferece a instalação do wallbox como parte de alguns pacotes de venda, o que facilita a vida. Mas e quem mora em apartamento sem vaga com ponto de força? Aí a conta fica mais complicada e depende da boa vontade (e da infraestrutura) do condomínio. É uma barreira que ainda afasta muitos potenciais compradores.

Concorrência acirrada: como ele se posiciona no mercado?
Colocar o EX2 Pro na prateleira ao lado dos rivais é um exercício revelador. O principal concorrente direto, sem dúvida, é o BYD Dolphin Comfort, que custa cerca de R$ 10 mil a mais. O Dolphin oferece um design mais ousado, Apple CarPlay e Android Auto de fábrica, e uma sensação de acabamento um pouco mais refinada. Por outro lado, o EX2 Pro é visivelmente maior por dentro e por fora, tem a vantagem da tração traseira e, na minha opinião, uma dinâmica de condução ligeiramente mais envolvente. É a clássica disputa entre espaço e sofisticação.
E os elétricos globais? Bem, um Volkswagen ID.3 ou um Cupra Born, quando (e se) chegarem oficialmente, provavelmente custarão bem mais. O EX2 Pro ocupa um nicho esperto: é mais caro que os minicarro elétricos como o JAC E-JS1, mas oferece muito mais carro pelo dinheiro. E, curiosamente, ele também compete com SUVs compactos a combustão na mesma faixa de preço, como o T-Cross, o HR-V e o Tracker. A pergunta que fica para o consumidor é: vale a pena trocar o prestígio (e a rede de concessionárias) de uma marca tradicional por um pacote de espaço, tecnologia e custo de uso reduzido de uma nova concorrente?
O custo de manutenção é outro fator que pesa a favor. Sem correia dentada, velas, óleo do motor, filtros de combustível ou embreagem, as revisões dos elétricos são mais simples e baratas. A Geely promete planos de manutenção acessíveis, mas a longo prazo, a durabilidade da bateria é a grande interrogação que paira sobre todos os EVs. A marca oferece garantia de 8 anos ou 150.000 km para o pacote de baterias, o que é um bom alívio inicial, mas o valor de revenda após esse período ainda é uma incógnita no mercado brasileiro.

Um olhar para o futuro e os próximos passos da Geely
A chegada do EX2 Pro não é um evento isolado. É a ponta do iceberg da ofensiva da Geely no Brasil. A marca, que já é dona da Volvo, da Polestar e de parte da Mercedes-Benz, não está aqui para fazer número. O EX2 é a âncora, o produto para criar volume e familiaridade. Os próximos passos, como a chegada de modelos maiores como o Geometry G6 (um sedã) e possivelmente alguns dos SUVs premium da família Zeekr, vão depender muito de como o público receber esse primeiro modelo.
E isso levanta uma questão crucial: o brasileiro está disposto a confiar em uma marca nova, especialmente chinesa, em um bem de alto valor como um carro? A Geely parece estar ciente do desafio. A estratégia inclui uma rede de concessionárias próprias, os "Geely Spaces", com um padrão de atendimento elevado, e uma forte aposta em pós-venda. Só o tempo dirá se isso será suficiente para construir a confiança que marcas consolidadas levaram décadas para erguer.
Por outro lado, será que as marcas tradicionais estão acompanhando essa disrupção? Olhando para a oferta atual, a resposta parece ser "não na mesma velocidade". Enquanto a Geely, a BYD e a Caoa Chery lançam elétricos com preços agressivos e equipamentos generosos, as montadoras europeias, japonesas e americanas ainda tentam vender seus modelos a combustão com preços altos e, muitas vezes, equipamentos míseros. O EX2 Pro expõe essa defasagem de forma crua. Ele não é apenas um carro elétrico; é um espelho que reflete as deficiências de um mercado que ficou confortável por muito tempo.
E você, leitor, o que acha? O que pesa mais na sua decisão: a segurança de uma marca com história no país, ou a proposta de valor agressiva de uma recém-chegada que parece oferecer muito mais pelo mesmo dinheiro? A resposta a essa pergunta coletiva vai moldar não apenas o futuro da Geely no Brasil, mas todo o panorama do mercado automotivo nacional nos próximos anos. A disputa, como se vê, vai muito além de cavalos de potência ou autonomia de bateria.
Com informações do: Quatro Rodas








