Estacionado em frente ao escritório da GAC em São Paulo, o Hyptec HT já chamava atenção antes mesmo de eu sair do carro. Um pedestre se aproximou, apontou para as portas e perguntou: "É aquele que abre as portas para cima?". A resposta era sim, e com um clique no controle, as famosas "asas de gaivota" se ergueram, revelando apenas a primeira camada de um veículo que é, na verdade, muito mais complexo e interessante do que seu visual futurista sugere. Este crossover elétrico chinês tenta misturar o conforto de um antigo monovolume familiar com a tecnologia de um SUV moderno, e o resultado é... intrigante, para dizer o mínimo.

Conforto e espaço: um retorno ao conceito familiar
As portas traseiras com abertura vertical, um opcional de R$ 50.000, são mais do que um truque de estilo. Elas têm uma função prática genuína, facilitando a entrada e saída em vagas apertadas graças a uma articulação inteligente no topo dos vidros. Mas a verdadeira magia acontece dentro da cabine. O GAC Hyptec HT parece ter estudado a fundo o que fez os monovolumes serem amados por famílias e depois aplicou essas lições em um formato moderno.
O espaço para os passageiros traseiros é simplesmente generoso. O banco do carona não só tem um apoio de pés integrado para quem vai atrás, como também controles que permitem ao passageiro de trás ajustar sua posição para ganhar mais espaço para as pernas. O encosto traseiro é reclinável, transformando a segunda fila em algo que se assemelha mais a uma poltrona de sala de estar do que a um banco de carro. É um nível de conforto que muitos SUVs caros simplesmente não entregam. Claro, há pecados: a falta de uma zona de clima dedicada para trás e apenas uma porta USB na segunda fila são falhas notáveis em um carro que custa R$ 359.990 na versão Ultra (com as portas especiais).

E os ocupantes da frente? Bem, eles não foram esquecidos. Os assentos dianteiros são elétricos, com ventilação e função de massagem – um luxo bem-vindo. Um detalhe curioso é o sistema de fragrâncias no ar-condicionado, com três opções escolhíveis pela central multimídia. A cabine é repleta de porta-objetos, desde um compartimento na altura do joelho do motorista até um grande vão sob o console central. A ausência de um porta-luvas tradicional, substituído por uma gaveta no console, é uma troca interessante que aumenta o espaço para as pernas do carona.
Tecnologia, desempenho e a sombra da Tesla
A experiência digital é dominada por telas. O quadro de instrumentos de 8,8 polegadas, posicionado longe, lembra a configuração dos Peugeot, mas oferece pouca customização. Já a tela central de 14,6 polegadas é responsiva e tem uma interface intuitiva. Há suporte para Apple CarPlay sem fio, mas a ausência de Android Auto, mesmo por cabo, é uma falha significativa para muitos usuários. O sistema de som com 22 alto-falantes é robusto, e o detalhe do navegador que "sussurra" as direções por alto-falantes dedicados próximos ao ouvido do motorista é um toque inteligente.

Mas vamos falar de desempenho. Diferente de muitos carros elétricos chineses que apostam em números brutais, o Hyptec HT adota uma abordagem mais contida. Seu motor elétrico traseiro entrega 245 cv e 31,5 kgfm, levando os 2.090 kg do veículo de 0 a 100 km/h em 7,6 segundos. Não é um foguete, mas é suficiente para uma condução ágil. A bateria de 72,7 kWh oferece uma autonomia homologada de 362 km, algo próximo dos 370 km estimados em testes reais.
E a suspensão? Surpreendentemente competente. Calibrada para o conforto, consegue lidar bem com buracos e irregularidades, qualidade atribuída em parte aos pneus 245/50 de perfil alto montados em rodas de aro 19. A tração traseira confere um comportamento dinâmico interessante, com o peso do carro ajudando a "grudar" nas curvas.

O elefante na sala: a inspiração no Tesla Model X
É impossível ignorar. O GAC Hyptec HT é, em muitos aspectos, um clone do Tesla Model X. As dimensões são quase idênticas (4,93 m contra 5,03 m do Tesla), o formato da carroceria é similar e, é claro, as portas com abertura vertical são uma assinatura do SUV da Tesla. A traseira do GAC parece uma mistura das duas gerações do Model X. Quando a Tesla atualizou seu design em 2025, a GAC já havia incorporado a tendência da luz traseira em faixa contínua.
Mas há diferenças importantes. Enquanto o Tesla oferece o complexo sistema Autopilot, o GAC se contenta com um pacote de assistência à direção mais convencional: piloto automático adaptativo com stop&go, monitor de ponto cego, assistente de faixa e frenagem de emergência. Nada revolucionário, mas funcional.

Curiosamente, o GAC oferece opções que o Tesla não tem no Brasil. É possível comprar o Hyptec HT com portas traseiras convencionais na versão Elite, por R$ 309.990. Esta versão também traz um teto panorâmico com cortina elétrica. E talvez o argumento mais forte: o GAC oferece uma garantia de 8 anos ou 160.000 km, um benefício que a Tesla não iguala no mercado brasileiro.
No final das contas, o GAC Hyptec HT é um veículo peculiar. Ele pega um conceito famoso (e caríssimo), o Tesla Model X, e tenta oferecê-lo com um acabamento focado no conforto familiar, uma garantia robusta e um preço ainda alto, mas ligeiramente mais acessível. As 172 unidades emplacadas no segundo semestre de 2025 sugerem que, mesmo sendo um nicho, há espaço para propostas ousadas e um pouco diferentes no mercado de elétricos de luxo.
Teste – GAC Hyptec HT
Aceleração
0 a 100 km/h: 7,6 s
0 a 1.000 m: 28,6 s / 182,5 km/h
Retomadas
D 40 a 80 km/h: 2,9 s
D 60 a 100 km/h: 3,6 s
D 80 a 120 km/h: 4,7 s
Frenagens
60/80/120 km/h a 0: 14,3/26,9/70,4 m
Consumo
Urbano: 19,6 kWh/100 km
Rodoviário: 19,8 kWh/100 km
Ruído interno
80/120 km/h: 64,7/67,5 dBA
Velocidade real a 100 km/h: 97 km/h
Ficha Técnica – GAC Hyptec HT Ultra
Preço: R$ 359.990
Motor: traseiro, 245 cv, 31,5 kgfm
Bateria: íons de lítio (LFP), 72,7 kWh
Câmbio: automático, 1 marcha, tração traseira
Direção: elétrica
Suspensão: duplo A (diant.), multilink (tras.)
Freios: disco ventilado (diant.), sólido (tras.)
Pneus: 245/50 R19
Dimensões: compr., 493,5 cm; larg., 192 cm; alt., 170 cm; entre-eixos, 293,5 cm; peso, 2.090 kg; porta-malas, 670 l + 70 l frontal
Mas será que essa abordagem de "Model X acessível" realmente funciona no dia a dia? A experiência de dirigir o Hyptec HT revela nuances interessantes que vão além das comparações óbvias. A primeira coisa que você nota é o silêncio. Não é apenas a ausência do motor a combustão – a insonorização da cabine é excepcional, criando uma cápsula de tranquilidade que rivaliza com veículos de segmentos ainda mais premium. Em velocidades urbanas, quase não se ouve o ruído do vento ou dos pneus, um feito considerável para um SUV com esse formato.

O sistema de regeneração de energia, porém, merece um capítulo à parte. Ele oferece três níveis de intensidade, mas nenhum deles chega perto da agressividade do modo "um-pé" (one-pedal driving) de alguns concorrentes. No nível mais alto, a desaceleração é perceptível, mas você ainda precisa usar o freio para parar completamente. Para quem já se acostumou com a dirigibilidade quase sem pedal de freio de outros elétricos, pode ser uma adaptação. Por outro lado, essa suavidade torna a transição mais natural para quem vem de carros convencionais.
A infraestrutura de recarga e a vida prática
Falar de carro elétrico sem mencionar a recarga é como discutir um smartphone sem falar da bateria. O Hyptec HT vem com um carregador portátil de 7,4 kW para tomada tripla, que em teoria pode recuperar cerca de 40 km de autonomia por hora conectado. Na prática, isso significa que uma recarga completa de 0 a 100% levaria mais de 10 horas – útil para carregar durante a noite em casa, mas pouco prático para emergências.
Onde o GAC brilha é na compatibilidade com carregadores rápidos DC. Com capacidade de aceitar até 150 kW, o Hyptec HT pode ir de 10% a 80% em aproximadamente 30 minutos em um eletroposto compatível. É um tempo competitivo, mas que depende crucialmente da temperatura da bateria e do estado do carregador. Em meu teste, usando um carregador de 120 kW em condições ideais, consegui adicionar 200 km de autonomia em 35 minutos. Não é ruim, mas também não é revolucionário.

E o porta-malas? Com 670 litros, é espaçoso o suficiente para a maioria das famílias, mas a forma irregular – consequência da suspensão traseira multilink e do design da carroceria – pode dificultar o aproveitamento total do espaço. A abertura é ampla, mas o assoalho é relativamente alto. Aquele compartimento frontal de 70 litros (o "frunk") é útil para guardar o cabo de recarga ou itens que você quer manter separados, mas está longe de ser tão prático quanto o do Model X.
O acabamento: onde o luxo chinês acerta e erra
Passando os dedos pelos materiais, a sensação é... mista. Há pontos altos inegáveis: os bancos em couro Nappa são macios e bem costurados, o console central tem uma sensação sólida ao toque, e o teto panorâmico (na versão Elite) realmente amplia a sensação de espaço. Mas também há detalhes que lembram que este é um carro que tenta oferecer muito por um preço relativamente (ênfase no relativamente) acessível.
Alguns botões plásticos têm uma sensação de "clic" menos precisa do que se esperaria, o revestimento das portas embaixo do apoio de braço é um material mais duro, e o sistema de abertura das portas dianteiras, totalmente por botão, pode ser confuso na primeira semana. Você se acostuma, mas a falta de uma maçaneta tradicional é sentida – especialmente quando precisa explicar para um passageiro como sair do carro.

O sistema de som de 22 alto-falantes, da marca Dynaudio, é outro ponto que divide opiniões. Em volumes moderados, a reprodução é clara e bem equilibrada. Mas quando você aumenta o volume, especialmente em músicas com muitos graves, há uma certa distorção nas portas dianteiras. Não é grave, mas perceptível para ouvidos mais atentos. Comparado aos sistemas premium da Bang & Olufsen ou Burmester encontrados em alemães no mesmo patamar de preço, fica um degrau abaixo.
Concorrência: quem mais está nesse nicho?
Colocar o Hyptec HT no mercado significa enfrentar não apenas a sombra do Tesla Model X, mas uma gama crescente de SUVs elétricos premium. O Audi e-tron, por exemplo, oferece um acabamento indiscutivelmente superior e uma rede de concessionárias estabelecida, mas custa significativamente mais. O Volvo EX90 compete no conceito de SUV familiar seguro e tecnológico, mas também em um patamar de preço mais elevado.
Talvez a comparação mais justa seja com outros chineses que estão chegando com preços agressivos. A BYD, por exemplo, tem o Seal U, que é mais barato mas também menos equipado e sem o apelo das portas especiais. A própria GAC tem o modelo Aion, mais compacto e acessível. O Hyptec HT ocupa um espaço peculiar: mais caro que a maioria dos chineses, mais barato que os europeus premium, e com uma carta na manga (as portas) que nenhum outro no preço oferece.

E a rede de assistência? A GAC opera no Brasil através de importadora, com planos de expandir. No momento, a cobertura é limitada principalmente aos grandes centros. Isso significa que, se você mora no interior, pode enfrentar desafios para manutenções ou reparos. A garantia extensa de 8 anos é um alívio, mas não resolve totalmente a ansiedade de possuir um veículo com tecnologia complexa e rede de apoio ainda em construção.
O que me surpreendeu, conversando com alguns dos primeiros proprietários, foi como a experiência varia. Um deles, pai de duas crianças pequenas, elogiou justamente as portas: "Facilita muito para colocar as crianças nas cadeirinhas, especialmente em estacionamentos apertados". Outro reclamou do consumo de energia no inverno, quando o sistema de aquecimento da bateria e da cabine reduziu sua autonomia real para pouco mais de 300 km.
O futuro e as atualizações
Um dos grandes trunfos dos carros elétricos modernos é a capacidade de receber atualizações de software que melhoram o veículo após a compra. A Tesla é mestre nisso, mas a GAC promete seguir o mesmo caminho. A central multimídia do Hyptec HT é conectada e, em teoria, pode receber melhorias. A questão é: com que frequência e qualidade essas atualizações virão?
Em países onde a GAC já está estabelecida há mais tempo, como na China e em alguns mercados europeus, as atualizações têm sido regulares, mas focadas principalmente em correções de bugs e pequenas melhorias de interface. Não há indícios de que funcionalidades completamente novas – como um sistema de assistência à direção mais avançado – serão adicionadas via software. Isso coloca o GAC em uma posição intermediária: mais atualizável que um carro convencional, menos transformável que uma Tesla.

E a depreciação? Essa é a grande incógnita. Carros chineses ainda carregam um estigma no mercado de usados brasileiro, embora isso esteja mudando rapidamente com a qualidade crescente dos produtos. A garantia longa ajuda a manter o valor, mas as portas especiais – seu maior diferencial – podem ser tanto um ativo quanto um passivo no mercado secundário. São uma peça mecânica complexa que, em caso de problema, pode significar reparos caríssimos após o término da garantia.
Dirigindo o Hyptec HT por uma semana, fica claro que a GAC não está tentando reinventar a roda. Está pegando uma fórmula que funciona – o SUV elétrico espaçoso e tecnológico – e tentando executá-la com um foco diferente. Menos no desempenho brutal, mais no conforto familiar. Menos na autonomia máxima a qualquer custo, mais no equilíbrio entre preço e características. É uma abordagem que faz sentido, especialmente para o mercado brasileiro, onde o conceito de "carro da família" ainda tem peso emocional.
As escolhas de projeto refletem isso. A suspensão macia prioriza o conforto sobre o esportividade. O espaço interno foi maximizado em detrimento de um design externo mais agressivo. Até a escolha das cores disponíveis – tons mais sóbrios, com opções de azul e verde discretos – fala para um público que valoriza discrição.
Com informações do: Quatro Rodas








