O processo para tirar a carteira de motorista no Brasil está passando por uma das mudanças mais significativas das últimas décadas. Em São Paulo, Amazonas, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul, a temida prova da baliza entre estacas foi oficialmente removida do exame prático. Mas essa não é a única novidade. Em São Paulo, uma alteração talvez ainda mais impactante para o dia a dia dos futuros condutores entrou em vigor: a permissão para realizar o exame em carros com câmbio automático. Essas mudanças, que começaram a valer no final de janeiro, não são apenas uma simplificação burocrática; representam uma tentativa de alinhar a formação de condutores com a realidade do trânsito brasileiro atual. Será que isso realmente prepara melhor os motoristas, ou estamos abrindo mão de habilidades fundamentais em nome da praticidade?

O Fim de uma Era: Adeus às Estacas e à Embreagem Obrigatória
A eliminação da baliza demarcada é, na verdade, o cumprimento de uma determinação nacional. A Resolução nº 1.020 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), publicada em dezembro de 2025, busca padronizar os exames em todo o país através de um futuro Manual Brasileiro. A ideia é modernizar uma legislação que, vamos combinar, estava um tanto defasada – pouca coisa mudou desde os anos 80.
No entanto, a grande revolução silenciosa aconteceu em São Paulo. O Detran-SP passou a permitir o uso de veículos automáticos tanto para a primeira habilitação quanto para a renovação. Isso corrige uma distorção histórica gritante. Enquanto mais de 60% dos carros novos emplacados no país já são automáticos, o exame ainda insistia na maestria da embreagem e do câmbio manual. Para muitos candidatos, especialmente aqueles que só pretendiam dirigir o carro automático da família, a prova se tornava um obstáculo artificial, um anacronismo técnico que pouco tinha a ver com sua realidade ao volante.

Novo Foco: Do Pátio para a Rua
Mas calma, isso não significa que você vai sair da autoescola sem saber estacionar. A mudança de filosofia é clara: tirar o foco de manobras mecânicas em ambiente controlado e colocá-lo na convivência no trânsito real. Em São Paulo, por exemplo, a prova agora se concentra totalmente no percurso em via pública.
Durante o trajeto, o candidato será solicitado a estacionar o carro próximo ao meio-fio ao menos uma vez, simulando uma situação cotidiana que ele encontrará todos os dias. A avaliação prioriza coisas que realmente importam na rua: o domínio do veículo em conversões, o uso correto (e no tempo certo) das setas, a observação dos espelhos e, principalmente, um comportamento defensivo. A ansiedade de encaixar o carro entre duas estacas sem tocá-las dá lugar à pressão de interagir com outros carros, pedestres e ciclistas. Na minha opinião, essa é a parte mais acertada da reformulação. Afinal, quantas vezes na vida você precisa estacionar entre duas estacas no meio da rua?

Um Brasil, Várias Realidades: Como Cada Estado Está Aplicando as Mudanças
Aqui as coisas ficam interessantes. Como a resolução do Contran permite certa interpretação, os estados estão implementando as mudanças de formas um pouco diferentes. É um ótimo exemplo de como o federalismo brasileiro funciona na prática.
São Paulo: Fim da baliza demarcada + liberação do câmbio automático no exame.
Mato Grosso do Sul: Além de retirar a baliza, alterou o critério de reprovação. Agora é permitido acumular até dez pontos negativos, um sistema que tenta espelhar a lógica de pontuação das infrações do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Um erro não é mais necessariamente fatal.
Espírito Santo: Foi além e adotou uma simplificação mais radical. O Detran-ES removeu não só a baliza, mas também a famosa (e temida) arrancada em rampa. A avaliação fica 100% concentrada na circulação em via pública.
Essas diferenças regionais mostram que, embora a diretriz seja nacional, a experiência do candidato ainda pode variar bastante dependendo do seu CEP.
O Debate Acirrado: Segurança vs. Modernização
É claro que mudanças tão profundas não passaram batidas. O setor das autoescolas está dividido. De um lado, a Associação dos Centros de Formação de Condutores de São Paulo (Acesp) critica abertamente as medidas. O argumento principal é que a baliza é uma manobra fundamental para o domínio do veículo e que sua flexibilização pode gerar riscos à segurança e uma formação mais frágil. Eles temem formar uma geração de motoristas que não sabe estacionar em vagas apertadas.
Por outro lado, o Detran e os defensores da mudança sustentam que a alteração reduz a ansiedade desproporcional do candidato – que muitas vezes era aprovado na rua e reprovado no pátio – e direciona os esforços para o que realmente importa: a convivência no trânsito. O órgão até recomenda que as autoescolas continuem ensinando a manobra, mas apenas como parte do aprendizado, não como um gargalo eliminatório. É um debate clássico entre tradição e adaptação. De um lado, a técnica pura. Do outro, a contextualização prática. Quem está certo? Talvez o tempo e os índices de acidentes com manobras de estacionamento nos próximos anos tragam a resposta.
E essa discussão sobre o que é "essencial" na formação de um motorista vai além da baliza. Pense bem: quantas habilidades que você aprendeu na autoescola você realmente usa no dia a dia? A arrancada em rampa com freio de mão, por exemplo, é uma técnica que muitos condutores de carros automáticos modernos, com hill start assist, nunca mais precisaram executar depois do exame. A mudança parece reconhecer que a tecnologia dos veículos evoluiu – e muito – enquanto o processo de habilitação ficou parado no tempo.
Mas será que essa modernização pode ir longe demais? Alguns instrutores mais experientes, com quem conversei, expressam uma preocupação sutil, mas importante. Eles argumentam que o domínio do veículo em manobras de precisão, como a baliza, ensina algo intangível: a noção espacial do carro, a sensibilidade no volante e nos pedais, a paciência para executar uma tarefa complexa passo a passo. "É como aprender a escrever cursivo antes de digitar", comparou um deles. "Pode não ser a ferramenta que você usará sempre, mas desenvolve uma coordenação fina que fica com você." É um ponto de vista que merece reflexão. Estamos trocando a fundação técnica pela eficiência prática?

O Custo da CNH: A Promessa (Não Cumprida) de Barateamento
Aqui entra outro aspecto crucial, e francamente, um dos mais frustrantes para o candidato. Quando as primeiras notícias sobre a simplificação do exame surgiram, muitos esperavam uma redução imediata no custo total para tirar a carteira. Afinal, menos itens na prova prática poderiam significar menos aulas específicas, certo? Na prática, porém, a realidade é bem diferente.
O valor da Carteira Nacional de Habilitação é composto por uma série de taxas (Detran, médico, psicotécnico) e pelo pacote de aulas da autoescola. E é justamente neste último item que a expectativa esbarra na resistência do mercado. As autoescolas argumentam que, embora a baliza tenha saído do exame, o ensino do estacionamento em via pública – que agora é avaliado – requer um treinamento igualmente meticuloso e que consome tempo de aula. Além disso, o foco total no trânsito real pode, em tese, demandar um preparo ainda mais amplo do candidato para lidar com imprevistos.
O resultado? Até o momento, não há sinal de que os preços dos pacotes vão cair significativamente nos estados que adotaram as mudanças. Em alguns casos, ouvem-se rumores de que poderiam até aumentar, devido à "maior complexidade" do treinamento em vias movimentadas. Para o bolso do futuro motorista, a tão sonhada modernização pode estar se mostrando, no fim das contas, neutra – ou pior, apenas uma mudança no tipo de desafio, sem o benefício financeiro esperado.
O Futuro Já Chegou: E a Formação para Carros Elétricos e ADAS?
Se a permissão para carros automáticos já é um passo adiante, ele ainda é tímido diante do horizonte que se aproxima. O Brasil já tem uma frota crescente de carros elétricos e híbridos, e praticamente todos os veículos novos de médio para cima saem de fábrica com uma série de sistemas de assistência ao condutor, os ADAS (freio autônomo de emergência, assistente de permanência em faixa, controle de cruzeiro adaptativo).
E isso levanta uma questão inevitável: como formar um condutor para 2026 (e além) com um currículo que mal assimilou o câmbio automático? A formação atual simplesmente ignora a existência dessas tecnologias. Um candidato pode ser aprovado sem nunca ter ouvido falar sobre como um freio regenerativo funciona, qual o significado de um alerta de colisão frontal no painel, ou – ponto crucial – quais são os limites desses sistemas e a importância de o motorista manter a atenção total ao volante.
Deve haver uma aula específica sobre os recursos de segurança dos carros modernos?
O exame deveria incluir uma verificação de que o candidato sabe desativar e reativar um controle de cruzeiro?
Como avaliar a "condução defensiva" quando o carro tem sistemas que intervêm automaticamente?
Essas perguntas ainda não têm resposta, mas mostram que a reforma do exame, embora bem-vinda, é apenas o primeiro ajuste em um processo de formação que precisa de uma revisão muito mais profunda e corajosa. Estamos corrigindo o passado, mas ainda não olhamos de frente para o futuro. A sensação é de que trocamos o pneu furado, mas a viagem longa – a da verdadeira modernização pedagógica – ainda nem começou.
E enquanto o debate técnico e pedagógico segue, nas ruas a experiência do novo exame já está criando seus próprios relatos. Alguns candidatos recém-aprovados em São Paulo contam que a sensação durante a prova é, de fato, diferente. "É menos um teste de habilidade de circo e mais um teste se você não vai causar um acidente ao sair daqui", disse uma jovem aprovada na primeira tentativa, que confessou ter reprovado duas vezes na baliza no sistema antigo. Outros, no entanto, sentem falta de um "marco claro" de superação. A ansiedade migrou do pátio para o cruzamento movimentado, o que para muitos é um trade-off justo, mas para outros é apenas a troca de um tipo de pressão por outro.
O que parece claro é que a mudança joga uma luz forte sobre o verdadeiro objetivo de se tirar uma CNH. Ela é um certificado de que você é um condutor seguro para compartilhar o espaço público, ou é um diploma de que você domina um conjunto de técnicas mecânicas específicas? A resposta que os Departamentos de Trânsito estão dando, com essas reformas, parece inclinar-se decididamente para a primeira opção. Resta saber se a sociedade, o mercado de autoescolas e, principalmente, os índices de segurança viária vão concordar com essa nova definição de "motorista habilitado".
Com informações do: Quatro Rodas








