Um processo judicial de quase um milhão de dólares está colocando a Ubisoft sob os holofotes, mas não por um novo jogo. Marc-Alexis Coté, uma figura central na franquia Assassin's Creed por anos, está acionando a desenvolvedora na justiça, alegando que foi forçado a sair da empresa após um rebaixamento de cargo que ele considera uma "demissão indireta". A situação revela tensões internas em um dos estúdios mais emblemáticos da indústria, especialmente em um momento de reestruturação e desafios financeiros.

Ex-chefe de Assassin's Creed processa Ubisoft em quase US$ 1 milhão

O coração da disputa: rebaixamento ou nova oportunidade?

Marc-Alexis Coté não era um funcionário qualquer. Com 20 anos de casa, ele estava envolvido com Assassin's Creed desde o terceiro título numerado e, em 2022, assumiu a liderança do destino da franquia durante um "reboot estratégico". Seu trabalho culminou no lançamento de Assassin's Creed Shadows, um jogo que, apesar de não resolver os graves problemas financeiros da Ubisoft, foi bem recebido pela crítica e vendeu bem. Sob sua gestão, a série adotou ciclos de desenvolvimento mais longos, uma tentativa clara de se afastar da era dos lançamentos apressados e cheios de bugs que mancharam a reputação da marca.

O problema, segundo o processo, começou com a criação da Vantage Studios. Essa nova divisão, estabelecida com ajuda da Tencent, foi criada para gerir as principais franquias da empresa. E adivinhe só? Ela precisava de um novo chefe para o Assassin's Creed. Coté afirma que, ao não ser escolhido para a posição – que foi para alguém próximo ao CEO Charlie Guillemot –, ele foi efetivamente rebaixado. Para piorar, a vaga exigia residência na França, uma condição que, na prática, o impedia de concorrer a não ser que desmontasse sua vida fora do país.

A saída que não foi voluntária

A Ubisoft, conforme os documentos, teria oferecido a Coté a liderança de uma "Casa Criativa" para uma franquia de menor importância. Ele recusou. E então pediu demissão. Mas eis que a narrativa pública da empresa foi diferente: eles anunciaram que o veterano havia saído voluntariamente. Essa divergência entre a versão interna e a comunicada ao público é justamente o que alimenta o processo por demissão indireta.

Na prática, Coté argumenta que a empresa criou condições que tornaram sua permanência insustentável, forçando-o a pedir para sair. É uma manobra que, se comprovada, joga uma luz bem diferente sobre a saída de um executivo-chave. Afinal, qual é o impacto real quando um líder com duas décadas de experiência e profundo conhecimento de uma franquia é colocado de lado? A mudança para ciclos de desenvolvimento mais longos, uma das marcas de sua gestão, foi uma resposta direta ao desgaste da marca. Será que essa filosofia sobreviverá sem ele?

O processo, com seu pedido de indenização milionário, vai além de uma simples disputa trabalhista. Ele toca em questões sensíveis da indústria: a lealdade de longa data versus novas estruturas corporativas, a centralização do poder criativo, e o tratamento de veteranos em meio a reestruturações. A Ubisoft, que já enfrenta dificuldades financeiras bem documentadas, agora precisa lidar com uma batalha legal que expõe suas entranhas. O resultado pode estabelecer um precedente sobre como grandes estúdios gerenciam – ou descartam – o capital humano que construiu seus impérios.

E não é só sobre dinheiro, claro. O processo levanta uma questão que muitos na indústria preferem ignorar: o que acontece com o conhecimento institucional quando um veterano parte em circunstâncias assim? Coté carregava na memória não apenas os acertos, mas os fracassos, os testes que deram errado, as razões por trás de cada decisão de design tomada desde o Assassin's Creed III. Esse tipo de sabedoria prática, acumulada ao longo de 20 anos, simplesmente não se transfere em um documento de transição de cargo. Some-se a isso o momento peculiar: a Ubisoft está justamente tentando revitalizar sua franquia mais valiosa, e perde o arquiteto dessa revitalização.

O caso também expõe as complexas dinâmicas de poder que surgem com investimentos externos. A criação da Vantage Studios, com a Tencent como parceira, não foi uma mera reorganização interna. Foi uma mudança estratégica de governança. E quando um gigante como a Tencent entra no jogo, as cadeiras musicais na liderança costumam ser rearranjadas. A nomeação de uma figura próxima ao CEO Guillemot para comandar o Assassin's Creed dentro da nova estrutura cheira a centralização de controle, um movimento para garantir que a visão da cúpula seja executada sem ruídos. Coté, com sua longa história e possivelmente sua própria visão consolidada para a franquia, pode ter sido visto como um "ruído" em potencial nesse novo arranjo.

Um precedente para a indústria?

O que torna este caso particularmente espinhoso é o conceito jurídico de "demissão indireta" ou "demissão construtiva". Não é uma lei universal; ela varia brutalmente de país para país. No Québec, onde o processo foi aberto, a legislação trabalhista pode ser interpretada de forma a proteger o empregado quando o empregador modifica unilateralmente condições essenciais do contrato – como cargo, responsabilidades ou local de trabalho – de maneira tão substancial que torna o ambiente intolerável. A exigência de mudança para a França é, nesse contexto, uma peça-chave. Era uma condição realista para um executivo sênior com família estabelecida no Canadá? Ou foi uma barreira deliberadamente intransponível?

Se a justiça canadense acolher os argumentos de Coté, o estremecimento será sentido muito além de Montreal. Estúdios ao redor do mundo que passam por reestruturações semelhantes – e qual grande desenvolvedora não passa hoje em dia? – terão que repensar como conduzem essas transições. Oferecer um "lateralmento" para um cargo menor com um título bonito pode deixar de ser uma manobra segura para se tornar um risco legal caríssimo. A indústria de games, notória por ciclos de contratações em massa seguidas de demissões em massa, pode se ver forçada a adotar práticas mais transparentes e menos destrutivas para seu capital humano mais experiente.

E há ainda a dimensão da narrativa pública. A Ubisoft optou por anunciar a saída como uma decisão voluntária de Coté para "buscar novos desafios", o clichê corporativo de sempre. Essa versão, agora contestada judicialmente, coloca a comunicação da empresa em uma posição delicada. Foi um mal-entendido? Uma tentativa de salvar as aparências para ambos os lados? Ou uma estratégia deliberada para minimizar o impacto negativo da saída de uma figura importante? A credibilidade desses comunicados futuros, sempre tão polidos e vagos, fica sob suspeita. Os fãs e a mídia começarão a ler nas entrelinhas com muito mais cinismo.

O silêncio da Ubisoft sobre o caso, por enquanto, é ensurdecedor. A empresa se limitou a confirmar que está ciente do processo e que "não comenta sobre litígios em andamento". Mas a pressão vai aumentar. Acionistas, já nervosos com os resultados financeiros, não vão gostar de ver milhões em reservas sendo potencialmente destinados a uma indenização, sem contar os custos legais. Desenvolvedores dentro do estúdio, especialmente aqueles que trabalharam diretamente com Coté, devem estar observando o desenrolar com um misto de ansiedade e solidariedade. Afinal, se pode acontecer com um vice-presidente sênior de 20 anos de casa, o que os protege?

Enquanto isso, o desenvolvimento do próximo capítulo do Assassin's Creed, o misterioso projeto Hexe, segue seu curso sob a nova liderança. Será que a visão de Coté para esse jogo, que promete um tom mais sombrio e assustador, será mantida? Ou a nova gestão da Vantage Studios imporá sua própria direção, possivelmente descartando anos de pré-produção? A tensão entre continuidade e reinvenção, sempre presente em franquias de longa data, agora é agravada por uma disputa judicial que questiona a própria legitimidade daqueles que estão no comando. O legado de um homem está, literalmente, em jogo, e com ele, parte da alma de uma das séries mais influentes dos videogames.

Com informações do: Adrenaline