Se você achou que os preços dos SSDs e memórias estavam altos agora, prepare-se. Um anúncio recente de um dos maiores fabricantes mundiais de memória flash pintou um cenário ainda mais desafiador para os próximos anos. A Kioxia, gigante japonesa do setor, declarou que sua capacidade de produção de chips NAND está completamente comprometida até 2027. E não, isso não é um exagero de marketing – é a dura realidade de uma indústria que não consegue acompanhar a demanda voraz, especialmente da Inteligência Artificial.

Shunsuke Nakato, diretor administrativo de memórias da Kioxia, foi direto ao ponto em uma reunião com investidores. Ele afirmou que, "com o aumento do investimento relacionado à IA, a escassez na cadeia de suprimentos existe não apenas para SSDs empresariais, mas também para o mercado de consumo no geral". Em outras palavras, a febre da IA está esquentando o mercado inteiro, do data center ao seu próximo notebook. E a estratégia da empresa para lidar com isso? Priorizar clientes antigos e fiéis, não quem paga mais. Mesmo assim, os preços já estão, em média, 30% mais altos que no ano passado. Imagine o que isso significa para o custo do seu próximo upgrade.
Uma Tempestade Perfeita: IA, Energia e Capacidade de Produção
O que torna essa situação particularmente preocupante é a combinação de fatores. Nakato não vê uma desaceleração da demanda em 2027. Pelo contrário. Ele descreve um ciclo vicioso: "Há uma sensação de crise em que as empresas ficarão para trás no momento em que pararem de investir em IA, então elas não terão escolha a não ser continuar investindo". É uma corrida armamentista tecnológica, e a memória flash é a munição.

Mas não é só a demanda insaciável. O executivo também aponta "fatores de risco, como a escassez de energia nos EUA e restrições no fornecimento de fundição". A produção de chips é um processo intensivo em energia e depende de uma cadeia de suprimentos global complexa. Qualquer solavanco nesse ecossistema – um apagão, uma crise geopolítica – pode agravar ainda mais a escassez. Portanto, a previsão de preços exacerbados ao longo de 2027 parece, infelizmente, bastante plausível.
A Resposta da Kioxia: Mais Inteligência, Não Apenas Mais Fábricas
Diante desse cenário, você pode pensar: "Por que eles simplesmente não constroem mais fábricas?" É uma pergunta válida, mas a resposta da Kioxia é um pouco mais sofisticada. Em vez de apenas expandir fisicamente, a empresa está apostando pesado em otimizar o que já tem. O foco está nas gigantescas fábricas de Yokkaichi e Kitakami, no Japão.
Nakato destaca Yokkaichi, que ele chama de a maior produtora de memórias flash do mundo. O mais interessante é que esta é uma "fábrica inteligente". Todos os dias, ela coleta um colossal volume de 50TB de dados sobre seu próprio processo de fabricação. Tudo é monitorado – temperatura, pressão, rendimento de cada lote de wafers de silício. A ideia é usar análise de dados e machine learning para identificar micro-ineficiências e aumentar o rendimento (a porcentagem de chips funcionais por wafer). Um aumento de 1% ou 2% no rendimento em uma fábrica desse tamanho equivale a uma nova linha de produção inteira, sem precisar cavar um novo terreno.
É uma abordagem fascinante. Enquanto o mundo consome dados para alimentar IAs, a Kioxia usa dados para fabricar os componentes que armazenam esses dados. Um ciclo meta, se você parar para pensar.
Enquanto isso, projetos ambiciosos seguem em frente, como a parceria com a NVIDIA para desenvolver SSDs com performance extrema para servidores de IA, e a revelação do SSD de 245 TB, o maior do mundo. Essas inovações de ponta, no entanto, podem parecer distantes para o consumidor comum, que sente no bolso o impacto de estratégias de fabricantes para elevar os preços.
O que isso tudo significa para você, que só quer um SSD rápido e acessível para o seu PC? Bem, a era das promoções relâmpago em drives de 1TB por preços simbólicos pode ter ficado para trás, pelo menos por um bom tempo. A pressão no mercado de consumo é real, e a alocação de capacidade para produtos de alto desempenho empresarial tende a limitar a oferta para as prateleiras das lojas. Talvez seja hora de repensar aquela estratégia de "vou esperar baixar mais".
O Efeito Cascata: Do Data Center ao Desktop
É tentador pensar que essa escassez é um problema apenas para as grandes empresas de tecnologia, aquelas que operam data centers do tamanho de cidades. Mas a realidade é mais intrincada. A pressão começa lá em cima, sim, mas ela se propaga como uma onda por toda a cadeia. Quando um gigante como a Microsoft ou a Google precisa garantir suprimentos para seus servidores de IA, eles fecham contratos de longo prazo e compram capacidade de produção com anos de antecedência. Isso, por si só, já retira uma fatia enorme do bolo disponível.
O que sobra? É disso que se alimentam os fabricantes de SSDs para o varejo. Eles estão competindo pelas mesmas wafers de silício, pelos mesmos componentes. Só que, muitas vezes, com menos poder de barganha. Então, aquele lote de chips NAND que poderia virar 100.000 unidades de um SSD popular de 1TB acaba sendo desviado para atender a um pedido corporativo de SSDs de alta resistência. É um jogo de prioridades, e o consumidor final nem sempre está no topo da lista.
E não se engane: essa não é uma estratégia nova. Fabricantes de memória são mestres em gerenciar a oferta para sustentar os preços. Mas o que estamos vendo agora parece diferente em escala e duração. A demanda por IA não é uma modinha passageira; é uma mudança estrutural na forma como a tecnologia consome e processa dados. E memória é o combustível essencial.

Além da Kioxia: Um Mercado em Transformação
Claro, a Kioxia não é o único player no tabuleiro. O que ela está dizendo, no entanto, ecoa sentimentos que circulam pelo setor há meses. A SK Hynix e a Samsung, suas principais concorrentes, também estão realocando investimentos. Há um movimento claro de migração de parte da capacidade de produção de memória DRAM (a usada em RAM) para a mais lucrativa HBM (High Bandwidth Memory), essencial para aceleradores de IA como as GPUs da NVIDIA.
Isso cria um efeito colateral interessante. Enquanto a atenção e os recursos vão para HBM e para NAND de alto desempenho empresarial, a produção dos chips mais comuns – aqueles que vão para SSDs SATA básicos ou memórias DDR4 – pode ficar em segundo plano. É como se a indústria estivesse se dividindo em dois caminhos: um de altíssima performance (e alto custo) para a nuvem e a IA, e outro mais lento e apertado para o resto de nós.
E aí entra outra variável crucial: a consolidação. A fusão proposta entre a Kioxia e a Western Digital, sua parceira de longa data, está parada há tempos devido a questões regulatórias. Uma fusão criaria um gigante capaz de competir de frente com a Samsung, possivelmente trazendo mais estabilidade e capacidade de investimento. Enquanto isso não se resolve, as duas empresas podem estar operando com certa cautela, hesitando em fazer investimentos bilionários em nova capacidade que poderiam ser redundantes no futuro. Essa incerteza só adiciona mais pressão ao sistema já sobrecarregado.
Na prática, isso se traduz em menos opções nas prateleiras e menos competição agressiva por preço. Lembra daquela guerra de preços entre marcas que fazia o custo por gigabyte despencar ano após ano? Pois é. Esse cenário pode estar dando lugar a um período de "gestão responsável da oferta", um eufemismo corporativo para preços mais firmes.
O Consumidor no Meio do Fogo Cruzado
Então, o que fazer? Esperar até 2028? A situação é frustrante, especialmente para quem planeja um upgrade ou monta um PC novo. A memória e o armazenamento, que costumavam ser itens onde se conseguia um ótimo custo-benefício, voltaram a ser componentes estratégicos no orçamento.
Algumas pessoas estão adotando uma postura mais pragmática. Em vez de esperar por uma promoção milagrosa no SSD de 2TB de última geração, estão considerando configurações mistas. Um SSD NVMe menor e rápido para o sistema operacional e aplicativos críticos, combinado com um SSD SATA ou mesmo um HDD de maior capacidade para armazenamento em massa de arquivos. Não é o ideal em termos de performance pura, mas pode ser um remédio amargo para o bolso.
Outra tendência que pode ganhar força é a valorização do mercado de usados e de marcas menos conhecidas ("white label") que conseguem fontes alternativas de chips. Claro, isso vem com seus próprios riscos em termos de garantia e confiabilidade a longo prazo. É uma troca: você paga menos agora, mas assume uma incerteza maior.
O pior cenário, na minha opinião, é se acomodar e achar que "vai passar". A declaração da Kioxia é um sinal de alerta claro. Quando um dos maiores fabricantes do mundo diz que está com a capacidade esgotada por três anos, não é um blefe para inflacionar preços no próximo trimestre. É um diagnóstico de uma mudança profunda no mercado. Ignorar isso pode significar pagar um preço ainda mais alto – literalmente – lá na frente.
E você, já sentiu o impacto no seu bolso? Notou que as "super promoções" de SSDs estão mais raras, ou que os preços de lista parecem ter encontrado um novo patamar? A sensação no fórum é de que a era do armazenamento barato e abundante deu uma pausa. Resta saber se é uma pausa longa ou uma mudança permanente. Enquanto isso, a corrida por dados, e pela memória para guardá-los, só acelera.
Com informações do: Adrenaline








