Se você acha que já viu Doom rodando em tudo que é lugar, prepare-se para mais uma façanha que desafia o bom senso. Um desenvolvedor, conhecido como Arin-S, conseguiu executar o clássico jogo de tiro em primeira pessoa em um par de fones de ouvido sem fio. Sim, você leu certo: fones de ouvido. E o detalhe mais intrigante? Eles não têm tela. Isso mesmo, a ação precisa ser transmitida para outro dispositivo. É um daqueles projetos que mistura engenhosidade técnica com uma pitada de loucura, e eu, particularmente, adoro ver esse tipo de coisa.

O hardware improvável: PineBuds Pro

Para começar, não é qualquer fone de ouvido que serve para essa empreitada. Atualmente, essa adaptação bizarra de Doom só funciona nos PineBuds Pro. Por quê? Bom, segundo o próprio Arin-S, eles são os únicos fones de ouvido com firmware de código aberto disponível. Isso dá ao desenvolvedor o controle total necessário para fazer as modificações malucas que a ideia exige.

E quando falamos em poder de processamento, os PineBuds Pro são surpreendentemente capazes. Escondido dentro daquela carcaça compacta, junto com os drivers de áudio e a bateria, há um processador Arm Cortex-M4F. Não é exatamente um monstro para jogos modernos, mas para um fone, é impressionante. Arin-S não se contentou com o padrão, claro. Ele modificou o firmware para aumentar a frequência do processador de 100 MHz para 300 MHz – um aumento de 300%! Para garantir o melhor desempenho possível com Doom, ele também desativou o modo de baixo consumo. Afinal, quem precisa economizar bateria quando você está matando demônios?

Vídeo demonstrando Doom rodando nos fones. Fonte: Arin-S.

Superando os limites de RAM e armazenamento

Agora, os desafios reais começam. Fones de ouvido não são exatamente conhecidos por sua abundância de RAM ou armazenamento, e os PineBuds não fogem à regra. O arquivo WAD da versão shareware do Doom 1 tem cerca de 4,2 MB, mas o armazenamento disponível nos fones é de apenas 4 MB. Já podemos ver o problema, não é?

Arin-S precisou ser criativo. Primeiro, ele usou recursos do Doom já modificados por outros entusiastas para otimizar o espaço, reduzindo o tamanho do arquivo para 1,7 MB. Mas ainda era muito. A solução foi uma série de otimizações de baixo nível que soam como magia para quem não é da área: "pre-gerando tabelas de consulta, tornando variáveis constantes, lendo variáveis constantes da memória flash, desativando o sistema de cache do Doom e removendo variáveis desnecessárias". No final, ele conseguiu fazer o jogo rodar com menos de 1 MB. É uma lição de eficiência que muitos desenvolvedores de software moderno poderiam aprender.

Diagrama ou foto dos PineBuds Pro abertos, mostrando os componentes internos

O maior desafio: jogar sem tela

E aí chegamos no elefante na sala: como diabos você joga um game que é 100% visual em um dispositivo sem tela? Essa foi a parte mais engenhosa do projeto. Arin-S decidiu usar a conexão UART dos PineBuds Pro (a única outra opção seria o Bluetooth) para transmitir os gráficos do jogo para um computador ou outro dispositivo.

Mas não foi simples. Uma combinação de limitações de largura de banda, complicações com compressão de imagem e a carga no processador Cortex-M4F resultou em uma taxa máxima de cerca de 18 quadros por segundo (fps). Em teoria, deveria ser próximo de 25 fps, mas o desenvolvedor acredita que a CPU simplesmente não tinha potência suficiente para acompanhar a conversão do fluxo de vídeo MJPEG nessa taxa. Ainda assim, 18 fps em um fone de ouvido é algo para se comemorar.

Captura de tela do código ou interface de streaming do jogo a partir dos fones

Quer tentar você mesmo? (Ou só assistir)

A boa notícia é que Arin-S compartilhou todos os recursos necessários no GitHub para quem quiser configurar e executar Doom em seus próprios PineBuds Pro. É um convite aberto para a comunidade de entusiastas. Mas digamos que você não tenha um par desses fones específicos (o que é bem provável). E agora?

O desenvolvedor, num gesto generoso, criou um site que transmite jogos de Doom diretamente de seus próprios PineBuds Pro. Você pode acessar e ver a maluquice em ação. Só tem um pequeno detalhe: o site ficou tão popular que agora há uma fila de espera para participar de uma partida online. É um problema bom de se ter, eu acho, mas mostra o quanto as pessoas são fascinadas por esses experimentos absurdos.

Vídeo no YouTube mostrando o projeto em detalhes.

E aí, o que você acha? É pura genialidade ou só uma perda de tempo muito bem executada? Para mim, projetos como esse são a essência da cultura "maker" e da computação criativa. Eles não buscam resolver um problema prático, mas sim explorar os limites do que é possível, muitas vezes com hardware que nunca foi projetado para tal fim. Enquanto a fila no DoomBuds.com existir, fica claro que não sou o único que acha isso fascinante.

Mas vamos pensar um pouco além da mera curiosidade técnica. O que esse projeto realmente representa? Para mim, ele é um lembrete poderoso de como a computação embarcada evoluiu. Um processador Cortex-M4F, que hoje é considerado um componente modesto para wearables, tem mais poder de processamento do que muitos computadores que rodavam Doom originalmente nos anos 90. É uma inversão de valores fascinante: o hardware se tornou tão ubíquo e potente que agora o desafio não é mais "fazer rodar", mas sim "fazer rodar no lugar mais inusitado possível".

A cultura do "Rodar Doom em Tudo" e seu legado

Esse feito dos PineBuds Pro não existe no vácuo. Ele é apenas o mais recente capítulo de uma tradição muito peculiar da comunidade de tecnologia: a de fazer Doom rodar em qualquer coisa com um chip. Já vimos o jogo em calculadoras gráficas, caixas registradoras, câmeras digitais, smartwatches e até no visor de uma máquina de lavar louça. Por que Doom, especificamente? A resposta é uma combinação de fatores.

Primeiro, o código-fonte do jogo foi liberado publicamente em 1997, sob uma licença que permitia modificações. Isso criou uma base aberta para experimentação. Segundo, ele é um jogo 3D "verdadeiro" para a época, com um motor que pode ser adaptado e otimizado de maneiras criativas. E terceiro, há um fator cultural inegável. Tornou-se um troféu, um marco de habilidade técnica. Conseguir fazer Doom rodar em um novo dispositivo é como dizer: "Olha, dominei essa plataforma a ponto de fazer algo completamente fora do seu propósito original". É uma forma de hackear não só o hardware, mas também as expectativas.

Colagem de imagens mostrando Doom rodando em outros dispositivos inusitados, como calculadora e smartwatch

E isso me leva a uma reflexão. Enquanto a indústria de games persegue gráficos com ray tracing em 8K, há uma comunidade paralela que encontra diversão e desafio no extremo oposto: na restrição absoluta. A limitação de RAM, a falta de uma tela, a conexão lenta – tudo isso vira parte do quebra-cabeça. É quase uma arte. Arin-S não estava tentando criar a experiência definitiva de Doom; ele estava resolvendo um problema autoimposto, e a jornada, com todos os seus obstáculos, era o verdadeiro objetivo.

O que mais podemos esperar? O futuro dos "hacks" absurdos

Então, para onde vai essa tendência? Se Doom já rodou em fones de ouvido, o que vem a seguir? A pergunta quase se responde sozinha. Com a Internet das Coises (IoT) colocando microcontroladores em lâmpadas, fechaduras, escovas de dente e vasos de planta, o playground para os entusiastas só aumenta. Já imaginaram uma partida de Doom sendo controlada pela intensidade da luz de uma lâmpada inteligente? Ou o jogo rodando no display minúsculo de um termostato?

O próprio Arin-S deu uma dica do próximo nível em um fórum. Ele mencionou que, em teoria, seria possível usar o acelerômetro dos PineBuds Pro como controle de movimento para o jogo. Você inclinaria a cabeça para mirar e piscaria para atirar? Seria terrivelmente imprático e provavelmente daria uma dor no pescoço terrível, mas a ideia por si só já é hilária e tentadora. É esse espírito de "porque podemos" que impulsiona a inovação, mesmo que seja uma inovação completamente inútil no sentido prático.

Além disso, projetos como esse servem como um excelente campo de treinamento. As otimizações de código de baixo nível que Arin-S implementou – aquelas mágicas com variáveis constantes e memória flash – são habilidades transferíveis. Um desenvolvedor que aprende a espremer cada byte de performance de um Cortex-M4F para rodar um jogo está se preparando brilhantemente para trabalhar com o firmware de dispositivos IoT onde eficiência energética e de recursos é crítica. O que começa como um hobby bizarro pode muito bem moldar a próxima geração de engenheiros de sistemas embarcados.

O microcontrolador por trás da mágica e seu potencial.

E não podemos ignorar o aspecto social. O site DoomBuds.com, com sua fila de espera, virou um ponto de encontro. As pessoas não estão lá apenas para ver um jogo; estão lá para testemunhar um evento, para fazer parte de uma piada interna da comunidade tech. É um fenômeno cultural digital. Quantas vezes você vê uma fila para acessar um site que transmite um jogo de 30 anos atrás de um fone de ouvido? Essa reação orgânica mostra que há uma fome genuína por criatividade e ingenuidade pura, longe dos algoritmos e do conteúdo produzido em massa.

No fim das contas, talvez a pergunta certa não seja "Por que fazer isso?", mas "Por que não?" Em um mundo onde a tecnologia muitas vezes nos é apresentada como uma caixa preta, perfeita e intocável, há uma beleza profunda em abri-la, remexer suas entranhas e forçá-la a fazer algo alegremente inapropriado. O projeto do Arin-S é um convite para essa desobediência criativa. E, olhando para a fila no site e a repercussão nas redes sociais, parece que muita gente aceitou o convite.

Com informações do: Adrenaline