O mercado brasileiro de carros elétricos ganha um novo e interessante concorrente, mas ele vem com uma identidade um tanto quanto dividida. O Chevrolet Captiva EV, que chega por R$ 199.990, é na verdade um Wuling Starlight S chinês, vestido com a gravata da Chevrolet e algumas alterações estéticas. A estratégia da General Motors parece clara: usar a força de sua marca consagrada no Brasil para introduzir produtos competitivos vindos da China, disputando espaço com BYD, Geely e outras. Mas será que essa fórmula funciona na prática? Tive a oportunidade de dirigir o modelo em primeira mão, e as impressões são, no mínimo, curiosas.

Chevrolet Captiva EV visto de frente

Uma identidade em conflito: o design do Captiva EV

De cara, o Captiva EV tenta disfarçar suas origens. A frente recebeu uma faixa preta conectando os faróis superiores e uma abertura de grade maior, mas mantém a separação dos faróis, uma característica marcante de muitos modelos chineses. A traseira, no entanto, é onde a magia acontece. As lanternas têm um formato que remete diretamente a modelos globais da GM, como o Equinox ou o Traverse. É um trabalho de *rebadging* que, de lado, passa despercebido. Você realmente precisa saber que está procurando um carro chinês para notar.

O que não passa despercebido são as dimensões. O SUV é grande. Com 4,74 metros de comprimento, ele se aproxima de um Jeep Commander, o que é uma surpresa considerando sua proposta de preço. As linhas laterais são limpas, e as rodas de 18 polegadas preenchem bem os vãos. No geral, a sensação é de um veículo robusto e bem assentado, longe do visual mais delicado de alguns compactos.

Detalhe da traseira do Chevrolet Captiva EV

Interior: espaço de sobra, personalidade de menos

Ao entrar no Captiva EV, a sensação de "carro chinês" some, mas é substituída por uma outra: a de "carro genérico". O painel segue a tendência atual de linhas horizontais, console central elevado e telas gigantes. É um layout que você já viu em dezenas de outros modelos, de diversas marcas. Para compensar a falta de identidade própria, a Chevrolet apostou no acabamento. E, nesse ponto, acertou.

Materiais emborrachados de toque agradável e revestimentos acolchoados cobrem boa parte do painel. Os detalhes em um tom de aço escovado bronze quebram o preto dominante e dão um toque de sofisticação. É um interior que, em termos de qualidade percebida, fica acima do que se espera na faixa de preço de R$ 200 mil. O espaço, como era de se imaginar pelas dimensões externas, é excelente. No banco traseiro, até passageiros altos viajam com conforto, e o assoalho plano facilita a vida de um quinto ocupante.

Painel e interior do Chevrolet Captiva EV

A tecnologia vem com uma tela multimídia colossal de 15,6 polegadas e um quadro de instrumentos digital de 8,8 polegadas. Android Auto e Apple CarPlay estão presentes, mas só funcionam via cabo, uma falta notável nos dias de hoje. A lista de equipamentos é generosa: teto solar panorâmico, câmera 360°, ACC, frenagem automática de emergência e assistente de faixa. Por outro lado, faltam itens que já se tornam comuns, como alerta de ponto cego, carregador por indução e sensores dianteiros. É uma equação de custo-benefício que prioriza o essencial, mas deixa alguns mimos de fora.

Como ele se comporta na estrada?

Aqui está uma das maiores surpresas. Dirigir o Captiva EV é uma experiência... desproporcionalmente fácil. Com seus 1.800 kg e mais de 4,7 metros, você esperaria um veículo pesado e pouco ágil. A realidade é outra. O motor elétrico dianteiro, com 201 cv e 31,6 kgfm de torque, oferece uma aceleração linear e vigorosa. Em modo Sport, ele até destraciona as rodas dianteiras. A direção é leve e direta, tornando manobras urbanas simples.

Chevrolet Captiva EV em movimento

A suspensão, ligeiramente mais firme, é outro acerto. Em vez da flutuação "gelatinosa" que alguns SUVs chineses apresentam, o Captiva EV se mostra estável e composto. Você sente a suspensão trabalhar em buracos, mas sem que o conforto seja prejudicado. É um ajuste que inspira confiança em curvas e em estradas de pior qualidade. A bateria de 60 kWh promete uma autonomia homologada de 304 km (Inmetro), que na cidade pode ser cerca de 30% maior. O carregamento rápido pode chegar a 120 kW.

E aí, o que a estratégia da GM nos diz? Em um mercado onde a procedência chinesa ainda gera desconfiança em parte dos consumidores, vestir um produto competitivo com a camisa de uma marca tradicional como a Chevrolet parece um movimento inteligente. O Captiva EV não tenta ser o mais tecnológico ou o mais luxuoso. Ele tenta ser o mais sensato: oferecendo espaço, conforto, um acabamento honesto e uma experiência de direção tranquila por um preço que compete com SUVs a combustão bem equipados. A montagem nacional, que começa ainda em 2025 no Ceará, deve ser o argumento final para quem ainda hesita.

Mas fica a pergunta: até que ponto os consumidores vão valorizar a essência chinesa por trás do símbolo da Chevrolet? A resposta pode definir não só o futuro deste modelo, mas de toda uma nova leva de veículos que estão por vir.

Mas vamos além da primeira impressão. O que realmente significa ter um carro com essa "dupla personalidade" no dia a dia? Em minha experiência, a sensação é estranhamente familiar. Você senta, dirige, e o carro simplesmente funciona – e bem. A ausência de ruído do motor a combustão, combinada com o bom isolamento acústico, cria uma cápsula de serenidade que rivaliza com modelos mais caros. A potência do motor elétrico é entregue de forma tão linear e imediata que você quase esquece que está pilotando um veículo de quase duas toneladas. É uma espécie de ilusão agradável.

O desafio da conectividade e dos detalhes práticos

Agora, vamos falar dos pontos que fazem você coçar a cabeça. A exigência do cabo para o Android Auto e Apple CarPlay, por exemplo, é um retrocesso irritante em 2025. Em um carro que se propõe moderno, esperar que o usuário ainda precise lidar com fios soltos no console é, no mínimo, uma escolha de projeto questionável. E não é só isso. A interface da tela de 15,6 polegadas, apesar do tamanho impressionante, pode ser um tanto lenta para responder a certos comandos. Não é um travamento, mas uma lentidão perceptível que quebra um pouco a fluidez da experiência.

Outro detalhe que notei: o sistema de som. É decente, claro, mas falta aquele "punch" e a clareza que você encontra em sistemas premium. Para uma viagem longa, pode ser um fator a considerar. E o porta-copos? Bem posicionados, mas um pouco rasos para garrafas de água maiores. São pequenas coisas, eu sei, mas são justamente esses detalhes que diferenciam um bom carro de um carro que você ama usar todos os dias.

O elefante na sala: a concorrência direta

Colocar o Captiva EV na vitrine ao lado de seus rivais é um exercício revelador. Pegue o BYD Song Plus EV, por exemplo. O chinês "puro sangue" oferece uma tecnologia talvez mais integrada e uma sensação de produto mais coeso, mas será que o público médio brasileiro, aquele que cresceu vendo Chevrolets nas ruas, vai se sentir mais seguro com o emblema da gravata? É um jogo psicológico fascinante.

E o Geely Monjaro? Ou o futuro Leapmotor C10? A briga não será apenas por especificações técnicas em uma tabela. Será por confiança, por rede de concessionárias, pelo famoso "pós-venda". A GM joga nesse campo com uma vantagem histórica enorme. Mas será que isso basta quando o produto em si carrega o DNA de outra empresa? A montadora está basicamente dizendo: "Confie na nossa camisa, nós selecionamos o melhor produto para você". É uma aposta alta.

Falando em pós-venda, a promessa de montagem nacional no Ceará é um trunfo que não pode ser subestimado. Implica em maior controle de qualidade (pelo menos em teoria), peças de reposição potencialmente mais acessíveis e um discurso político-econômico atraente. Para o consumidor que ainda torce o nariz para "produto chinês", saber que o carro será montado aqui pode ser o argumento decisivo que fecha a venda. Transforma uma importação em um produto "nacionalizado".

Uma reflexão sobre o futuro do mercado

O que o Captiva EV representa, no fundo, é a aceleração de um processo inevitável: a globalização definitiva da indústria automotiva. As marcas tradicionais já não são mais fechadas em seus ecossistemas. Elas são curadoras, integradoras de tecnologias e plataformas de várias partes do mundo. A GM não está apenas vendendo um Wuling; está vendendo uma curadoria, uma garantia, um filtro.

Isso me faz pensar: será que estamos prestes a ver uma nova hierarquia? Em vez de marcas "premium" e "populares", teremos marcas "integradoras globais" (como GM, VW, Toyota) versus marcas "fabricantes especialistas" (como BYD, Nio, Leapmotor)? O consumidor final ganha com essa guerra, é claro. Ganha em preço, em opções, em tecnologia que chega mais rápido.

Mas também perde um pouco da narrativa romântica da marca. O que é um Chevrolet no século XXI? É o muscle car V8, é a picape robusta, é o utilitário familiar... e agora também é um SUV elétrico chinês de design genérico mas muito competente. Conseguirão essas identidades tão distintas coexistir sob o mesmo emblema sem causar um ruído na percepção do cliente? A resposta não está nos gabinetes de marketing, mas nas ruas, nos estacionamentos, na boca do povo.

Dirigi o Captiva EV por um bom tempo, e uma coisa ficou clara: ele é, acima de tudo, um produto muito racional. Não vai te dar frio na barriga. Não vai virar cabeças no farol. Mas vai te levar do ponto A ao ponto B com um conforto silencioso, um espaço generoso para a família e um custo por quilômetro que faz sorrir. Num mercado que ainda busca desesperadamente por "o elétrico acessível e prático", essa pode ser a fórmula exata do sucesso. A questão que fica pairando no ar, no entanto, é mais profunda: ao comprar um Captiva EV, você está abraçando o futuro globalizado da indústria ou apenas alugando a nostalgia de uma marca do passado para se sentir seguro em uma nova jornada?

Com informações do: Quatro Rodas