Pedro Pertusi, o grande vencedor do torneio de Pokémon TCG no Latin America International Championships (LAIC) de 2026, não está apenas comemorando sua vitória. Em entrevista, o campeão usou o momento para fazer um apelo direto à organização do jogo no país, pedindo por uma expansão no calendário competitivo e, de forma mais contundente, por maior transparência em decisões que afetam a comunidade, como o recente caso envolvendo o jogador Gabriel Fernandez.
Para quem não está por dentro do cenário, o LAIC é um dos eventos mais importantes do calendário oficial de Pokémon na região, reunindo os melhores jogadores de vários países. Ganhar lá não é brincadeira. Mas o que Pertusi tem a dizer vai muito além do troféu.
O apelo por mais oportunidades e um cenário mais forte
O ponto central da fala de Pertusi é claro: o Brasil precisa de mais torneios regionais de alto nível. "A gente tem talento de sobra aqui", ele comenta, "mas o número de eventos que realmente valem pontos para o circuito mundial ainda é limitado se a gente comparar com outras regiões".
E ele tem razão. Muitos jogadores brasileiros enfrentam custos altíssimos para viajar para os poucos grandes torneios no país ou até mesmo para o exterior. Mais regionais significariam mais chances para novos talentos surgirem, sem precisar bancar uma viagem de avião a cada competição. É uma questão de acessibilidade que pode elevar o nível técnico de todo o cenário nacional.
Imagine só: um jogador promissor de Manaus ou do interior de Minas ter a chance de disputar um torneio relevante sem sair da sua região. Faz toda a diferença.
A sombra do caso Gabriel Fernandez e a demanda por clareza
Agora, a parte mais espinhosa da entrevista. Pertusi tocou em um assunto que tem gerado burburinho e certa desconfiança na comunidade: a falta de transparência em decisões disciplinares, usando como exemplo o caso do jogador Gabriel Fernandez.
Sem entrar em detalhes específicos – porque, bem, essa é justamente a crítica –, casos de supostas infrações ou penalizações muitas vezes são tratados de forma opaca. A comunidade fica sabendo que um jogador foi banido ou punido, mas os motivos concretos, as evidências, o processo... tudo isso fica num vácuo de informação.
"Isso cria um clima de especulação e insegurança", argumenta Pertusi. "Os jogadores não sabem exatamente onde está a linha, o que pode ou não pode. Uma comunicação mais clara sobre as regras e as consequências de quebrá-las é fundamental para um ambiente competitivo justo e saudável."
É um ponto de vista que faz muito sentido. Transparência constrói confiança. Quando as regras do jogo – e as punições por infringi-las – são claras para todos, todo mundo compete em pé de igualdade. A sensação de que decisões arbitrárias podem acontecer a qualquer momento é desgastante para qualquer cenário competitivo.
O que esperar do futuro?
É interessante ver um campeão usar seu momento de glória para falar sobre o coletivo. Pertusi não está apenas pensando na sua própria trajetória, mas no ecossistema do Pokémon TCG no Brasil como um todo. Suas críticas são construtivas, apontando caminhos para um cenário mais robusto, acessível e, acima de tudo, justo.
Será que a The Pokémon Company International (TPCI) vai ouvir? A expansão do calendário envolve logística e investimento. Já a maior transparência em casos disciplinares é, em tese, uma mudança mais simples de protocolo, mas que esbarra em políticas corporativas e questões legais.
De qualquer forma, o debate está posto. E ter a voz de um campeão recente ecoando essas preocupações dá um peso diferente à discussão. O sucesso no tabuleiro agora se transforma em uma plataforma para discutir o futuro do jogo fora dele. Resta saber se outras vozes da comunidade vão se juntar ao coro e, principalmente, se haverá uma resposta das organizadoras.
Mas vamos pensar um pouco mais sobre esse cenário. Você já parou para considerar como a falta de torneios regionais afeta a formação de novos jogadores? Sem uma escada de competições acessíveis, muitos talentos podem nunca sequer descobrir que têm potencial para competir em nível internacional. É como tentar escalar um prédio sem os andares intermediários – possível, mas absurdamente mais difícil e desencorajador.
E não se trata apenas de quantidade, mas de distribuição geográfica. O Brasil é continental, e concentrar eventos apenas nas capitais do Sudeste acaba excluindo uma parcela enorme da população. Um jogador do Nordeste ou do Norte que queira testar suas habilidades em um ambiente oficial muitas vezes precisa encarar despesas que simplesmente não cabem no orçamento. Isso cria um viés no cenário competitivo, onde só consegue brilhar quem já tem certa condição financeira. Não deveria ser assim, concorda?
O custo invisível da competição
Falando em dinheiro, é um tópico que raramente é abordado de frente. Competir em alto nível no Pokémon TCG não é barato. Além das viagens e hospedagem, há o custo dos próprios decks. Metas competitivas mudam, cartas-chave ficam caríssimas no mercado secundário, e manter uma coleção atualizada é um investimento constante. Para um jovem de 16 anos apaixonado pelo jogo, isso pode ser uma barreira intransponível.
Em minha experiência acompanhando torneios locais, já vi jogadores talentosíssimos desistirem porque simplesmente não conseguiam bancar a ida para um regional decisivo. Eles tinham a habilidade, mas faltava o recurso. Mais eventos regionais, especialmente em cidades menores, ajudariam a diluir esse custo. Em vez de uma viagem cara por ano, o jogador poderia participar de três ou quatro torneios mais próximos, com o mesmo valor. A matemática é simples, mas o impacto seria enorme.
E tem outro aspecto: a pressão. Quando você só tem uma ou duas chances por ano de pontuar para um mundial, cada rodada do torneio vira um momento de tensão extrema. Um erro bobo, uma má jogada de sorte, e todo o investimento (financeiro e emocional) vai por água abaixo. Com mais eventos, essa pressão diminui. O jogador pode errar, aprender, se recuperar. O ambiente se torna mais saudável, menos punitivo.
Transparência: mais do que apenas comunicados
Voltando ao caso mencionado por Pertusi – a questão da transparência –, acho que vale cavar um pouco mais fundo. O que exatamente a comunidade espera? Não se trata apenas de saber quem foi punido, mas de entender o *processo*. Como uma denúncia é investigada? Quais são os critérios para uma decisão? Existe um direito de defesa? Há possibilidade de recurso?
Quando essas informações ficam nebulosas, abre-se espaço para todo tipo de problema. Teorias da conspiração começam a circular. Jogadores ficam com medo de serem penalizados por coisas que nem sabiam que eram proibidas. E, pior, aqueles que realmente infringem as regras podem não entender a gravidade de seus atos, porque as consequências nunca são claramente demonstradas.
Pense em outros esportes ou jogos competitivos. No futebol, você sabe exatamente o que leva a um cartão vermelho. No xadrez, as regras contra conduta antidesportiva são públicas. Por que no cenário de TCG deveria ser diferente? Uma política clara de conduta, com exemplos e sanções bem definidas, não protegeria apenas a integridade do jogo, mas também os próprios jogadores.
Aliás, essa opacidade pode até desencorajar pessoas de denunciarem comportamentos inadequados. Se você não sabe como a denúncia será tratada, ou se teme que nada vá acontecer – ou pior, que sofra retaliação –, é mais fácil simplesmente ficar quieto. E aí o ambiente competitivo todo sai perdendo.
O papel das comunidades locais e das lojas
Enquanto a TPCI não se pronuncia ou toma uma atitude, o que pode ser feito? Aqui entra um ator muitas vezes subestimado: as comunidades locais e as lojas especializadas. Muitas já organizam torneios semanais, ligas e eventos menores. Esses espaços são vitais. São onde novos jogadores aprendem, onde amizades são feitas, onde o amor pelo jogo é cultivado.
Mas essas iniciativas locais poderiam ser melhor integradas ao circuito oficial? Talvez com um sistema de pontuação regional que alimentasse um ranking nacional, ou com eventos satélites que dessem vaga para os regionais maiores. Seria uma forma de descentralizar e dar valor ao trabalho que já está sendo feito na base.
Conheço uma loja em uma cidade do interior de São Paulo que, por conta própria, criou um circuito interno com premiação e tudo. Os jogadores são fiéis, o nível técnico aumentou visivelmente, e alguns até se aventuraram em torneios maiores. Imagine se esse esforço fosse reconhecido e potencializado pela organização oficial. O efeito multiplicador seria impressionante.
E isso nos leva a uma pergunta incômoda: a TPCI enxerga o Brasil apenas como um mercado consumidor de cartas, ou como um berço de talentos competitivos que precisa ser nutrido? A forma como ela responde (ou não) aos apelos de um campeão como Pertusi vai dar a resposta.
O silêncio, nesse caso, também é uma resposta. E não das mais animadoras. Enquanto isso, jogadores continuam treinando, comunidades seguem se organizando, e o debate sobre o futuro do Pokémon TCG no país ganha mais um capítulo – ainda sem um final à vista.
Com informações do: IGN Brasil








