Um marco inesperado e, para muitos, impensável, foi alcançado pela franquia Call of Duty em 2024. Pela primeira vez em dez anos, um novo lançamento da série não conseguiu se posicionar entre os cinco jogos mais baixados do ano. Call of Duty: Black Ops 7, o mais recente capítulo da popular série de tiro em primeira pessoa, não figurou no pódio digital, levantando questões sobre o estado atual da franquia e o apetite dos jogadores.

O que levou a essa queda inédita?

A notícia pegou a comunidade de jogos de surpresa. Por uma década, a presença de um Call of Duty no top 5 de downloads era quase uma lei da natureza no mercado de games – tão previsível quanto o lançamento anual do título. A ausência do Black Ops 7 dessa lista exclusiva quebra uma sequência impressionante e sinaliza uma possível mudança no cenário competitivo. Será que o público está começando a sentir a fadiga da fórmula anual? Ou a concorrência simplesmente ofereceu experiências mais cativantes neste ano específico?

É importante considerar o contexto. O mercado de jogos digitais está mais saturado e diversificado do que nunca. Títulos de serviço contínuo (live service), como Fortnite e Apex Legends, mantêm um engajamento massivo constante, enquanto lançamentos de outras franquias gigantescas e surpresas independentes disputam a atenção dos jogadores. O espaço no topo tornou-se um campo de batalha feroz.

Além dos downloads: o debate sobre o uso de IA

O lançamento do Black Ops 7 não foi isento de polêmicas que podem ter influenciado sua recepção. O jogo se tornou alvo de críticas, inclusive de figuras públicas, devido à alegação de uso extensivo de inteligência artificial (IA) em sua produção. Um congressista dos Estados Unidos chegou a criticar publicamente o jogo, conforme relatado pela IGN Brasil, destacando preocupações éticas e de qualidade relacionadas à suposta implementação de IA para tarefas tradicionalmente humanas, como dublagem e design.

Essa controvérsia criou uma nuvem sobre o lançamento. Para uma parte dos fãs, a percepção de que a experiência poderia ser "menos autêntica" ou que empregos na indústria estariam sendo substituídos por algoritmos gerou um sentimento de desconfiança. Em um ano repleto de opções, qualquer fator negativo pode ser o empurrão que leva um jogador a escolher um concorrente.

Um sinal de alerta ou apenas um ano atípico?

É tentador ver este evento como um ponto de virada para a franquia, mas é preciso cautela. A Activision, publicadora da série, ainda não se pronunciou oficialmente sobre os números de download ou as críticas. A performance comercial total do jogo, incluindo vendas físicas e microtransações dentro do jogo (que são uma fonte de receita colossal para a série), pode contar uma história diferente.

No entanto, ignorar o simbolismo deste marco seria um erro. Ele demonstra, no mínimo, que a hegemonia absoluta de Call of Duty no espaço digital não é mais garantida. A franquia agora precisa competir em pé de igualdade com uma nova geração de títulos que nasceram na era digital. A recepção ao Black Ops 7 pode forçar uma reflexão interna sobre o ciclo de desenvolvimento anual, a inovação de gameplay e a relação com a comunidade. O que os jogadores realmente querem do próximo Call of Duty? Mais do mesmo já não parece ser uma resposta suficiente para garantir um lugar no topo.

Olhando para os números mais de perto, a situação talvez seja mais matizada do que parece à primeira vista. Dados de algumas plataformas sugerem que o Black Ops 7 pode ter tido um lançamento forte em termos de vendas prévias e físicas, mas uma queda acentuada no engajamento digital nas primeiras semanas. Isso aponta para um fenômeno interessante: um núcleo duro de fãs ainda compra no dia um, mas a capacidade do jogo de atrair jogadores casuais ou que pulam de título em título – justamente o público que impulsiona os números de download – parece ter diminuído.

E aí entra um fator crucial: o peso da campanha solo. Tradicionalmente um dos pilares da franquia, a campanha do Black Ops 7 foi recebida com críticas mistas. Enquanto alguns elogiaram seus momentos de ação cinematográfica, outros acharam a narrativa confusa e menos impactante que a de seus predecessores. Para um jogador que está em dúvida entre gastar seu tempo e dinheiro, uma campanha mediana pode ser o fator decisivo para pular o lançamento, especialmente quando a experiência multiplayer principal parece uma evolução incremental da do ano anterior.

A sombra dos gigantes do "live service" e a fadiga do passe de batalha

Não dá para falar do desempenho digital sem olhar para os elefantes na sala: Fortnite, Roblox, Apex Legends e, mais recentemente, títulos como Helldivers 2. Esses jogos dominam a conversa não só no lançamento, mas constantemente. Eles são plataformas em constante evolução, com atualizações semanais, eventos crossover e uma economia de conteúdo criado pelo usuário que mantém os jogadores presos por anos. O modelo anual do Call of Duty, por outro lado, quase que "reinicia" a experiência a cada outubro. Você constrói seu arsenal, seus camuflagens, seu progresso... e então um novo jogo chega e o ciclo recomeça. Essa sensação de começar do zero todo ano, que antes era excitante, agora pode parecer cansativa para muitos.

O próprio passe de batalha do Call of Duty, uma vez uma inovação revolucionária, agora parece um tanto engessado comparado aos sistemas de recompensa e progressão de seus concorrentes. A comunidade frequentemente reclama da qualidade cosmética dos itens e da sensação de "trabalho" para completá-lo, em vez de diversão pura. Quando o ciclo de feedback entre os desenvolvedores e os jogadores parece lento em um modelo anual, os fãs podem sentir que suas vozes não são ouvidas até que seja tarde demais – já no próximo título.

O futuro: uma encruzilhada para a franquia

Então, o que a Activision e as desenvolvedoras (Treyarch, neste caso) fazem daqui para frente? Dobram a aposta na fórmula testada e confiável, esperando que seja apenas um ano ruim? Ou veem no Black Ops 7 um sinal de que mudanças mais profundas são necessárias? Rumores no setor já circulam há tempos sobre a possibilidade de a série abandonar o ciclo de lançamento anual, optando por um modelo de serviço contínuo mais alongado para cada título principal. Um "Call of Duty" que dura dois ou três anos, com expansões narrativas e de conteúdo significativas, poderia recuperar o senso de permanência e comunidade que parece estar se dissipando.

Outra frente é a inovação real de gameplay. Os últimos anos viram a franquia oscilar entre inovações ousadas (como o movimento avançado de Black Ops 3) e retornos conservadores ao "boots on the ground". Talvez o público esteja pedindo por algo verdadeiramente novo, não apenas um retoque nos sistemas de armas ou um novo mapa para o modo Zumbis. A integração com o Warzone, o battle royale gratuito, também é um quebra-cabeça. Ela deve ser total, com progressão unificada? Ou os jogos devem ser entidades mais separadas para não canibalizar um ao outro?

O que fica claro é que a era em que um Call of Duty podia contar com o sucesso apenas por ser um Call of Duty chegou ao fim. O jogador de 2024 tem infinitas opções e uma atenção disputadíssima. A lealdade à marca ainda existe, mas ela não é mais cega. Ela é condicional à qualidade, à inovação e ao respeito pelo tempo e investimento do fã. O fato de o Black Ops 7 não estar no top 5 de downloads é um dado estatístico, mas o que ele representa – um abalo na certeza absoluta – é o verdadeiro legado deste lançamento. A bola agora está com a franquia. Como ela vai rebater?

Com informações do: IGN Brasil