O mercado de SUVs elétricos na China acaba de ganhar um novo protagonista. Com o fim da produção do popular Song Plus no país, a BYD apresentou o Sealion 06, um modelo que não é apenas uma substituição, mas uma reinvenção completa. E, cá entre nós, as mudanças vão muito além de um simples facelift. Estamos falando de uma nova plataforma, uma filosofia de design diferente e, o mais importante, uma aposta clara no futuro da mobilidade elétrica. Mas o que isso significa para o consumidor global, especialmente para nós no Brasil, onde o Song Plus ainda tem um papel importante? Vamos destrinchar.
Uma Nova Plataforma e uma Nova Filosofia
O Sealion 06 marca uma transição significativa para a BYD. Enquanto o Song Plus era um ícone da era "Dragon Face", o novo SUV adota integralmente a linguagem de design da linha "Ocean", que já vimos em modelos como o Dolphin e o Seal. Isso significa linhas mais fluidas, faróis divididos e uma grade frontal que, nas versões elétricas, é completamente fechada. É uma mudança estética ousada, que busca se diferenciar no mar de SUVs que inundam o mercado chinês.
Mas a verdadeira revolução está sob o capô, ou melhor, sob o assoalho. O Sealion 06 é o primeiro a receber a quinta geração da tecnologia híbrida plug-in DM-i da BYD. O sistema combina um modesto motor 1.5 aspirado a gasolina de 101 cv com um motor elétrico dianteiro muito mais potente, de 218 cv. A mágica aqui não é a potência bruta, mas a eficiência absurda. Com baterias de até 26,6 kWh, ele promete rodar até 170 km apenas com eletricidade (no ciclo chinês CLTC). No modo híbrido combinado, a marca alega uma autonomia total estratosférica de 1.670 km com tanque e bateria cheios. É um número que, se confirmado na vida real, redefine completamente o conceito de ansiedade de autonomia para um híbrido.

O Futuro é Elétrico (e de Tração Traseira)
Se a versão híbrida é focada em eficiência, a versão 100% elétrica do Sealion 06 é onde a BYD solta a criatividade técnica. Aqui, há uma mudança fundamental: ao contrário do Song Plus EV, que era de tração dianteira, o Sealion 06 EV é de tração traseira em todas as suas configurações. Essa não é uma decisão aleatória. A tração traseira geralmente oferece uma dinâmica de condução mais esportiva e equilibrada, além de liberar mais espaço no compartimento dianteiro.
O SUV elétrico é construído sobre a e-Platform 3.0 Evo e é oferecido em duas arquiteturas principais. A versão de entrada opera em 400V, com uma bateria de 65,2 kWh e autonomia de 520 km. Já as versões Pro e Plus são as verdadeiras estrelas do show, adotando uma arquitetura de 800V. Isso permite recargas ultrarrápidas, reduzindo drasticamente o tempo de parada em um eletroposto. Com uma bateria de 78,7 kWh, elas prometem até 605 km de autonomia. Documentos de homologação já apontam para uma futura versão de performance com 367 cv e 710 km de alcance, mostrando que a BYD ainda tem cartas na manga.

E o Brasil nessa História?
Aqui está um ponto crucial que muitos podem estar se perguntando. Com todo esse avanço na China, o Sealion 06 chegará ao Brasil para substituir nosso Song Plus? A resposta, pelo menos no curto e médio prazo, é não. A BYD já confirmou que o Song Plus atual não apenas continuará sendo vendido globalmente, como também será produzido nacionalmente na fábrica de Camaçari (BA) a partir de 2026.
É uma estratégia interessante. A nacionalização do Song Plus protege a BYD dos custos de importação e garante volume de produção e competitividade de preço no mercado brasileiro, que ainda está se adaptando à eletrificação. O Sealion 06, por sua vez, permanece como uma possibilidade futura, talvez para quando a linha Ocean (Dolphin, Seal) estiver mais consolidada por aqui. A BYD parece estar jogando um jogo de paciência, fortalecendo sua base com um produto conhecido antes de introduzir a próxima geração.
O sucesso do Sealion 06 na China é inegável – mais de 130.000 unidades vendidas desde julho de 2025 – e serve como um termômetro valioso. Ele testa novas tecnologias, um novo design e a receptividade do mercado a um SUV um pouco maior (4,81 m de comprimento, com entre-eixos de 2,82 m) e mais tecnológico. As lições aprendidas lá certamente serão aplicadas nos produtos globais futuros da marca.

Enquanto isso, a mudança na nomenclatura também é significativa. A BYD está padronizando: SUVs da linha Ocean serão "Sealion" e sedãs serão "Seal". É uma tentativa de criar uma identidade mais clara e forte para o consumidor global. O Sealion 06, portanto, não é apenas um carro novo. Ele é um símbolo de onde a BYD quer chegar: uma marca com famílias de produtos distintas, tecnologia de ponta e uma presença global cada vez mais assertiva. O caminho até o Brasil pode ser mais longo, mas a direção que a montadora está tomando é clara.
Mas vamos além das especificações técnicas e do posicionamento de mercado. O que realmente diferencia o Sealion 06 no dia a dia? A experiência do usuário. A BYD tem investido pesado em tornar a interação com o carro algo intuitivo e, por que não dizer, prazeroso. O sistema de infotainment roda sobre um processador de última geração, prometendo uma fluidez que rivaliza com a de um tablet premium. E não se trata apenas de tocar música ou navegar no GPS. A integração com o ecossistema de apps chinês é profunda, permitindo desde o controle de dispositivos domésticos inteligentes até o pagamento de pedágios e estacionamentos diretamente pela tela do carro. É uma visão de mobilidade conectada que ainda parece distante para nós, mas que na China já é uma realidade cotidiana.
O Interior: Onde a Tecnologia Encontra o Conforto
Ao entrar no Sealion 06, a primeira impressão é de um ambiente que busca um equilíbrio entre o futurismo tecnológico e um aconchego quase doméstico. Os materiais são um salto qualitativo em relação ao Song Plus. Há muito uso de tecidos reciclados e materiais de toque macio, alinhando-se com a pegada sustentável da marca. O painel de instrumentos digital é minimalista, entregando apenas as informações essenciais, enquanto o grande centro de comando é a tela central giratória de 15,6 polegadas – uma assinatura BYD que se mostrou surpreendentemente útil.
O espaço para os ocupantes é outro ponto alto. Com um entre-eixos generoso, a sensação na banco traseiro é de um carro de segmento superior. A BYD parece ter entendido que, num SUV familiar, o conforto dos passageiros é tão crucial quanto o do motorista. O porta-malas, com cerca de 520 litros, é prático e ganha pontos extras pelo assoalho plano, sem aquele degrau irritante que atrapalha ao carregar volumes maiores. Detalhes como as saídas de ar-condicionado traseiras integradas aos encostos dos bancos dianteiros e as múltiplas portas USB-C mostram uma atenção ao usuário que vai além do básico.
A Concorrência Não Dorme no Ponto
Claro, a BYD não está sozinha nessa arena. O mercado chinês de SUVs híbridos e elétricos é possivelmente o mais feroz do planeta. O Sealion 06 mira diretamente rivais como o Changan Shenlan S07, o Geely Galaxy L7 e, é claro, os próprios modelos da Tesla, especialmente o Model Y, que segue sendo um benchmark em termos de software e rede de recarga. A estratégia da BYD, no entanto, parece ser a de atacar por múltiplas frentes: oferecendo uma eficiência híbrida inigualável com o DM-i 5.0 e, ao mesmo tempo, apresentando uma proposta elétrica pura com tecnologia de 800V que tira a vantagem da Tesla no quesito "recarga rápida".
É uma guerra de especificações, mas também de preço. O Sealion 06 foi lançado na China com uma faixa de preço competitiva, começando em cerca de 150.000 yuans (aproximadamente R$ 110.000 na cotação atual). Considerando o pacote tecnológico oferecido, é um valor que coloca uma pressão enorme sobre os concorrentes. Essa agressividade comercial é um dos motores do sucesso da BYD em casa e uma lição que ela tenta exportar para outros mercados. Será que, no futuro, essa mesma fórmula de "muita tecnologia por um preço justo" será a chave para trazer um modelo como este para o Brasil?
Falando nisso, a rede de serviço e suporte é um capítulo à parte. Na China, a BYD possui uma infraestrutura gigantesca, com centenas de lojas próprias e centros de serviço. Para um carro com tanta eletrônica embarcada, a proximidade do suporte técnico especializado é um fator decisivo na hora da compra. No Brasil, a expansão da rede da BYD é visível, mas ainda está em construção. A nacionalização do Song Plus é, também, um movimento para criar essa base sólida de pós-venda antes de lançar produtos ainda mais complexos. Afinal, de que adianta ter a tecnologia mais avançada se o proprietário precisa esperar semanas por uma peça ou por um técnico qualificado?
O Que Esperar dos Próximos Capítulos?
O ciclo de vida de um carro na China é vertiginosamente rápido. Enquanto no Ocidente um modelo pode ficar 6 ou 7 anos no mercado com apenas um facelift, por lá, a evolução é quase contínua. O Sealion 06 mal esquentou os pneus e já se especula sobre suas próximas atualizações. A versão de performance com 367 cv é uma certeza. Mas e a tão comentada tecnologia de bateria de estado sólido que a BYD vem prometendo? Será que uma futura versão do Sealion poderá ser um dos primeiros veículos da marca a recebê-la, oferecendo autonomias ainda maiores e tempos de recarga medidos em minutos?
Além disso, o design da linha Ocean ainda está se estabelecendo. O Sealion 06 é um passo importante, mas ele será seguido por outros. Como será o Sealion 03, menor, ou o Sealion 09, maior e mais luxuoso? Cada um deles será uma peça no quebra-cabeça de posicionamento da BYD. E, olhando para o Brasil, fica a pergunta: será que nossa primeira experiência com a família Ocean será através de um hatch como o Dolphin, ou a BYD arriscaria trazer um SUV como o Sealion 06 direto, apostando no apelo do segmento? A resposta depende muito de como o mercado brasileiro de elétricos e híbridos amadurecer nos próximos dois anos.
Por fim, há um aspecto que muitas análises técnicas deixam de lado: a emoção. Dirigir um carro como o Sealion 06 EV, com sua tração traseira e potência instantânea, deve proporcionar uma sensação muito diferente da do Song Plus, mais voltado para o conforto e eficiência. A BYD, historicamente vista como uma marca de "carros de appliance" – extremamente competentes, mas sem alma – está tentando injetar um pouco dessa emoção em seus produtos. O silêncio da propulsão elétrica, a rigidez do chassi da plataforma EVO, a resposta direta do acelerador... são esses detalhes sutis que podem converter um comprador que está em dúvida entre uma marca tradicional e uma nova protagonista. Afinal, o carro do futuro não precisa ser apenas inteligente e eficiente. Pode, e deve, ser também divertido de guiar.
Com informações do: Quatro Rodas








