Os dados oficiais de vendas de jogos nos Estados Unidos para 2025 acabam de ser divulgados, e trazem uma surpresa que está dando o que falar. Apesar de uma queda significativa no número de jogadores ativos na plataforma PC, o Battlefield 6 conseguiu garantir o primeiro lugar no ranking anual de vendas, superando gigantes como a franquia Call of Duty. As informações, compartilhadas pelo executivo Mat Piscatella da empresa de análise Circana, revelam não apenas um vencedor inesperado, mas também tendências interessantes sobre o que os jogadores americanos estão comprando.

Tabela de jogos mais vendidos nos EUA em 2025

É um resultado que, vamos combinar, poucos apostariam no início do ano. O jogo da Electronic Arts, que enfrentou críticas sobre sua retenção de jogadores no PC, mostrou que o hype do lançamento e o poder da marca ainda são forças formidáveis no varejo. Os números consideram vendas físicas e digitais de janeiro de 2025 a janeiro de 2026, focando apenas nos jogos base, sem incluir DLCs ou expansões. E olha só quem ficou em quinto lugar: Call of Duty: Black Ops 7. Uma posição que certamente fará a equipe da Activision coçar a cabeça.

O Pódio e os Destaques do Ranking

Analisando a lista completa, fica claro que 2025 foi um ano dominado por franquias estabelecidas, mas com alguns espaços para novidades. Logo atrás do Battlefield 6, temos o sempre presente NBA 2k26 em segundo, seguido por Borderlands 4 e o aclamado Monster Hunter Wilds. A presença do Black Ops 7 na quinta posição, enquanto seu predecessor, Black Ops 6, aparece em décimo, é um dado curioso. Some as vendas dos dois títulos da Activision, agora sob o guarda-chuva da Microsoft, e você tem uma força de venda considerável, mas ainda assim insuficiente para superar o campeão do ano.

Para facilitar, veja os 10 primeiros colocados:

  • Battlefield 6

  • NBA 2k26

  • Borderlands 4

  • Monster Hunter Wilds

  • Call of Duty: Black Ops 7

  • Madden NFL 26

  • EA Sports College Football 26

  • EA Sports FC 26

  • The Elder Scrolls IV: Oblivion Remastered

  • Call of Duty: Black Ops 6

O que me chama a atenção aqui é a força dos remasters e dos jogos de esporte. Oblivion Remastered em nono lugar mostra uma nostalgia que vende, e a EA dominou a categoria esportiva com três títulos no top 10. Já a Sony e a Nintendo tiveram presenças mais modestas, com apenas um jogo cada na lista dos 20.

Os Eternos Campeões e o Contexto do Mercado

Talvez a lição mais interessante não esteja no topo, mas no final da lista. Dois fenômenos de longevidade incrível ainda resistem. Minecraft, o jogo mais vendido de todos os tempos, apareceu na 13ª posição. E, em um feito quase surreal, Grand Theft Auto V conseguiu se segurar no 20º e último lugar. Sim, o mesmo GTA V que foi lanrado em 2013, e que vemos uma sequência tão aguardada no horizonte. É um testemunho do poder duradouro dessas experiências.

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Mat Piscatella também trouxe um insight macroeconômico crucial. O mercado de games dos EUA cresceu 1,4% em valor em 2025 comparado a 2024. Soa como uma boa notícia, certo? Mas o executivo faz um alerta: esse crescimento não veio de mais pessoas comprando jogos, e sim dos preços mais altos. É um crescimento inflacionário, refletindo o aumento nos custos de produção, possivelmente nos preços sugeridos e nas assinaturas de serviços. Em outras palavras, o setor está faturando mais, mas o volume de unidades vendidas pode não ter acompanhado.

E aí, o que isso significa para o futuro? A vitória do Battlefield 6, mesmo com seus altos e baixos pós-lançamento, prova que um lançamento bem-sucedido em mídia e marketing ainda pode garantir o topo das vendas anuais. Mas também levanta a questão: por quanto tempo as franquias estabelecidas podem contar apenas com a força da marca? A performance relativamente mais baixa do Black Ops 7, em um ano sem um novo título da concorrente Battlefield no horizonte (até a próxima temporada), sugere que os jogadores podem estar ficando mais seletivos.

Os dados também mostram um apetite contínuo por experiências familiares (esportes, shooters) e pela nostalgia (remasters), enquanto novos IPs lutam para entrar na lista. Ghost of Yotei, da Sucker Punch, conseguiu um respeitável 11º lugar, um feito para uma nova propriedade intelectual. Enquanto isso, a indústria continua sua marcha, com a segunda temporada de Battlefield 6 adiada e debates sobre o impacto de ferramentas de IA, como os levantados pelo próprio Call of Duty: Black Ops 7, ganhando espaço. É um ecossistema em constante mudança, onde até mesmo a possibilidade de um GTA no Rio de Janeiro já foi considerada.

Mas vamos mergulhar um pouco mais fundo nesses números, porque eles contam uma história mais complexa do que parece à primeira vista. A queda nos jogadores ativos do Battlefield 6 no PC, por exemplo, é um dado que não pode ser ignorado. Como um jogo que lidera as vendas pode estar "morrendo" em uma de suas principais plataformas? A resposta, provavelmente, está na natureza fragmentada do mercado atual. O sucesso no varejo, especialmente em consoles, ainda é impulsionado por um enorme marketing de lançamento e pela lealdade à marca. Muitos compram o jogo no dia 1, movidos pelo hype, pela pré-venda e pela promessa de uma nova experiência multiplayer. O que acontece depois, com a retenção, é quase um capítulo separado.

E isso nos leva a uma pergunta incômoda: será que as métricas de sucesso estão desatualizadas? Focar apenas nas vendas totais no ano do lançamento pode estar mascarando problemas de saúde a longo prazo para essas franquias. Um jogo pode vender 10 milhões de cópias em seu primeiro mês, mas se perder 70% dos seus jogadores em seis meses, o que isso significa para o futuro dos conteúdos sazonais, dos passes de batalha e, claro, da próxima edição? A Activision, com seu modelo bem oleado de Call of Duty anual, sentiu esse baque. O Black Ops 7 em quinto lugar não é um desastre, mas para um titã que costumava dominar o topo sem esforço, é um sinal de alerta amarelo piscando.

O Fator "Serviço" e a Concorrência das Assinaturas

Outro elemento crucial que esses dados de vendas não capturam totalmente é o impacto dos serviços de assinatura. O Xbox Game Pass e a PlayStation Plus Premium oferecem uma biblioteca enorme por uma taxa mensal. Quantos jogadores que, em outra época, teriam comprado o Madden NFL 26 ou o EA Sports FC 26 no lançamento, agora simplesmente os jogam "de graça" como parte do catálogo? A EA, aliás, é uma das que mais navega nessas águas, colocando seus jogos no EA Play (que vem incluso no Game Pass) relativamente rápido.

Isso cria um paradoxo interessante. Por um lado, a assinatura desincentiva a compra unitária do jogo base. Por outro, ela pode ser uma ferramenta poderosa para reter jogadores e monetizá-los depois, com microtransações e DLCs – que, lembre-se, não são contabilizadas nesse ranking. Então, um jogo pode aparecer em uma posição mais baixa em vendas, mas estar gerando receita colossal através de cosméticos, passes e expansões vendidos para uma base de jogadores que acessou o título via assinatura. É um modelo de negócios que está desafiando a velha métrica do "número de cópias vendidas" como o único indicador de sucesso.

Arte promocional da Temporada 2 de Battlefield 6, que foi adiada

Falando em DLC e conteúdo pós-lançamento, o adiamento da segunda temporada do Battlefield 6, que deveria chegar no final de 2025, pode ter sido um tiro no pé para a retenção, mas provavelmente não afetou suas vendas anuais. A decisão, anunciada como necessária para garantir qualidade, mostra a pressão que os estúdios enfrentam para sustentar esses jogos-vivos. Lançar um conteúdo meia-boca pode ser pior do que lançá-lo tarde. No entanto, em um ambiente competitivo, cada semana de atraso é uma oportunidade para os jogadores migrarem para outro título.

Nostalgia como Commodity e o Futuro dos Remasters

A presença de The Elder Scrolls IV: Oblivion Remastered em nono lugar é um fenômeno à parte. Não é um jogo novo. É uma experiência de quase duas décadas atrás, com um polimento visual e talvez alguns controles modernizados. E ainda assim, vendeu mais do que dezenas de lançamentos originais. Isso fala de um mercado maduro, onde uma geração de jogadores agora com poder de compra está disposta a pagar para reviver memórias com uma roupagem nova.

Isso é bom ou ruim? Depende de como você vê. Por um lado, financia os estúdios e permite que novas gerações conheçam clássicos. Por outro, alimenta um ciclo conservador onde o risco de novas IPs parece cada vez mais alto para os publicadores. Por que investir centenas de milhões em algo incerto se você pode remasterizar um sucesso comprovado e colher uma colheita garantida? A indústria parece estar numa encruzilhada: a nostalgia vende, mas a inovação é o que move a médio prazo. O sucesso relativo de Ghost of Yotei (11º lugar) é um sopro de esperança, mostrando que ainda há espaço para novas histórias, desde que sejam excepcionalmente bem-feitas e tenham o marketing adequado.

E não podemos esquecer dos elefantes na sala: Minecraft e GTA V. Sua persistência é quase um lembrete mensal para todos os outros publicadores. Eles construíram ecossistemas tão vastos, tão integrados à cultura dos jogos, que se tornaram plataformas por si só. Não são mais apenas jogos que se compra; são espaços onde se passa o tempo, se socializa, se cria. Essa é a meta final, e pouquíssimos conseguem chegar lá. A pergunta que fica é: qual será o próximo jogo a alcançar esse status de "eterno"? O sucesso do Battlefield 6 nas vendas de 2025 é impressionante, mas ele tem o DNA para se tornar um desses pilares da próxima década, ou será apenas mais um pico no gráfico antes do próximo lançamento da franquia?

O relatório da Circana também esbarra em discussões mais amplas sobre a indústria. O crescimento de 1,4% em valor, puxado por preços mais altos e não por mais jogadores, reflete uma realidade econômica difícil. Os custos de desenvolvimento disparam, os ciclos se alongam, e o preço final do produto, ou das assinaturas, precisa subir para cobrir a conta. Mas até que ponto o consumidor comum vai aceitar isso? Há um limite para o quanto se pode cobrar por uma experiência de entretenimento, especialmente em um mundo com tantas opções de lazer baratas ou gratuitas. A pressão por regulamentação de IA nos games, tema que o próprio Black Ops 7 trouxe à tona, é em parte uma reação a essa busca por eficiência e redução de custos astronômicos.

Com informações do: Adrenaline