Uma declaração recente de um dos nomes mais respeitados da franquia Fallout reacendeu um debate antigo entre os fãs. Chris Avellone, cofundador da Obsidian Entertainment e roteirista principal do aclamado Fallout: New Vegas, usou suas redes sociais para expressar uma opinião contundente: a Bethesda, atual detentora da série, não estaria verdadeiramente comprometida com o legado original dos jogos. E, embora a mensagem tenha sido deletada, suas palavras já haviam ecoado pela comunidade, levantando questões sobre identidade, autoria e o futuro de um dos RPGs mais icônicos da história.

Chris Avellone, roteirista de Fallout: New Vegas

Uma crítica às raízes: Bethesda e a "sua" interpretação

No centro da fala de Avellone está uma acusação de desapego. Ele argumenta que, desde que assumiu a série com Fallout 3, a Bethesda teria priorizado criar sua própria versão do universo pós-apocalíptico, em vez de se aprofundar e construir sobre as fundações estabelecidas pelos títulos originais da Interplay. "Eles são os donos da franquia, e eles só querem fazer sua interpretação de Fallout e tornar essa a norma", afirmou. É uma perspectiva interessante, vinda de alguém que trabalhou em ambos os "lados" da linha do tempo criativa da série.

Avellone não poupou adjetivos para descrever o resultado dessa abordagem, chamando os mundos dos jogos principais da Bethesda de "um parque temático superficial e colorido". No entanto, e isso é crucial, ele faz questão de reconhecer as exceções. Expansões como Far Harbor (para Fallout 4) e Point Lookout (para Fallout 3) receberam elogios, assim como The Pitt, indicando que ele vê potencial quando a narrativa ganha mais camadas e complexidade. A crítica, portanto, parece menos sobre capacidade e mais sobre direção e prioridade criativa.

Méritos, desavenças e o fantasma de New Vegas

É importante notar que Avellone foi cuidadoso em não descartar completamente o trabalho da Bethesda. Ele explicitamente disse que não odeia a empresa e reconheceu seus méritos inegáveis na construção de mundos abertos cativantes e cheios de coisas para explorar. A jogabilidade de exploração, afinal, é um dos pilares que revitalizou a franquia para um público massivo. O cerne de sua insatisfação reside em outros pilares clássicos do RPG: a narrativa e os diálogos.

Cena do jogo Fallout: New Vegas

Para muitos fãs dos originais e de New Vegas, as histórias e, especialmente, o sistema de habilidades de discurso (Speech Checks) nos jogos da Bethesda frequentemente parecem menos orgânicos e impactantes. Avellone ecoa esse sentimento, sugerindo que há uma desconexão entre a liberdade de exploração e a profundidade das interações narrativas. New Vegas, por outro lado, é constantemente lembrado justamente por como suas missões se entrelaçam, suas escolhas de diálogo carregam peso real e como diferentes builds de personagem podem abrir (ou fechar) caminhos completamente distintos na história.

E aí reside um ponto de atrito constante na comunidade. O sucesso crítico e o culto em torno de New Vegas — um jogo desenvolvido pela Obsidian, mas publicado pela Bethesda — criou um padrão de comparação que persegue cada novo título principal. A pergunta "por que não é como New Vegas?" tornou-se um mantra para uma parcela dos fãs. A declaração de Avellone, vinda de um dos arquitetos daquele jogo, inevitavelmente alimenta essa narrativa.

O peso das palavras e o legado de um veterano

A decisão de Avellone de deletar o post rapidamente fala por si só. O mundo do desenvolvimento de games é, em muitos aspectos, uma pequena vila, e críticas públicas tão diretas podem queimar pontes. Mesmo como freelancer de sucesso, com passagens por projetos como Divinity: Original Sin 2 e Pathfinder: Kingmaker, manter relações profissionais é vital.

Além do mais, sua trajetória é singular. Poucos podem dizer que ajudaram a moldar a série em suas encarnações clássica (Fallout 2), moderna (New Vegas) e que testemunharam sua evolução nas mãos de outro estúdio. Isso confere um peso especial à sua opinião, mesmo que seja, no fim, uma perspectiva pessoal. Ele viveu as transições, as diferentes filosofias de design. Sua visão é a de um insider que agora observa de fora.

E então, o que fazer com essa crítica? Para os fãs, serve como um convite para refletir sobre o que realmente valorizam em Fallout. É a vastidão e a liberdade de um mundo aberto ao estilo Bethesda? É a teia narrativa complexa e reativa ao estilo Black Isle/Obsidian? Ou é possível ter um equilíbrio genuíno entre os dois? A Bethesda, por sua vez, segue adiante com seus planos, que incluem até mesmo possíveis remakes de Fallout 3 e New Vegas. O debate sobre o "legado" versus a "reinvenção" está longe de terminar — na verdade, ele é parte integrante da própria identidade da franquia desde que a bomba caiu.

Mas será que essa divisão entre "legado" e "reinvenção" é tão binária assim? Em minha experiência como jogador de longa data, vejo que a franquia sempre foi um terreno de tensões criativas. Os próprios originais da Interplay, com seu humor negro e sátira política, já eram uma resposta específica a um certo tipo de RPG de fantasia. A Bethesda, ao trazer a série para a primeira pessoa e focar na imersão ambiental, fez outra reinvenção radical. E, de certa forma, New Vegas foi uma terceira coisa: uma tentativa de sintetizar as duas abordagens. Talvez o problema não seja a mudança em si, mas a sensação de que algumas sutilezas se perderam no caminho.

É engraçado pensar que, para muitos fãs novos que entraram com Fallout 3 ou 4, a "identidade" da série é justamente aquilo que Avellone critica. O mundo aberto vasto, a coleção de tralhas, a construção de assentamentos. Para eles, os jogos clássicos podem parecer... estranhos. Inacessíveis, até. Isso cria um fosso geracional dentro da própria base de fãs, onde o que é considerado "fiel" depende totalmente do ponto de entrada de cada um. A Bethesda, como detentora comercial, naturalmente vai mirar no público mais amplo que ela mesma criou. É um ciclo difícil de quebrar.

Além da superfície: quando a exploração encontra a narrativa

Avellone tocou em um ponto crucial ao elogiar expansões como Far Harbor. Por que aquela DLC ressoa tanto até com os críticos dos jogos principais? Na minha opinião, é porque ela entende que a exploração e a narrativa não precisam ser inimigas. Em Far Harbor, a névoa não é só um efeito visual bacana; ela é um elemento narrativo que limita sua visão, cria tensão e reflete o tema de segredos e verdades obscuras. Cada local abandonado conta uma pequena história através do ambientação, não apenas através de um terminal ou holotape.

Isso me faz pensar: será que o "parque temático" que Avellone menciona não é, em parte, um problema de escala? Fallout 4 e 76 têm mapas enormes, repletos de pontos de interesse. Mas quantos desses locais têm uma história realmente memorável, com múltiplas camadas de descoberta e consequências para suas ações? Muitos são apenas arenas para combate, com um esqueleto e uma nota genérica. Em contraste, New Vegas tinha um mapa menor, mas quase cada canto estava ligado a alguma facção, missão ou dilema moral maior. A densidade narrativa era outra.

E os diálogos? Ah, os diálogos. É frustrante quando você constrói um personagem com Carisma 1 e Inteligência 10, mas as opções de fala não refletem essa combinação bizarra. Nos clássicos e em New Vegas, suas estatísticas literalmente abriam ou fechavam ramos inteiros de conversa. Um personagem com Percepção baixa podia perder pistas óbvias. Um com Força alta podia resolver problemas com brutamontice. Em jogos recentes, as Speech Checks frequentemente parecem apenas um obstáculo de porcentagem para se obter mais cápsulas ou experiência, sem mudar o fluxo da conversa de forma significativa. A ilusão de papel é mais frágil.

O futuro em um mundo pós-série da Amazon

O elefante na sala, é claro, é o sucesso estrondoso da série live-action da Amazon. De repente, milhões de pessoas foram apresentadas ao universo Fallout através de uma narrativa que, curiosamente, parece ter absorvido lições de ambas as escolas. A série tem o visual icônico e o senso de aventura dos jogos da Bethesda, mas também investe em personagens complexos, tramas políticas e um humor ácido que remete aos originais. E o público adorou.

Isso coloca a Bethesda em uma posição interessante, não acha? Eles agora têm uma base de fãs novíssima, vinda da TV, que vai chegar aos jogos com certas expectativas narrativas. Será que isso pode influenciar o desenvolvimento do próximo título principal, o Fallout 5? É tentador imaginar que sim. A pressão comercial para capitalizar o sucesso da série pode, ironicamente, empurrar a empresa a olhar mais de perto para as críticas sobre profundidade narrativa.

Além disso, o cenário de desenvolvimento mudou. A Obsidian, hoje sob a Microsoft (assim como a Bethesda), está ocupada com Avowed e The Outer Worlds 2. A inXile, outro estúdio da Microsoft com veteranos de RPG clássico, está com Clockwork Revolution. A possibilidade de um "New Vegas 2" direto parece remota. O legado, portanto, não será mantido por um estúdio irmão fazendo um spin-off, mas dependerá de como a própria Bethesda internalizará essas lições—se é que o fará.

E os remakes? Se os rumores forem verdadeiros e a Bethesda realmente refizer Fallout 3 e New Vegas, será uma oportunidade única de estudo. Como eles tratarão o material original? Vão modernizar apenas os gráficos e a jogabilidade, ou se sentirão tentados a "melhorar" ou alterar elementos da narrativa de New Vegas para se alinhar mais à sua visão atual da franquia? A forma como lidarem com esse projeto pode ser a declaração mais clara sobre seu respeito—ou não—pelo legado que Avellone defende.

No fim, a franquia Fallout sempre foi sobre conflitos: entre o velho e o novo, entre tribos e civilização, entre a humanidade que resta e a que pode nascer. Talvez seja apropriado que sua própria existência como série de jogos seja marcada por essa mesma tensão. A pergunta que fica não é se a Bethesda "liga" para o legado, mas qual legado ela escolherá honrar—o dos fãs que cresceram com os isométricos, o dos milhões que exploraram o Capital Wasteland, ou um terceiro caminho ainda por ser descoberto. O deserto, afinal, é grande o suficiente para mais de uma história.

Com informações do: Adrenaline