Em uma reviravolta que trouxe alívio a consumidores e ao setor de tecnologia, o governo federal anunciou nesta sexta-feira (27) o recuo na decisão de aumentar as tarifas de importação para uma série de produtos eletrônicos e de hardware. A medida, que havia sido anunciada no início do mês e gerou forte repercussão negativa, foi revogada pelo Comitê-Executivo de Gestão (Gecex), retomando as alíquotas originais para itens essenciais como placas-mãe, SSDs e notebooks.
Você já sentiu no bolso o impacto de uma mudança de imposto? Pois é, essa decisão evitou justamente que isso acontecesse de forma abrupta em março. A pressão do mercado e a argumentação de que a indústria nacional não tem capacidade para suprir a demanda por componentes de alta performance parecem ter pesado na balança.

O que mudou (ou melhor, o que voltou ao normal)
A decisão anulou um aumento que poderia chegar a 7,2 pontos percentuais em alguns produtos. Com a revogação, as tarifas foram zeradas novamente para 105 itens (focados em bens de capital) e retornaram aos patamares anteriores para 15 categorias de informática e telecomunicações. O governo inicialmente justificou o aumento como uma forma de proteger a indústria doméstica e gerar uma receita extra de R$ 14 bilhões até 2026, citando um crescimento expressivo de 33,4% nas importações desde 2022.
Mas, na prática, o que isso significa para quem monta um PC ou compra um celular? Basicamente, os preços não vão subir artificialmente por causa do imposto – pelo menos não por agora. A variação cambial, como sempre, continua sendo o vilão principal.
Confira as alíquotas de importação que foram mantidas para os principais itens:
Notebooks: 16%
Smartphones: 16%
Placas-mãe: 10,80%
SSDs (Unidades de estado sólido): 10,80%
Gabinetes com fonte: 10,80%
Periféricos (mouses/trackballs): 10,80%
Mesas digitalizadoras: 10,80%
O burburinho que fez a diferença
O recuo não veio do nada. Representantes de importadores e do varejo de tecnologia foram bastante vocalizados em seus argumentos. Eles sustentaram que a indústria brasileira simplesmente não tem fábricas para produzir componentes de ponta, como placas-mãe para os processadores mais recentes ou memórias SSD de alta velocidade. Portanto, taxar a importação desses itens não protegeria uma indústria nacional que, em muitos casos, nem existe.
O risco, segundo o setor, era duplo: um repasse imediato dos custos para o consumidor final e, a médio prazo, a obsolescência tecnológica do parque de equipamentos no país. Afinal, se ficar muito caro trazer tecnologia nova, as empresas e usuários ficam presos a hardware defasado.
Na minha opinião, esse é um ponto crucial. O protecionismo pode fazer sentido para proteger empregos em setores consolidados, mas em tecnologia de ponta, onde a produção global é extremamente concentrada, ele pode simplesmente isolar o país da inovação.
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E agora, o que esperar?
A decisão mantém a competitividade dos produtos importados legalmente em relação ao mercado cinza, o que é positivo para a arrecadação e para o consumidor que busca garantia. No entanto, joga uma sombra de dúvida sobre as contas públicas. A meta fiscal do governo para o ano fica um pouco mais difícil de ser alcançada sem os R$ 14 bilhões em receita extra que estavam projetados.
É um equilíbrio delicado. De um lado, a necessidade de o governo fechar suas contas. De outro, a realidade de um mercado de tecnologia globalizado e a sensibilidade do consumidor, já tão pressionado por outros fatores econômicos. A pergunta que fica é: essa foi uma solução definitiva ou apenas um adiamento? A pressão por arrecadação pode levar a novas tentativas no futuro.
E você, acha que o governo tomou a decisão correta ao recuar, ou deveria ter mantido o aumento para proteger a indústria nacional, mesmo que incipiente?
Fonte(s): G1
Mas vamos olhar mais de perto para os números que quase nos levaram a esse aumento. O governo citou um crescimento de 33,4% nas importações desde 2022. Isso, em tese, parece um argumento forte para tentar frear a saída de dólares e estimular a produção interna. No entanto, o diabo mora nos detalhes – ou melhor, na composição dessas importações. A maior parte desse crescimento veio justamente de componentes que não temos como fabricar aqui em escala competitiva. É como querer taxar a importação de neve para proteger a indústria nacional de esquimós... que não existe.
Um exemplo prático: placas-mãe para processadores AMD Ryzen 7000 ou Intel Core de 13ª e 14ª geração. Existe alguma fábrica no Brasil capaz de produzir essas placas com seus complexos circuitos de energia (VRM) e slots PCIe 5.0? A resposta é um retumbante não. A produção global está concentrada em pouquíssimas empresas, como ASUS, MSI, Gigabyte e ASRock, com fábricas majoritariamente na China e em Taiwan. Taxar a entrada desses itens não protegeria um concorrente local; apenas encareceria o produto para o consumidor brasileiro e, ironicamente, poderia incentivar ainda mais o contrabando.
O outro lado da moeda: a (frágil) indústria nacional
É claro que a discussão não pode ignorar completamente quem tenta produzir aqui. Empresas como a Positivo, mencionada na imagem original, têm linhas de montagem para notebooks e desktops mais básicos. O argumento delas é válido: como competir com produtos importados que, mesmo com imposto, chegam com preços agressivos devido à escala gigantesca de fabricantes chineses? A proteção tarifária, nesse caso específico, poderia dar um fôlego para a manutenção de empregos na linha de montagem.
Mas aí reside o grande dilema da política industrial para tecnologia: proteger o que temos (montagem de produtos de baixo a médio desempenho) em detrimento do acesso ao que não temos (tecnologia de ponta). É um trade-off complicado. Proteger a montagem de notebooks com processadores Intel Core i3 de gerações passadas pode salvar alguns empregos hoje, mas nos afasta ainda mais da fronteira tecnológica. E no mundo digital, ficar para trás tem um custo que vai muito além do financeiro – impacta produtividade, educação e inovação em todos os setores.
Além disso, vale questionar: a solução para fortalecer a indústria nacional passa necessariamente por taxar o concorrente estrangeiro? Ou seria mais eficiente (embora politicamente menos popular no curto prazo) investir em incentivos fiscais para pesquisa, desenvolvimento e atração de fábricas de semicondutores, como tentam fazer os EUA com o CHIPS Act? São perguntas que o recuo do governo deixou em suspenso, mas que continuam absolutamente relevantes.
O consumidor no centro do furacão
Enquanto o debate macroeconômico rola, quem sente o efeito imediato é você, tentando montar um PC gamer, comprar um notebook para trabalhar ou simplesmente trocar o celular. A estabilidade das alíquotas, por enquanto, traz um alívio. Mas é um alívio que convive com uma insegurança crônica. A sensação é de que a qualquer momento uma nova portaria ou decisão do Gecex pode mudar as regras do jogo.
Isso cria um comportamento peculiar no mercado. Você já deve ter visto: quando surge um boato de aumento de imposto, as lojas são inundadas com perguntas e há uma corrida para comprar estoques. É uma espécie de "inflação psicológica" que antecede qualquer mudança real. E, convenhamos, não é nada saudável para um planejamento de consumo. As pessoas deixam de comprar quando precisam para comprar quando temem que o preço vai subir.
Outro ponto que pouca gente comenta é o efeito cascata. Um aumento no SSD e na placa-mãe não afeta apenas quem monta um PC do zero. Afeta empresas que fazem manutenção em parques de máquinas, afeta centros de reparo, afeta o mercado de usados (que se baseia no preço do novo) e, por fim, afeta o preço de serviços que dependem desse hardware. É uma teia complexa onde puxar um fio pode desfazer muito mais do que se imagina.
E então, fica a reflexão: será que, no fim das contas, a melhor "proteção" para o consumidor e para a economia não seria uma política tributária previsível e de longo prazo, em vez de sobressaltos a cada ajuste fiscal? A instabilidade, por si só, já é um custo – e dos altos.
Com informações do: Adrenaline







