Um incidente recente a bordo de um voo da companhia aérea sul-coreana T'way Air trouxe à tona, mais uma vez, os riscos associados ao transporte de baterias portáteis em aeronaves. Enquanto o avião sobrevoava o trajeto entre a China e a Coreia do Sul, um power bank começou a soltar fumaça, causando preocupação e levando a tripulação a uma ação de emergência. O que aconteceu nesse caso específico? E, mais importante, o que isso revela sobre a segurança desses dispositivos que tantos de nós carregamos na bagagem de mão?

Superaquecimento aconteceu em avião da coreana T'way Air (foto: Takagi Masahiro/Wikimedia Commons)

O Incidente a Bordo do Voo TW634

No sábado, 10 de janeiro, a rotina do voo TW634 da T'way Air foi interrompida por um evento inesperado. Um power bank pertencente a um dos passageiros começou a superaquecer e liberar fumaça dentro da cabine. A tripulação, seguindo protocolos de segurança, agiu rapidamente: submergiram o dispositivo em água e o isolaram em um contêiner especial projetado para esse tipo de emergência.

Apesar da ação rápida, oito pessoas – três membros da tripulação que lidaram diretamente com o aparelho e cinco passageiros – apresentaram complicações por inalar os gases tóxicos liberados. É um lembrete assustador de que mesmo um objeto tão comum pode se tornar uma ameaça em um ambiente confinado e pressurizado como a cabine de um avião.

O que me surpreende, pessoalmente, é que o Boeing 737-8 Max conseguiu prosseguir com a viagem até seu destino final em Cheongju, na Coreia do Sul, sem a necessidade de um pouso de emergência. Os tripulantes afetados foram levados para um hospital após o pouso, enquanto os passageiros puderam retornar para casa. O Ministério dos Transportes da Coreia do Sul já abriu uma investigação para apurar se a bateria portátil em questão cumpria todas as normas de segurança exigidas para transporte aéreo.

Um Padrão Preocupante de Incidentes

E aqui está algo que deveria nos fazer parar para pensar: esse não foi um caso isolado. Dois dias antes, em um voo da Asiana Airlines entre Seul e Hong Kong, outro power bank pegou fogo, deixando um passageiro ferido. Em agosto de 2025, um incidente semelhante ocorreu em um voo da KLM entre São Paulo e Amsterdã, onde uma bateria portátil superaqueceu e pegou fogo dentro de uma mochila.

O denominador comum em todos esses casos? Um fenômeno conhecido como fuga térmica. Basicamente, é quando o calor gerado dentro de uma célula da bateria ultrapassa sua capacidade de dissipação. O resultado pode ser catastrófico: incêndios, pequenas explosões e, como vimos, a liberação de gases perigosos. Em um avião, onde o acesso a equipamentos de combate a incêndio é limitado e o espaço é confinado, as consequências podem se amplificar rapidamente.

Você já parou para considerar a qualidade do power bank que leva consigo nas viagens? Muitos de nós compramos os mais baratos, sem pensar muito na procedência ou nos padrões de segurança.

A Resposta das Companhias Aéreas e o que os Passageiros Precisam Saber

Diante dessa sequência de incidentes, algumas companhias aéreas começaram a endurecer suas políticas. A Emirates, por exemplo, tomou uma das medidas mais rigorosas: proibiu completamente o uso de power banks durante o voo. Os passageiros ainda podem transportá-los na bagagem de mão, mas está vedado conectá-los para carregar outros dispositivos ou, pior, tentar recarregá-los nas tomadas da aeronave.

E isso me leva a um ponto crucial que muitos viajantes ignoram: é estritamente proibido despachar power banks no porão do avião. A razão é simples e assustadora: em caso de fuga térmica ou incêndio em um compartimento de carga, a tripulação simplesmente não tem acesso para controlar a situação. O risco é considerado inaceitável.

Então, o que fazer? Em primeiro lugar, investir em produtos de marcas reconhecidas e com certificações de segurança. Evitar aqueles power banks extremamente baratos e sem identificação clara do fabricante. Durante o voo, mantê-los desligados e, de preferência, armazenados em um local arejado, longe de outros objetos na bagagem. E, claro, estar atento às regras específicas de cada companhia aérea – elas estão mudando rapidamente.

A aviação é um dos setores mais regulamentados do mundo quando se trata de segurança. Cada nova regra, cada restrição, surge geralmente de uma lição aprendida, muitas vezes da maneira mais difícil. Os incidentes com power banks estão forçando uma reavaliação de como tratamos esses dispositivos aparentemente inofensivos. A pergunta que fica é: até que ponto estamos dispostos a abrir mão da conveniência de ter uma bateria extra em troca de uma viagem mais segura? E as companhias aéreas – será que veremos uma padronização global de regras mais duras, ou cada uma seguirá seu próprio caminho?

Com informações do Aeroin, Chosun, The Aviation Herald e Aviation Safety Network

O que Realmente Causa a Fuga Térmica em Baterias?

Para entender o risco, é preciso mergulhar um pouco na tecnologia por trás desses dispositivos. A maioria dos power banks utiliza células de íon-lítio, a mesma tecnologia dos nossos smartphones e laptops. Elas são incrivelmente eficientes em armazenar energia em um espaço pequeno, mas essa densidade energética tem um preço: instabilidade. A fuga térmica, ou 'thermal runaway', não é um simples superaquecimento. É uma reação em cadeia descontrolada dentro da célula.

Imagine uma panela de pressão sem válvula de escape. O calor gerado por um curto-circuito interno, um defeito de fabricação ou até mesmo um dano físico (aquela queda que o power bank sofreu na sua mochila) começa a decompor o eletrólito líquido dentro da célula. Essa decomposição gera mais calor, que acelera ainda mais a reação. Em questão de segundos, a temperatura pode ultrapassar 400°C, liberando gases inflamáveis e tóxicos – como o monóxido de carbono e o fluoreto de hidrogênio, inalado pelos passageiros do voo da T'way – que podem então incendiar-se.

E aqui está um detalhe que pouca gente considera: o ambiente da cabine do avião pode ser um fator agravante. A pressão atmosférica mais baixa em altitude de cruzeiro pode, em teoria, reduzir o ponto de ebulição do eletrólito, tornando a célula ligeiramente mais suscetível a problemas. Não é a causa principal, mas pode ser a gota d'água para uma bateria já comprometida.

O Dilema da Regulamentação e da Fiscalização

Diante desse cenário, surge uma questão espinhosa: quem é responsável por garantir que o power bank na sua mochila é seguro? As companhias aéreas seguem as diretrizes da Associação de Transporte Aéreo Internacional (IATA) e de autoridades de aviação civil, como a ANAC no Brasil. As regras são claras sobre transporte (só na bagagem de mão, com limite de capacidade, geralmente 100Wh) e proibição de uso. Mas a fiscalização na hora do embarque é, na prática, visual e limitada.

Um agente de segurança do aeroporto pode verificar se há um power bank na sua bagagem, mas ele não tem como testar sua integridade interna ou autenticar sua certificação. Marcas falsificadas ou produtos de baixíssima qualidade, que usam células de lítio de descarte ou de fabricação precária, podem facilmente passar pelo check-in. Eles podem até ter um selo falso da CE (Conformidade Europeia) ou da FCC (Comissão Federal de Comunicações dos EUA).

Isso coloca uma carga significativa no consumidor. A segurança, em última análise, começa na escolha do produto. Mas como o passageiro comum, sem um laboratório à disposição, pode fazer essa avaliação? A confiança acaba recaindo sobre marcas estabelecidas e canais de venda confiáveis, mas mesmo isso não é uma garantia absoluta.

Algumas autoridades de aviação começam a discutir medidas mais drásticas. Será que veremos, no futuro, a exigência de que todos os power banks transportados em voos tenham uma certificação específica para aviação, testada sob condições extremas de pressão e temperatura? Ou a criação de um banco de dados de lotes defeituosos, como já existe para recalls de baterias de notebooks? A implementação seria um pesadelo logístico, mas os incidentes recentes estão forçando essa conversa.

Além do Power Bank: O Ecossistema de Risco a Bordo

Focar apenas no power bank é olhar para apenas uma peça do quebra-cabeça. O risco real muitas vezes está na interação entre dispositivos. Um cabo USB de má qualidade, com fiação inadequada ou isolamento defeituoso, pode causar um curto e superaquecer tanto o carregador portátil quanto o smartphone conectado a ele. Uma tomada USB do próprio avião com problemas de regulagem de voltagem também pode ser um ponto de falha.

E não podemos esquecer dos fones de ouvido com bateria, smartwatches, câmeras profissionais com baterias extras, laptops e até mesmo aqueles cobertores elétricos portáteis. Todos são fontes potenciais de íon-lítio. A mentalidade de segurança precisa evoluir de "cuidado com o power bank" para "gerenciamento de todos os dispositivos com bateria de lítio".

Aliás, o que você faz com seu laptop durante a decolagem e o pouso? Muita gente o guarda na mochila sob o assento da frente. Se ele sofrer uma pressão física no compartimento apertado, uma bateria já desgastada pode ser comprometida. O protocolo de desligar dispositivos eletrônicos maiores durante essas fases críticas do voo vai muito além de interferência de sinal; é também uma medida de segurança passiva contra danos físicos.

A tripulação de cabine, os verdadeiros heróis dessas situações, é treinada para lidar com incêndios de classe C (elétricos). Eles têm extintores específicos e contêineres de retenção, como o usado no voo da T'way. Mas seu treinamento é baseado em conter a ameaça, não em desmontar um dispositivo eletrônico em chamas para diagnosticar o problema. A velocidade de reação é tudo. Em um incidente relatado nos EUA, um passageiro, ao perceber que seu fone de ouvido começava a esquentar anormalmente, teve a presença de espírito de removê-lo e colocá-lo no corredor, longe de pessoas e bagagens, antes de alertar a comissária. Uma ação simples que pode ter prevenido algo pior.

Essa conscientização do passageiro é a próxima fronteira da segurança. Em vez de apenas proibir, as companhias aéreas poderiam fazer anúncios de segurança mais específicos durante o embarque ou no vídeo de segurança pré-voo: "Se qualquer dispositivo eletrônico com bateria começar a inchar, fazer um ruído de assobio, soltar fumaça ou esquentar excessivamente, não tente escondê-lo. Alerte imediatamente um membro da tripulação." Remover o estigma ou o medo de causar transtorno pode ser crucial.

Enquanto a indústria busca soluções técnicas e regulatórias, talvez a lição mais imediata seja cultural. Tratamos nossos dispositivos eletrônicos como objetos descartáveis e robustos, mas as baterias dentro deles são componentes químicos complexos e sensíveis. Levá-los para os céus exige um novo nível de respeito e precaução. A conveniência de ter bateria extra para mais algumas horas de tela pode parecer trivial, mas o custo de ignorar os riscos, como vimos, é medido em vidas e em investigações que abalam a confiança no transporte aéreo mais seguro da história.

Com informações do: Tecnoblog