A GameStop está acelerando drasticamente o fechamento de suas lojas físicas nos Estados Unidos. Só em janeiro de 2026, a gigante do varejo de jogos já fechou ou está em processo de fechar quase 500 unidades, um número que chama a atenção quando comparado aos 590 fechamentos registrados em todo o ano fiscal de 2024. Essa onda de encerramentos, que os clientes fiéis às lojas físicas certamente sentirão, levanta questões sobre o futuro do modelo de negócios da empresa e as estratégias por trás dessa mudança radical.

Fachada de uma loja GameStop com foco na marca

Um ritmo de fechamento que impressiona

As informações partem de um blog especializado que monitora os fechamentos da rede, listando 471 endereços com confirmação de encerramento apenas neste início de ano. Considerando que, em fevereiro de 2025, a GameStop operava 2.325 lojas nos EUA, essa redução representa uma fatia significativa de sua presença física no país de origem.

E, claro, fechamentos não são exatamente uma novidade para a GameStop. A empresa vem reduzindo sua pegada física há anos, uma resposta quase inevitável à ascensão das compras digitais e à mudança nos hábitos dos consumidores. Mas a velocidade atual? Essa sim é nova. Fechar em um mês quase o mesmo número de lojas que em um ano inteiro não é apenas uma continuação de uma tendência; parece um passo decisivo, quase urgente.

Meta ambiciosa e um bônus bilionário em jogo

E essa urgência tem uma data limite bem definida: 31 de janeiro de 2026, fim do ano fiscal da empresa. Coincidência? Talvez não. Uma divulgação oficial revelou que o CEO Ryan Cohen tem a chance de receber um bônus astronômico de US$ 35 bilhões em ações se conseguir elevar o valor de mercado da GameStop para a marca de US$ 100 bilhões até essa data.

Interior de uma loja GameStop com prateleiras cheias de jogos

Cortar custos operacionais pesados, como o aluguel e a manutenção de centenas de lojas e a folha de pagamento de milhares de funcionários, é um caminho rápido e conhecido para tentar inflar a valorização de mercado no curto prazo. É um movimento de contabilidade quase clássico. Ninguém na empresa confirmou oficialmente que os fechamentos em massa têm relação direta com a meta do bônus de Cohen – e seria ingênuo assumir que é o único fator –, mas o timing é, no mínimo, curioso para não dizer estratégico.

O que me faz pensar: até que ponto uma empresa pode se desfazer de sua presença física, sua principal interface com uma base de clientes tradicional, em nome de um objetivo financeiro? É uma aposta arriscada.

O cenário global e o que vem por aí

Essa onda nos EUA é apenas o capítulo mais recente de uma retração global que já viu a GameStop deixar oficialmente mercados como Canadá, Alemanha, Áustria, Irlanda, Suíça e Itália. Há planos concretos para a saída da França ainda em 2026. O mundo físico dos games, pelo menos na visão da varejista, está claramente encolhendo.

Enquanto isso, a indústria segue seu curso. A Steam bate recordes de usuários simultâneos, reforçando a força do digital, e a própria GameStop tenta se reinventar com parcerias, como a venda de controles GameSir em cores exclusivas, e até eventos peculiares, como o leilão de um grampeador que supostamente danificou uma tela do Switch 2 – um marketing, digamos, peculiar.

O fechamento de tantas lojas em tão pouco tempo é mais do que uma estatística; é um sintoma de uma transformação profunda. Para onde vai a GameStop quando tantas portas se fecham? A resposta pode estar menos nas ruas e mais no balanço patrimonial e na volatilidade do mercado de ações, um terreno onde a empresa, como sabemos, já protagonizou capítulos turbulentos. O que parece claro é que o modelo que definiu uma geração de jogadores está sendo rapidamente reescrito, e o custo dessa transição está sendo pago, primeiro, pelo varejo físico.

Mas vamos pensar um pouco além dos números frios. O que significa, na prática, perder quase 500 pontos de venda em um único mês? Para muitos fãs, especialmente em cidades menores ou regiões onde a GameStop era a única opção especializada, isso representa mais do que a perda de um lugar para comprar jogos. Era um ponto de encontro, um espaço para lançamentos à meia-noite, trocas de figurinhas, e aquela conversa rápida com um funcionário que realmente conhecia os games. A digitalização, por mais conveniente que seja, apaga um pouco dessa cultura comunitária que se formou em torno das prateleiras físicas.

E os funcionários? Bom, essa é uma parte da equação que muitas análises financeiras deixam de lado. Cada loja fechada não é apenas um endereço a menos no mapa; são dezenas de pessoas que perdem seus empregos. Vendedores, gerentes, especialistas em trade-in... uma mão de obra que acumulou um conhecimento específico sobre o produto e o cliente. Onde essa expertise vai parar? É um capital humano que se dissipa, e que a empresa terá enorme dificuldade em recuperar se, um dia, decidir que precisa de uma presença física novamente.

A estratégia por trás da retração: sobrevivência ou preparação para algo novo?

Alguns analistas enxergam nessa retração acelerada não um simples corte de custos, mas uma preparação do terreno para uma mudança mais radical de modelo. Será que a GameStop está, na verdade, se livrando de um passivo para se tornar uma empresa mais ágil, talvez focada em e-commerce, marketplaces ou até em novos nichos que não dependam de imóveis caros? A venda de periféricos de terceiros, como os controles GameSir, e a tentativa de criar buzz com itens colecionáveis bizarros (como o tal grampeador) podem ser os primeiros sinais dessa busca por uma nova identidade.

Por outro lado, há um risco claro de se alienar justamente o cliente que ainda valoriza a experiência física. Esse consumidor, muitas vezes mais velho e com poder de compra, é fiel a marcas e a rituais de consumo. Ao forçá-lo para o digital, a GameStop pode estar simplesmente entregando esse cliente de bandeja para a Amazon, para as lojas das próprias fabricantes (Sony, Microsoft, Nintendo) ou para varejistas generalistas como o Walmart, que mantêm uma seção de games em suas lojas físicas. É um jogo perigoso.

E não podemos esquecer do elefante na sala: o fenômeno das "meme stocks". A GameStop não é uma empresa comum; seu valor de mercado é notoriamente volátil e frequentemente desconectado de seus fundamentos tradicionais. Movimentos agressivos como esse podem ser interpretados de maneiras completamente diferentes pelos investidores de varejo que movem suas ações. Para alguns, é um sinal de gestão enxuta e focada. Para outros, pode parecer um desespero que justifica vender as ações. A reação do mercado a cada novo anúncio de fechamento será um termômetro crucial.

O impacto na cadeia: desenvolvedores, distribuidores e o jogo físico

Aqui está um ponto que pouca gente discute: a redução drástica de pontos de venda físicos tem um efeito cascata em toda a indústria. Para desenvolvedores e publicadoras de jogos indie ou de médio porte, a GameStop era uma vitrine importante. Ter seu jogo em uma prateleira, ao lado dos grandes lançamentos, gerava visibilidade que algoritmos de lojas digitais nem sempre replicam. Com menos lojas, esse canal de marketing e descoberta encolhe consideravelmente.

E o que dizer do mercado de jogos usados, que sempre foi a alma do negócio da GameStop? O modelo de trade-in depende criticamente da conveniência física. Levar uma pilha de jogos até uma loja, receber um crédito na hora e sair com um novo título é um ciclo que o digital não consegue reproduzir. Se a rede física murcha, esse ecossistema inteiro – que beneficia jogadores que querem economizar e a própria empresa, que tem margens altíssimas na revenda – entra em colapso. Será que a empresa tem um plano B digital para isso? Até agora, não vimos nada convincente.

Isso me leva a uma reflexão um pouco nostálgica, admito. Lembro da empolgação de ir à loja no dia do lançamento, pegar a caixa física, folhear o manual (quando ainda existiam)... Era parte do ritual. Hoje, é um download silencioso. A conveniência venceu, sem dúvida. Mas a pergunta que fica é: ao abandonar o físico com tanta velocidade, a GameStop está apenas se adaptando a uma realidade inevitável, ou está acelerando a extinção de uma forma de consumo que, para uma parcela significativa de jogadores, ainda tinha valor sentimental e prático?

O futuro, como sempre, é incerto. Talvez vejamos a GameStop se transformar em uma espécie de "showroom" premium, com poucas lojas em grandes centros urbanos focadas em experiências, eventos e produtos de alto valor, enquanto a grande maioria das vendas migra de vez para a internet. Talvez a empresa tente se fundir ou ser adquirida por um conglomerado maior. Ou talvez, e essa é a possibilidade mais sombria, essa retração acelerada seja o prelúdio de um declínio mais profundo, onde a empresa nunca encontra um novo norte após o colapso do modelo que a tornou famosa.

Enquanto isso, nas cidades onde as portas se fecharam, resta o vazio. Uma placa de "aluga-se" onde antes havia posters de lançamentos e filas de fãs. É o fim de uma era, sem cerimônia. E para os que ainda frequentam as lojas restantes, a pergunta que paira no ar é simples: por quanto tempo mais?

Com informações do: Adrenaline