Um relatório recente da SimilarWeb trouxe um dado que pode surpreender quem acompanha o frenesi da inteligência artificial: o Microsoft Copilot, apesar de todo o marketing e integração profunda no Windows 11, parece estar lutando para encontrar seu público. A pesquisa, focada no uso de assistentes de IA pela web, revela que apenas 1,1% dos usuários recorrem ao Copilot. É um número que levanta questões sobre a estratégia da gigante de Redmond e sobre o que realmente atrai as pessoas para essas ferramentas.

Ilustração representando o ChatGPT, o líder de mercado em assistentes de IA

O domínio do ChatGPT e a ascensão dos concorrentes

O cenário, quando olhamos para o uso web, é dominado pelo ChatGPT da OpenAI, que responde por 64,5% do tráfego. Mas aqui está um ponto interessante: esse número, embora ainda colossal, representa uma queda significativa em relação aos 86,7% do ano anterior. O que aconteceu? O mercado está se fragmentando, e novos jogadores estão ganhando espaço.

O grande vencedor dessa mudança parece ser o Google Gemini. A ferramenta do Google deu um salto impressionante, passando de um modesto 5,7% de uso no ano passado para 21,5% atualmente. É um crescimento que mostra a força da marca Google e sua capacidade de integrar a IA em seu ecossistema já existente. Outros, como o Grok (da xAI, de Elon Musk), Claude (da Anthropic) e o Perplexity, também aparecem na pesquisa, todos com participações maiores que a do Copilot. O Grok tem 3,4%, enquanto Claude e Perplexity empatam com 2% cada. Isso coloca o Copilot da Microsoft literalmente na lanterna entre as principais ferramentas medidas.

E pior: a tendência não é positiva para a Microsoft. No período anterior da pesquisa, o Copilot registrava 1,5% de uso na web. Agora, caiu para 1,1%. Enquanto o mercado cresce e se diversifica, a ferramenta da Microsoft parece estar encolhendo neste segmento específico. Isso é um sinal de alerta? Na minha opinião, sim. Em um campo tão novo e volátil, perder participação, mesmo que pequena, pode indicar problemas de percepção ou utilidade.

Imagem promocional de um laptop com o selo Copilot+ PC, destacando a integração da IA da Microsoft no hardware

A janela limitada da pesquisa e a estratégia da Microsoft

Agora, é crucial fazer uma ressalva importante. A pesquisa da SimilarWeb mede apenas o uso pela web. E aí reside a grande defesa da Microsoft: sua estratégia principal não é competir no navegador, mas sim estar embutida no sistema operacional. O Copilot é uma peça central do Windows 11, acionável por um simples atalho de teclado, integrado ao File Explorer, ao Microsoft 365 e sendo empurrado para usuários de PCs "Copilot+ PC" com NPUs dedicadas.

O problema é que essa defesa cria um buraco negro de dados. A Microsoft, de maneira bastante conveniente, não divulga métricas de uso do Copilot dentro do Windows 11. Não sabemos quantos dos mais de um bilhão de usuários do Windows realmente clicam no ícone, fazem uma pergunta ou usam a ferramenta de forma produtiva. Sem esses números, fica difícil avaliar se a estratégia de integração forçada está funcionando ou não.

Mas vamos pensar um pouco. Se o Copilot fosse um sucesso retumbante dentro do Windows, será que seu desempenho na web continuaria tão pífio? Eu acho difícil. Usuários satisfeitos com uma ferramenta tendem a procurá-la em diferentes contextos. A baixa adoção na web pode ser um sintoma de uma experiência geral que não está cativando. Além disso, se os números internos fossem realmente impressionantes, não faria sentido para a Microsoft divulgá-los para contra-atacar narrativas como a desta pesquisa? O silêncio é, muitas vezes, mais eloquente que qualquer comunicado de imprensa.

Os desafios de percepção e a saturação do mercado

O que pode estar acontecendo? Primeiro, há uma questão de "mindshare". O ChatGPT se tornou sinônimo de IA generativa para o público geral, assim como Google se tornou sinônimo de busca. Romper essa associação é um trabalho hercúleo. Segundo, a Microsoft pode estar sofrendo com a percepção de que o Copilot é apenas um "ChatGPT rebrandado", já que a empresa tem um investimento bilionário na OpenAI. Para o usuário comum, qual a vantagem de usar o intermediário (Copilot) se pode ir direto à fonte (ChatGPT) ou a alternativas interessantes como o Gemini?

Outro ponto é a saturação. Assistentes de IA estão em todo lugar: no navegador, no sistema operacional, em apps de produtividade, em smart TVs (como nas TVs da LG que geraram reclamações). O usuário está sendo bombardeados. E quando há excesso de oferta, a escolha recai sobre a ferramenta mais especializada, mais confiável ou simplesmente a que já se está acostumado. O Copilot, tentando ser um assistente geral para tudo no Windows, pode estar falhando em se destacar em qualquer frente específica.

Não podemos ignorar também os tropeços públicos. Incidents como a tentativa de promoção que resultou em um erro da IA ou as preocupações com privacidade que levaram a Microsoft a anunciar que agentes de IA no Windows 11 pedirão permissão para acessar arquivos mancham a imagem de uma ferramenta que precisa, acima de tudo, inspirar confiança.

O caminho à frente para o Copilot não será fácil. A Microsoft claramente aposta que a integração nativa, a conveniência e os futuros PCs com hardware dedicado vão virar o jogo. Mas os dados públicos disponíveis, mesmo que incompletos, pintam um quadro de uma ferramenta que ainda não encontrou sua razão de ser na mente do consumidor. Enquanto isso, a batalha pela atenção do usuário de IA só fica mais acirrada.

O que os números não mostram: uso integrado versus busca ativa

É tentador olhar para esses 1,1% e declarar o Copilot um fracasso, mas a realidade provavelmente é mais matizada. Pense na sua própria rotina: você abre o navegador e digita 'chat.openai.com' quando precisa de uma resposta rápida, ou você pressiona a tecla do Windows + C no seu PC com Windows 11? A pesquisa da SimilarWeb captura apenas o primeiro comportamento, o da busca ativa por uma ferramenta específica. O uso integrado, aquele que acontece quase por osmose dentro de um aplicativo que você já está usando, é muito mais difícil de medir – e é exatamente aí que a Microsoft está apostando todas as suas fichas.

O problema é que essa aposta transforma o sucesso do Copilot em uma variável dependente do sucesso do Windows 11 e do Microsoft 365. Se os usuários estão migrando para outras plataformas, ou se simplesmente ignoram as funcionalidades de IA dentro do Office, o Copilot desaparece junto. É uma estratégia de alto risco. Enquanto o ChatGPT e o Gemini são destinos por si só, o Copilot corre o risco de ser visto como um passageiro, um recurso adicional que você poderia usar, mas não necessariamente precisa usar.

E isso me leva a uma pergunta incômoda: quantas das integrações anunciadas com pompa realmente resolvem uma dor do usuário de forma única? Recapitular uma reunião no Teams é útil, sem dúvida. Mas será que é suficiente para criar um hábito? Ou será que são funcionalidades que você usa uma vez, acha legal, e depois esquece que existem? A adoção de tecnologia, especialmente uma tão nova, raramente é sobre funcionalidades isoladas. É sobre criar um fluxo de trabalho indispensável.

O dilema do "jack of all trades, master of none"

O Copilot tenta ser muitas coisas: um assistente de pesquisa, um gerador de texto, um resumidor de documentos, um criador de imagens, um auxiliar de programação. Em teoria, essa versatilidade é uma vantagem. Na prática, pode ser sua maior fraqueza. Em um mercado onde os usuários estão cada vez mais sofisticados, eles tendem a buscar ferramentes especializadas que fazem uma coisa extremamente bem.

Precisa de uma redação criativa complexa ou de um diálogo profundo? Muita gente ainda vai direto ao ChatGPT-4 ou ao Claude, pela percepção de qualidade superior. Precisa de uma pesquisa web precisa e atualizada? O Perplexity, com suas citações de fontes, ganha pontos. Quer algo integrado ao e-mail e aos documentos? O Gemini, dentro do ecossistema Google, é um concorrente direto e natural. E o Copilot? Fica no meio do caminho, tentando servir a todos os mestres e, possivelmente, não servindo perfeitamente a nenhum.

A Microsoft parece estar ciente disso. A aposta nos "Copilot+ PCs" com NPUs poderosas é uma tentativa de criar uma vantagem tangível que vá além do software: a velocidade e a privacidade do processamento local. A ideia de agentes de IA que possam realizar tarefas complexas em segundo plano – agendar reuniões cruzando calendários, organizar arquivos, preparar relatórios – é o Santo Graal. Mas estamos falando de uma promessa futura, enquanto os números de hoje mostram uma realidade bem menos glamorosa.

E não podemos esquecer do fator cansaço. O "pop-up" do Copilot no Windows 11, para alguns, não é uma conveniência; é uma intrusão. A sensação de que o sistema operacional está constantemente tentando te vender ou empurrar uma ferramenta pode gerar o efeito oposto ao desejado: a rejeição ativa. Desabilitar, ignorar ou simplesmente nunca abrir a ferramenta se torna um ato de rebeldia digital contra uma integração que parece forçada.

O tabuleiro corporativo: onde a guerra pode ser diferente

Toda essa discussão tem um foco massivo no consumidor final, mas o mercado corporativo é um jogo completamente diferente – e um onde a Microsoft tem uma fortaleza quase inexpugnável. É aqui que a estratégia de integração pode fazer muito mais sentido. Para uma empresa, ter uma ferramenta de IA embutida no Microsoft 365, com governança, controles de segurança e compliance de dados já estabelecidos, é infinitamente mais atraente do que permitir que os funcionários usem uma variedade de ferramentas de IA públicas.

O Copilot for Microsoft 365, com seu preço premium por usuário, não aparece na pesquisa da SimilarWeb. Seu sucesso ou fracasso é medido em contratos de licenciamento, não em acessos web. E é plausível que, nos corredores corporativos, o Copilot encontre seu verdadeiro nicho e justificativa de valor. A produtividade mensurável em tarefas repetitivas com Excel, PowerPoint e Outlook pode, sim, criar um caso de uso irrefutável.

No entanto, isso cria uma dicotomia estranha para a marca. No consumidor, ela é vista como uma seguidora, com baixa adoção. No corporativo, pode se tornar uma líder. Essa divisão pode diluir ainda mais seus esforços de marketing e confundir sua proposta de valor pública. Será que a Microsoft conseguirá manter duas narrativas tão distintas para o mesmo produto? Ou o desempenho fraco no segmento consumer acabará contaminando a percepção no enterprise?

A pressão só aumenta. A Apple deve entrar no jogo com sua própria IA integrada ao iOS e macOS, provavelmente com o charme característico de "simplesmente funciona". A Google continua refinando o Gemini e integrando-o em cada pixel do Android e do Chrome. O campo está ficando lotado, e o tempo de "testar e ver no que dá" está se esgotando rapidamente. A próxima movimentação da Microsoft precisa ser mais do que um novo atalho de teclado ou uma integração com outro app; precisa ser uma demonstração clara e irresistível de por que o Copilot é indispensável. Até lá, os relatórios continuarão contando uma história de números baixos e perguntas sem resposta.

Com informações do: Adrenaline