Um alerta severo vindo de um dos principais nomes do setor de armazenamento está agitando o mercado de tecnologia. Pua Khein-Seng, CEO da Phison, empresa taiwanesa especializada em controladores para SSDs e memória flash, fez uma previsão sombria em uma entrevista recente: até o final de 2026, um número significativo de fabricantes de dispositivos de consumo pode falir ou ser forçada a abandonar linhas de produtos inteiras. E o culpado, segundo ele, é um único e voraz consumidor: o boom da inteligência artificial.

CEO da Phison alerta sobre falência e fim de fabricantes de dispositivos

A Escassez que Vai Durar Anos

Khein-Seng não está falando de um problema passageiro. Na entrevista ao ChenTalkShow, ele foi categórico ao afirmar que a escassez de DRAM e memória NAND Flash deve persistir pelo menos até 2030. A demanda das empresas de IA por esses componentes é tão colossal que está remodelando toda a cadeia de suprimentos. Você consegue imaginar uma empresa tendo que pagar por componentes com três anos de antecedência? Pois é exatamente isso que está acontecendo. As fabricantes de memória, diante da enxurrada de pedidos, estão exigindo pagamentos adiantados com prazos de até três anos para fechar contratos de fornecimento.

E o pior? Nem mesmo os investimentos bilionários em novas fábricas por parte de gigantes como Samsung, Micron e SK Hynix devem ser suficientes para aliviar a pressão no curto e médio prazo. A situação é tão crítica que até mesmo o aumento da produção por fabricantes chinesas terá um impacto limitado, já que boa parte de sua capacidade já está comprometida com a demanda interna do próprio país, como já foi noticiado por outros veículos. É um verdadeiro cabo de guerra por recursos, e o consumidor comum está perdendo força.

Smartphones e PCs na Linha de Fogo

Quem vai sentir primeiro o baque? Para o CEO da Phison, o setor de smartphones será um dos mais atingidos. Ele projeta uma queda brutal nas remessas globais: algo entre 200 e 250 milhões de unidades a menos em um ano. Pense nisso. É como se toda a produção de um grande fabricante simplesmente desaparecesse do mapa. A razão é simples e dolorosa: a memória RAM pode representar até 20% do custo total de um smartphone. Com os preços nas alturas e a disponibilidade escassa, as montadoras ficam encurraladas. Elas são naturalmente mais cautelosas para não acumular grandes estoques de componentes caros, mas essa prudência as coloca em desvantagem na fila de prioridades das fornecedoras de memória, que naturalmente preferem clientes que compram em volume maior e com menos hesitação.

Mas não para por aí. O mercado de PCs também deve encolher, assim como o de televisores e qualquer outro produto que dependa desses componentes. Até o setor automotivo, que muitos imaginavam mais blindado, está sofrendo. Khein-Seng deu um exemplo assustador: o preço de 8 GB de memória eMMC para carros saltou de míseros US$ 1,50 no início de 2025 para quase US$ 30 hoje. Um aumento de 2000% que certamente será repassado ao consumidor final.

"No lado dos consumidores, muitas companhias vão morrer. Se você não consegue componentes, um produtor de sistemas sem uma única parte não consegue continuar operando", alertou o executivo. É uma lógica cruel, mas implacável. Uma linha de produção para quando falta um único parafuso, imagine quando falta o cérebro do dispositivo.

O Papel da NVIDIA e o Futuro dos Gadgets

E quem é o grande vilão dessa história? Na visão de Khein-Seng, a NVIDIA tem uma parcela significativa de responsabilidade. Ele fez um cálculo revelador: cada GPU Vera Rubin, a próxima geração de chips da empresa voltada para IA, carrega "mais de 20 TB de SSDs". Agora, faça as contas: se a NVIDIA produzir 10 milhões dessas unidades, ela sozinha consumiria mais de 20% de toda a produção mundial de memória NAND Flash em um ano. É um número de cair o queixo e que ilustra a escala monstruosa da demanda por parte do setor de IA.

Enquanto isso, empresas que operam grandes data centers, embora também sintam o aperto, têm mais músculo financeiro para lidar com a crise. Para elas, a memória é uma parte importante, mas não dominante, do investimento total. Por isso, podem se comprometer com compras maiores e mais antecipadas, garantindo seu lugar na fila de fornecimento e deixando os fabricantes de bens de consumo em posição ainda mais frágil.

O que isso significa para nós, consumidores? Na prática, podemos esperar menos lançamentos, menos inovação em segmentos de entrada e médios, e, claro, preços mais altos para os produtos que chegarem às prateleiras. A era da abundância de gadgets baratos e poderosos pode estar dando uma pausa forçada. A corrida desenfreada pela próxima grande inovação em IA está, ironicamente, sufocando a inovação em outros campos da tecnologia que usamos no dia a dia. Resta saber como as fabricantes vão se adaptar – ou quantas vão realmente sobreviver a esse terremoto na cadeia de suprimentos.

Fontes: PC Gamer, VideoCardz

O Efeito Cascata na Cadeia de Fornecedores

Mas a crise não se limita às grandes marcas que vemos nas lojas. É um terremoto que começa muito antes, nos níveis mais profundos da cadeia de produção. Pense nos fabricantes de placas-mãe, nos produtores de gabinetes, nas empresas que fazem coolers especializados. Muitas delas são pequenas ou médias, operando com margens apertadas e dependendo de um fluxo constante de pedidos para se manterem à tona. Quando a montagem de um PC ou smartphone é adiada ou cancelada por falta de memória, todo esse ecossistema de fornecedores secundários sente o impacto imediatamente.

Eu já vi isso acontecer em ciclos anteriores de escassez, mas nunca nessa escala. Um distribuidor de componentes me contou, em off, que está tendo que renegociar contratos semanais com clientes porque simplesmente não consegue garantir a entrega de módulos de RAM DDR5 para builds de PCs gamers. "É como tentar prever o tempo com um mês de antecedência", ele brincou, sem graça. A incerteza está paralisando o planejamento.

E isso cria um círculo vicioso perigoso. Fabricantes de dispositivos, temendo não conseguir os componentes principais, reduzem os pedidos de peças auxiliares. Os fornecedores dessas peças, por sua vez, reduzem a produção e demitem funcionários. Quando (e se) a situação da memória melhorar, pode não haver mais uma cadeia de suprimentos completa e ágil para retomar a produção em velocidade. A recuperação, portanto, pode ser muito mais lenta do que o esperado.

Inovação em Ponto Morto

Um aspecto que me preocupa profundamente, e que vai além dos preços, é o congelamento da inovação. Em tempos de recursos abundantes e baratos, as empresas competem para trazer novidades: telas com taxas de atualização mais altas, designs mais finos, baterias de maior capacidade, câmeras mais avançadas. Mas quando o custo da memória consome uma fatia enorme do orçamento de um produto, o que sobra para pesquisa e desenvolvimento?

A resposta, infelizmente, é: muito pouco. Khein-Seng tocou nesse ponto de forma indireta, mas a implicação é clara. As empresas vão priorizar a sobrevivência, não a evolução. Podemos entrar em uma fase de "iteração mínima" – novos modelos de smartphone que são, essencialmente, o modelo do ano anterior com um chipset ligeiramente diferente, porque não há margem orçamentária para redesenhar a placa interna ou investir em uma nova tecnologia de tela.

E os consumidores mais sensíveis ao preço, que impulsionam o volume de vendas, serão os mais prejudicados. A lacuna entre os "flagships" caríssimos, que ainda terão algum grau de inovação, e os dispositivos de entrada, que se tornarão basicamente commodities estagnadas, deve aumentar drasticamente. A classe média tecnológica pode simplesmente desaparecer.

Gráfico mostrando a projeção de queda nas remessas de smartphones

Estratégias de Sobrevivência e os "Novos Players"

Então, o que as fabricantes podem fazer além de esperar pelo melhor? Algumas estratégias de sobrevivência já começam a surgir, e nem todas são boas para nós, consumidores. A primeira e mais óbvia é a consolidação. Fusões e aquisições devem se tornar comuns, com empresas maiores engolindo as menores para ganhar escala e poder de barganha com as fornecedoras de memória. O mercado pode ficar menos diverso e mais oligopolizado.

Outra tática é a verticalização extrema. Empresas como a Apple, que já projetam seus próprios chips, podem ser tentadas a investir pesado no desenvolvimento de suas próprias soluções de memória ou em parcerias exclusivas e de longo prazo com fabricantes. Isso garantiria seu suprimento, mas também trancaria a tecnologia, tornando-a menos acessível para o resto do mercado.

E não podemos descartar o surgimento de players completamente novos. A escassez é uma oportunidade dourada para empresas com acesso a capital e a fontes alternativas de componentes. Fabricantes chinesas, por exemplo, que têm prioridade na produção local de memória, podem usar essa vantagem para invadir mercados internacionais de forma agressiva, oferecendo dispositivos com especificações semelhantes a preços mais competitivos – ou pelo menos, disponíveis. O mapa global da tecnologia pode ser redesenhado por essa crise.

Há também a possibilidade, embora remota, de uma aceleração na adoção de tecnologias alternativas. A pressão por memória pode revitalizar pesquisas em tipos diferentes de armazenamento não-volátil, ou em arquiteturas de computação que dependam menos de grandes quantidades de RAM. A necessidade, como diz o ditado, é a mãe da invenção. Mas essas são soluções para daqui a uma década, não para os próximos dois ou três anos.

No fim das contas, o alerta do CEO da Phison é um chamado para o realismo. A bolha da IA não vai estourar; ela está se expandindo e absorvendo os recursos ao seu redor. O setor de tecnologia de consumo, acostumado a décadas de crescimento contínuo e componentes cada vez mais baratos, está enfrentando seu teste de estresse mais severo. A próxima vez que você for comprar um novo notebook ou celular e estranhar o preço, a falta de opções ou a sensação de "já vi isso antes", lembre-se: você não está apenas olhando para um produto. Você está olhando para o resultado de uma guerra industrial silenciosa, travada em fundições e salas de reunião, cujo prêmio final é o poder de processar o futuro.

Com informações do: Adrenaline