A China, que vinha liderando a corrida pela digitalização total dos interiores automotivos, deu um passo atrás inesperado. O governo decidiu intervir e estabelecer novas regras que obrigam a presença de botões físicos para funções essenciais de segurança, freando uma tendência de design que priorizava telas sensíveis ao toque e interiores "limpos". Esta medida coloca em xeque uma filosofia estética que vinha sendo amplamente adotada, especialmente pelos fabricantes de veículos elétricos. Será que a praticidade e a segurança estão finalmente prevalecendo sobre o minimalismo radical?
O que a nova regulamentação exige
O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China propôs normas específicas para garantir que comandos vitais não fiquem perdidos em menus digitais. Itens como luzes de direção, pisca-alerta, seletores de marcha e chamadas de emergência precisarão ter controles físicos dedicados. E não são quaisquer botões: o governo estabeleceu que eles devem ter uma área mínima de 10 mm por 10 mm, um tamanho que permite o acionamento tátil e intuitivo.
O objetivo é claro: permitir que o motorista execute ações críticas sem precisar desviar o olhar da estrada para navegar por submenus em uma tela. Na prática, isso significa que a busca por um interior totalmente livre de interruptores, uma espécie de "sala de estar sobre rodas", encontrou um limite imposto pela segurança. A mudança surge após uma série de queixas sobre a complexidade desses sistemas, onde ícones digitais pequenos ou respostas lentas transformam uma simples ação em uma fonte de distração.

Um debate global sobre segurança e usabilidade
O movimento chinês ecoa um questionamento que já vinha ganhando força na Europa e em outros mercados. Críticos argumentam há tempos que a digitalização excessiva, embora visualmente atraente, compromete a usabilidade. Imagine tentar ligar o desembaçador traseiro durante uma chuva forte, tendo que passar por três telas diferentes enquanto dirige. É frustrante e, mais importante, perigoso.
Na Europa, essa discussão já gerou queixas formais de associações de consumidores e especialistas em segurança veicular. O debate vai muito além da estética; é funcional. Até que ponto um painel limpo e futurista compensa a perda da capacidade de operar funções por memória muscular? A China, curiosamente, já havia vetado outras inovações consideradas arriscadas, como volantes em formato de manche e maçanetas de portas retráteis ocultas, alegando riscos em colisões e na ativação de airbags. Esta nova regra parece ser a continuação lógica dessa postura cautelosa.

Impacto nas montadoras e no futuro da direção autônoma
O impacto é direto para as fabricantes chinesas, que estavam entre as mais entusiastas do design sem botões. Marcas como BYD, NIO e Xpeng terão que revisitar seus projetos. Mas a nova norma não para nos botões físicos. Ela também endurece significativamente as regras para sistemas de condução autônoma de Nível 3 e Nível 4.
Agora, as montadoras precisam comprovar, através de relatórios detalhados, que a tecnologia se comporta de forma tão competente quanto um motorista humano atento. Em minha opinião, este é o ponto mais crucial da regulação. E vai além: se o sistema falhar ou se o condutor não responder a alertas, o veículo deve ser capaz de atingir sozinho uma "condição de risco mínimo". Isso é enorme. Além disso, a norma formaliza a assistência remota, permitindo que um operador humano assuma o controle à distância em situações críticas que confundam o software do carro.

O que isso tudo significa? O mercado que mais apostava em um futuro totalmente digitalizado para a cabine do motorista está sinalizando um retorno à ergonomia tradicional. É um reconhecimento tácito de que, no fim das contas, um carro é uma máquina operada por pessoas, e sua interface deve priorizar a segurança e a eficiência operacional acima de qualquer tendência de design. Talvez estejamos testemunhando o início de um equilíbrio mais sensato entre a inovação tecnológica e os princípios básicos de usabilidade que conhecemos há décadas. Outros mercados globais certamente observarão de perto os resultados dessa intervenção regulatória.
Mas será que essa mudança é apenas uma questão de regulamentação, ou reflete uma mudança mais profunda na percepção dos consumidores? Em minhas conversas com entusiastas de carros e até com motoristas comuns, percebo uma certa nostalgia pelos controles físicos. Há uma satisfação tátil em girar um botão de volume ou clicar um interruptor que uma tela de toque simplesmente não consegue replicar. E, francamente, em um dia frio com luvas ou com os dedos suados, a frustração de não conseguir acertar um ícone minúsculo na tela é real.
O custo oculto da "simplicidade" digital
Um aspecto pouco discutido é o custo de manutenção e reparo. Um painel repleto de telas gigantes é visualmente impressionante, mas e quando ele falha? A substituição de uma tela curva integrada ao painel pode custar uma pequena fortuna, transformando um problema eletrônico em um pesadelo financeiro. Botões físicos, por outro lado, são geralmente módulos independentes e mais baratos de trocar. A nova regra chinesa, mesmo que não mencione isso diretamente, pode acabar forçando as montadoras a reconsiderar a arquitetura de custos de seus interiores, tornando os carros potencialmente mais acessíveis para consertar a longo prazo.
E há também a questão da obsolescência. A interface de um carro com botões físicos dedicados para funções básicas dificilmente parecerá "antiga" daqui a cinco anos. Já um sistema de infotainment com gráficos e menus complexos pode rapidamente se tornar lento e desatualizado, como um smartphone velho preso ao seu painel. A China, ao forçar a permanência do físico, pode estar inadvertidamente aumentando a vida útil percebida do veículo.

O desafio para os designers: inovar dentro dos limites
Agora, o grande desafio será para os estúdios de design. Como criar interiores que sejam modernos, elegantes e ainda assim acomodem botões físicos com áreas mínimas definidas? Acredito que veremos uma onda de criatividade. Talvez os botões se tornem elementos tátis integrados a superfícies, com iluminação dinâmica que os torne visíveis apenas quando necessário. Ou controles multifuncionais rotativos que, com um simples gesto, ajustem desde o volume do rádio até a temperatura do banco.
O risco, claro, é que algumas montadoras tratem a regra como uma mera checklist, colocando fileiras de botões genéricos e baratos que estraguem a estética do interior. A verdadeira vitória do design será integrar esses controles de forma tão harmoniosa que o usuário nem perceba que estão lá por obrigação, mas sim por uma escolha inteligente. Marcas premium, como a NIO com seu famoso assistente NOMI, podem usar isso a seu favor, criando uma interação híbrida onde o físico e o digital se complementam de maneira fluida.
E não podemos esquecer o fator cultural. O mercado chinês é massivo e diverso. Enquanto os jovens urbanos em Xangai podem adorar telas gigantes, motoristas em regiões mais frias ou mais velhos podem valorizar muito mais a simplicidade e confiabilidade de um botão. A regulamentação pode ser uma forma do governo garantir que os carros continuem sendo acessíveis e utilizáveis para todo o seu vasto público, não apenas para a elite tecnológica das grandes cidades. É uma decisão que coloca a funcionalidade universal acima da inovação de nicho.
O efeito dominó nos fornecedores globais
Essa mudança na China não afeta apenas as montadoras locais. Grandes fornecedores globais de componentes, como Bosch, Continental e Denso, que vinham investindo pesadamente em soluções de telas integradas e superfícies sensíveis ao toque, agora podem precisar reavaliar seus portfólios. A demanda por interruptores e módulos de botões de alta qualidade, com acabamento premium e feedback tátil aprimorado, deve crescer significativamente.
Já imaginou o cenário? Podemos ver uma nova corrida por inovação justamente na área dos controles físicos. Botões com resposta háptica que simulem o clique de uma câmera profissional, interruptores com resistência ajustável, ou materiais que mudam de textura com a temperatura. A ironia é que a regra que parece frear a inovação pode, na verdade, redirecioná-la para um caminho diferente e igualmente interessante. Em vez de telas cada vez maiores, a competição pode ser por quem cria a experiência tátil mais satisfatória e intuitiva.

O que me deixa curioso é como as montadoras ocidentais vão reagir. A Tesla, ícone do interior minimalista, dificilmente voltará atrás em seu design filosófico para o mercado chinês. Ela pode criar uma versão especial? Ou argumentar que seu sistema de comando por voz é suficiente para substituir os botões físicos? A BMW e a Mercedes-Benz, que já mantêm alguns controles físicos em seus modelos premium, podem usar isso como um trunfo de marketing, destacando a "ergonomia pensada no ser humano" em contraste com o minimalismo radical.
E no Brasil, onde o custo é um fator primordial, essa tendência pode ser bem recebida. Carros com menos telas complexas e mais componentes físicos robustos podem se traduzir em veículos mais baratos de produzir e, consequentemente, de comprar. Pode ser o empurrão que faltava para algumas montadoras repensarem a enxurrada de telas de baixa resolução que vemos em alguns modelos populares atuais, que mais atrapalham do que ajudam.
A verdade é que estamos no meio de um experimento global de usabilidade. A China acabou de ajustar os parâmetros desse experimento de forma drástica. Os próximos modelos que saírem das linhas de produção chinesas serão os primeiros resultados tangíveis. Serão carros mais seguros? Mais fáceis de usar? Ou acabarão com um design comprometido, nem futurista nem prático? A resposta a essas perguntas vai moldar não apenas o futuro dos carros na China, mas a direção que todo o setor automotivo global vai tomar na próxima década. Outros governos estão certamente observando, com seus próprios grupos de consumidores reclamando das mesmas frustrações. O retrocesso chinês pode muito bem se tornar a nova tendência mundial.
Com informações do: Quatro Rodas











