A Honda está prestes a lançar um novo subcompacto elétrico que parece ter saído de uma cápsula do tempo, mas com a tecnologia do futuro. O Super-One, baseado no popular N-One, chega às linhas de produção mantendo quase integralmente o visual ousado dos protótipos, algo raro em uma indústria que costuma "domesticar" os carros-conceito. E o mais interessante? Ele parece mirar diretamente no sucesso do BYD Dolphin Mini, mas com uma personalidade totalmente própria.

Honda Super-One

Design: Uma Viagem no Tempo com Faróis LED

O que mais chama a atenção no Super-One é, sem dúvida, seu visual. A Honda optou por uma interessante mescla entre modernidade e ares de nostalgia. A dianteira, com seus faróis redondos interligados por uma faixa escura, é uma clara homenagem ao primeiro compacto elétrico da marca. Mas não se engane pela simplicidade aparente.

Os para-choques são exclusivos, os para-lamas foram alargados com apliques específicos e as rodas de liga leve de 15 polegadas parecem ter sido inspiradas em desenhos de quatro raios típicos dos anos 1980. É como se um designer dos anos 80 tivesse sonhado com o carro do futuro. A traseira também tem seu charme, com lanternas verticais que parecem "vazadas" por um elemento central. Só fico pensando se aquela tampa grande do porta-malas, incorporada ao para-choque, não vai sofrer com pequenas pancadas no dia a dia.

Interior e Performance: O Que Esperar do "Boost Violet"

Dentro do carro, a temática retrô-moderna continua. A Honda criou um tom de roxo exclusivo, o "Boost Violet Pearl", que aparece não só na pintura externa, mas também em detalhes internos como grafismos no painel e, curiosamente, no botão "Boost Mode" no volante. Parece que eles querem que você nunca esqueça que está dirigindo algo especial.

O interior traz bancos esportivos com encostos fixos em três tons (cinza, azul e branco), quadro de instrumentos digital de sete polegadas e até um sistema de som Bose com oito alto-falantes. Não é pouca coisa para um subcompacto.

Interior do Honda Super-One

Agora, sobre o que realmente importa: o que há sob o capô? A Honda ainda está guardando alguns segredos, como a capacidade da bateria e a autonomia oficial. No entanto, informações vazadas pela divisão de Singapura dão uma boa pista. O Super-One deve vir com um motor elétrico de 95 cv e 16,52 kgfm de torque.

Isso o coloca em uma posição interessante no mercado. Ele fica ligeiramente acima do BYD Dolphin Mini (75 cv) e empata em potência com o BYD Dolphin maior (também 95 cv). Mas há um detalhe que pode fazer toda a diferença: o peso. Com cerca de 1.100 kg, o Super-One seria aproximadamente 20 kg mais leve que o Dolphin Mini e impressionantes 415 kg mais leve que o Dolphin padrão. Em um carro elétrico, menos peso geralmente significa mais eficiência e, quem sabe, uma autonomia mais interessante.

O Contexto Japonês e a Estratégia Global

Para entender o Super-One, é útil olhar para seu irmão a gasolina, o N-One. No Japão, existe uma versão elétrica do N-One chamada "N-One e:" que usa um motor de apenas 64 cv para se enquadrar nas rígidas regras dos kei cars (carros minúsculos com benefícios fiscais). Essa versão tem uma bateria de 29,6 kWh e uma autonomia declarada de 295 km.

O Super-One claramente não é um kei car. Com seus 95 cv e dimensões que rivalizam com o Dolphin Mini, ele parece ser um produto pensado para mercados internacionais onde o conceito de carro minúsculo não é tão relevante. É a Honda tentando criar um elétrico urbano global, com personalidade forte o suficiente para se destacar em um mar de SUVs e crossovers genéricos.

Detalhe da traseira do Honda Super-One

Resta saber se o apelo retrô e a promessa de uma direção mais esportiva (aquele botão "Boost" no volante não está lá por acaso) serão suficientes para conquistar compradores acostumados com a tecnologia e o preço competitivo dos chineses, como a BYD. A Honda sempre teve um público fiel que valoriza a confiabilidade e a engenharia, mas o mercado de elétricos é um jogo diferente.

E você, o que acha? Um design retrô é um diferencial suficiente em um mercado que prioriza autonomia, preço e tecnologia de infotainment? Ou a Honda pode ter encontrado uma fórmula única para atrair quem busca um carro elétrico com mais personalidade?

Falando em autonomia, esse é o grande ponto de interrogação que paira sobre o Super-One. A Honda tem sido tradicionalmente conservadora – alguns diriam até cautelosa demais – quando se trata de anunciar números de alcance para seus elétricos. Enquanto marcas chinesas frequentemente divulgam autonomias otimistas baseadas no ciclo WLTP mais favorável, a cultura de engenharia japonesa tende a preferir números mais realistas, que possam ser consistentemente alcançados no mundo real. Essa diferença de filosofia pode criar uma percepção inicial desfavorável em uma ficha técnica, mas quem já dirigiu um Honda sabe que a promessa geralmente é cumprida.

E o preço? Ah, o preço. Esse será o verdadeiro teste de fogo. O BYD Dolphin Mini chegou ao mercado com uma proposta agressiva, posicionando-se como uma opção acessível de entrada. A Honda, por outro lado, carrega o peso (e o custo) de sua reputação de qualidade, confiabilidade e um certo "premium" percebido, mesmo em modelos de entrada. O Super-One, com seu design exclusivo, interior mais elaborado e som Bose, claramente não pretende ser o elétrico mais barato do mercado. A pergunta de um milhão de ienes é: quanto mais caro os consumidores estão dispostos a pagar por essa personalidade retrô e pela promessa da engenharia Honda?

O Botão "Boost" e a Filosofia de Direção

Aquele botão roxo no volante não é apenas um detalhe estético. Ele revela muito sobre a intenção da Honda com este carro. Em um mercado onde muitos elétricos compactos são projetados puramente para eficiência máxima – suaves, silenciosos, mas por vezes anódinos – o Super-One parece querer oferecer algo mais. O "Boost Mode" sugere um mapa de motor mais agressivo, liberando talvez a potência total de forma mais imediata, ou modificando a resposta do acelerador para uma sensação mais esportiva.

Isso me lembra um pouco do Honda e, de primeira geração. Aquele carro, apesar de seu foco na eficiência, tinha uma direção surpreendentemente comunicativa e uma agilidade que divertia. Será que a Honda está tentando replicar essa fórmula no Super-One? Criar um elétrico urbano que não seja apenas um aparelho de transporte, mas um objeto que proporcione prazer ao dirigir? Em uma era de assistentes de condução e modos de direção ultra-suaves, essa pode ser uma proposta ousada e refrescante. Afinal, dirigir ainda pode ser sobre sentir a estrada, não apenas sobre chegar ao destino.

Honda Super-One de perfil

Outro aspecto crucial será a experiência de recarga e a infraestrutura oferecida. A BYD e outras marcas chinesas frequentemente empacotam ofertas atrativas de wallboxes ou créditos em redes de carregamento. A Honda precisará fazer algo similar para ser competitiva. Mais do que isso, a velocidade de carregamento DC será um número a ser observado de perto. Em um carro projetado para a cidade, com uma bateria provavelmente na casa dos 40 kWh, uma recarga de 10% a 80% em torno de 30 minutos seria o ideal para viagens rápidas e uso no dia a dia.

O Design como Diferencial em um Mar de Similaridade

Vamos ser honestos: muitos carros elétricos novos, especialmente os compactos, estão começando a parecer iguais. Formas aerodinâmicas e suaves, faróis finos em LED, superfícies limpas. É uma linguagem visual eficiente, mas que pode ser... sem graça. O Super-One, com suas formas quadradas, faróis redondos e detalhes cromados, é uma declaração opositora. Ele não tenta se esconder; ele quer ser notado.

Esse é um risco calculado. Para alguns compradores, principalmente os mais jovens ou aqueles que veem o carro como uma extensão de seu estilo pessoal, esse design será um imã. Para outros, mais tradicionais ou que priorizam a discrição, pode ser um exagero. Mas em um segmento que muitas vezes carece de emoção, a ousadia pode ser justamente o que falta. A Honda parece estar apostando que há um nicho significativo de pessoas cansadas do minimalismo genérico e que anseiam por um carro com alma e história visual, mesmo que seja uma história reinventada.

E não podemos ignorar o fator "cultivo". Carros com designs marcantes e fora da curva, como o primeiro Fiat 500 moderno ou o Mini Cooper, muitas vezes criam comunidades de entusiastas fiéis. Eles se tornam mais do que um meio de transporte; tornam-se um hobby, uma paixão. O Super-One, com suas referências aos anos 80/90 e seu visual quase de "hot hatch" retrô, tem todo o potencial para catalisar esse tipo de fervor. Imagine clubes de proprietários, encontros, personalizações... é um ecossistema que uma marca como a Honda sabe muito bem como cultivar.

No fim das contas, a chegada do Honda Super-One é um sinal saudável para o mercado. Ela mostra que a eletrificação não precisa significar a homogeneização total do design e da experiência de direção. Ainda há espaço para personalidade, para escolhas arriscadas, para carros que fazem você sorrir ao vê-los na garagem. A batalha contra o Dolphin Mini e outros compactos elétricos não será vencida apenas por especificações no papel, mas por qual carro consegue criar uma conexão emocional mais forte com seu dono. A Honda está claramente tentando falar ao coração, e não apenas à calculadora. Resta saber se o mercado está ouvindo.

Com informações do: Quatro Rodas